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durante anos a fio ouvimos dizer, ou por mensagens subliminares, que no Porto e no Norte se concentrava a corrupção em Portugal. até criaram o Caso Pito Dourado para justificar essa imagem, tentando linchar Pinto da Costa na imprensa. não faltaram os acusadores públicos da corrupção a Norte, com epicentro no FC Porto, ou em autarcas de duvidosa credibilidade, como Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro ou até o Nuno Cardoso.
em Lisboa e a sul, corrupção era sinónimo do Norte ou algumas suas instituições emblemáticas. no entanto, quando se procura conhecer a extensão e gravidade da corrupção, ela começa logo mesmo na Capital. mas vamos à anedótica situação sobre as notícias da corrupção em Portugal que foram ventiladas nos últimos dias. Pedro Santana Lopes decide mobilizar-se para se candidatar à autarquia alfacinha. começa a labaorar a sua estratégia e eis que, pois então, ficamos a saber que é arguido num caso de favorecimento pessoal, abuso de poder e quiçá corrupção. na mesma altura em que publicamente Santana Lopes mostra-se disponível para ser candidato do PSD à autarquia lisboeta, a Justiça portuguesa decide pedir o levantamento da imunidade parlamentar ao antigo Primeiro-Ministro, a uma sua ex-Vereadora aquando da sua Presidência de Lisboa e oa Deputado do PSD, seu colaborador directo. espantosa coincidência. PSL mostra-se disponível para uma candidatura e logo a Justiça o considera arguido. e qual o crime? terá intervido directamente na atribuição de uma casa a cada dos seus dois motoristas, moradores fora de Lisboa. mas há mais. a mulher do ex-Primeiro-Ministro, Durão Barroso, também do PSD, foi ouvida pelas autoridades porque, veja-se bem o crime dela, intercedeu junto do poder político, para a atribuição de uma casa camarária a uma pobre senhora com 3 filhos doentes e raquíticos. mas é crime e e ela não o devia ter feito. ok. agora vamos ao verdadeiro escândalo. ![]() quem maquinou esta tramoia contra o Santana Lopes, perigoso corrupto que alugou duas casas camarárias aos seus motoristas? vejamos então. Isabel Soares, socialista e colaboradora do número dois político do PS Lisboa, Perestrello, vivia numa casa camarária em 2004. parece que era pobre e teve direito a uma casa camarária há muitos anos atrás. então teve uma boa ideia. propòs-se a comprar a casa onde vivia à Cámara de Lisboa em 2004 por... 10 000 euros! no entanto a Vereadora de então negou esse pedido pela socialista e hoje é arguida num caso de corrupção... na atribuição de casas camarárias.estranha coincidência, esta Isabel Soares é dirigente autárquica pelo PS. mas há mais. Ana Sousa Brito, outra socialista de gema e actual Vereadora da Cámara de Lisboa, terá sido uma das mentoras das denúncias na PGR contra a ex-Vereadora do PSD e Santana Lopes. também andou pelos telejornais a mostrar indignação pelo realojamento dos ex-moradores do Bairro da Liberdade, que teriam sido instalados pela ex-Vereadora social-democrata em casas camarárias de boa qualidade, mas de rendas baixas ou mesmo isentos de pagamento. além de ter sido umas denunciantes dos abusos de poder do Santana Lopes e da ex-Vereadora do PSD, ficamos a saber que também, durante pelo menos 18 anos, foi uma moradora numa casa camarária, com direito a pagamento reduzido do aluguer. e aquilo que ela considerava escandaloso para os moradores do Bairro Liberdade, expropriados pela autarquia e realojados por isso mesmo, já o deixa de o ser, pois ela era um caso especial, que merecia uma atenção especial da autarquia, que agora é Vereadora. não se demitiu ainda nem o deverá fazer, pois não deverá ter vergonha na cara. mas este caso gigantesco de corrupção em Lisboa não se fica por aqui. até o ex-PR Jorge Sampaio, membros da PGR e muitas outras individualidades terão tentado influenciar a atribuição de casas camarárias a baixo preço a várias pessoas. no entanto, só 3 pessoas, a saber, todas do PSD, foram arguidas neste caso Lisboagate. curiosamente, por coincidência, a PGR decide pedir a anulação da imunidade parlamentar do Santana Lopes quando este torna pública a sua intenção de candidatar-se contra... António Costa, socialista, Presidente da Cámara de Lisboa. para ser mais sórdido este caso, este fim de semana ficamos a saber que mais de 3200 casas foram atribuidas através do sistema de cunhas. e foram atribuidas a jornalistas, políticos, familiares dos políticos, colaboradores da Cámara, seus familiares, escritores e até dirigentes de futebol. a notícia é por si só uma amostra de como se fomenta a corrupção, a compra de votos, silêncios comprometedores, críticas públicas, etc. Quote:
ora, a corrupção é generalizada em Lisboa. mas o pior não é isso. o pior é que esta corrupção é apenas a ponta do véu da enorme corrupção, tráfico de influências, abusos de poder e outras tropelias que acontecem em Lisboa e nos seus arredores. mas o mais castiço é o seguinte. os únicos arguidos do caso são 3 pessoas ligados ao PSD. o Santana Lopes, por causa das casas entregues aos seus motoristas; a sua ex-Vereadora que negou as propostas das socialistas que depois denunciaram à PGR o caso contra PSL e seus colaboradores e um seu ex-chefe de gabinete, ou lá o que era. mas o curioso, pasme-se, é que membros da PGR, os tais que agora acusam PSL e seus colaboradores de corrupção e abusos de poder, também pediram casinhas. mas que foram negadas pelos agora acusados. Lisboa é a Sicilia da Península Ibérica.
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alguns links interessantes:
http://jn.sapo.pt/paginainicial/pais...ent_id=1018939 http://dn.sapo.pt/2008/09/25/cidades...mara_anos.html http://papaacordas.blogspot.com/2008...de-lisboa.html e isto ainda mal começou. o que parecia uma jogada inteligente contra Santana Lopes, parace que vai revelar-se um flop para os seus mentores. é certo que ninguém se vai demitir, devolver as casas ou até ser condenado. mas mostra até que ponto a podridão existente em Lisboa mina o próprio país.
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isso não. não queremos cá neo-nazis. ![]()
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#5 |
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para mim o caso mais emblemático dos parasitas que se amofaram com casas baratas da Càmara de Lisboa e que são tidos como autênticos lutadores na luta contra a pobreza e desigualdades sociais, com a mania dos seus complexos de superioridade morais e políticos, é o do Baptista Bastos.
![]() Baptista Bastos terá levado com uma casinha na mesma altura em que teria colaborado com a SIC no famoso programa, Onde Estava no 25 de Abril, e numa altura que comprou uma segunda residência, de férias, no interior. este famoso jornalista e escritor, que na noite do 24 para o 25 de Abril estava na cama com a mulher, num quarto alugado numa pensão, é um comunista empedernido, hoje em dia colaborador escriba do JN. apregoa os valores da ética, da moralidade, do combate à pobreza e desigualdades, mas afinal comporta-se de um modo, digamos, pouco consentâneo com as palavras que reproduz. isto mostra que este terrível sentimento de superioridade de uma dada classe política ou ideológica em Portugal tem mesmo que se lhe diga. são pródigos em mostrarem por fora grandes lutadores contra as injustiças mas depois são os que mais se aproveitam dessas mesmas, mas parasitando o Estado e abusando da situação de impunidade que gozam, por pertencerem a uma dada ideologia política. infelizmente este caso não tem o destaque que merecia. porque não foi perpetrado a Norte nem por dirigentes do FC Porto. e envolve muita gente ligada ao regime podre que rege Portugal. e envolve muitos amigos dos amigos, compadres, dependências políticas, etc. o caso do Baptista Bastos é, apenas, um emblema dos podres portugueses. uma imagem pública de seriedade a toda a prova e um comportamento privado deveras comprometedor. é assim em Lisboa. ![]()
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#6 |
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É realmente nojento o que o ódio visceral e putrefacto de uma certa direita sem escrúpulos destila de vez em quando por esses fóruns fora...
Mais uma vez, deparei aqui, com um nojento vómito desses... não se prova nada, insinua-se... diz-se que 'terá'... mas, provas factuais, nada... ignora-se porque lhe foi atribuída a casa (se é que lhe foi atribuída alguma casa) e, apesar disso, insulta-se a torto e a direito a hombridade de um homem que ao longo da sua vida já deu provas da sua honestidade intelectual e cívica, facto reconhecido por muitos dos seus adversários, mesmo dos que se encontram situados à sua direita no espectro político português... Foi aliás esse facto, o de não poder pactuar com determinadas situações, que o levou a sair do PCP... isto é público e qualquer pessoa minimamente atenta à política portuguesa, o saberia... Infelizmente, há sempre uns infelizes figuras que do alto da sua pequenez passam a vida a insultar e a enlamear outros e destilando a bílis que lhes corrói a alma, tentam infectar todos aqueles que não se subjugam ao seu modo de pensar... Felizmente que ao BB, ainda lhe vai restando força e alento para continuar a deliciar-nos com os seus escritos, por muito que isso doa a alguns trauliteiros...
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"O presente é a sombra que se move, separando o ontem do amanhã. Nele, repousa a esperança." |
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#7 |
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Join Date: Sep 2003
Location: Casa
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Bem. Seja de direita ou esquerda, norte sul, este-oeste há um ponto comum. São politicos e independentemente de tudo vão protegendo-se uns aos outros.
Provas nunca aparecem e quando aparecem mudam-se as leis com o consentimento de todos para que as provas de nada sirvam. Enfim, mais do mesmo.
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apenas não gostamos de fazer aquilo para o qual estamos a ser pagos. |
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#8 |
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Registered User
Join Date: Mar 2003
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Oscar, isso é tudo muito bonito, e o BB pode ser o melhor tipo do mundo e o mais decente de todos, etc. Mas há aí um problemazinho, um ligeiro detalhe nessa engrenagem. O BB, com ou sem razão, usufruiu de dinheiros públicos, ou seja, os pagadores de impostos transferiram uma parte da sua riqueza para o BB, pelo que o mínimo que se pode fazer é explicar-lhes os motivos porque é que essa transferência de património se fez - e o que o BB se recusa a fazer é isso, é a explicar porque é que recebeu uma casa da CML.
Ainda por cima, quando se verifica que a CML distribui o dinheiro dos contribuintes por critérios absolutamente arbitrários e que não fazem sentido nenhum - alguns casos configuram mesmo, se não corrupção, pelo menos peculato, pelo que me parece que o BB até deveria ser o primeiro a querer distinguir-se do resto da canalha, principalmente porque é uma pessoa que costuma escrever contra este tipo de coisas. Não podemos ser muito exigentes com os outros e pouco connosco. Independentemente do curriculum de cada um.
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#9 |
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Moderador
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eu não gostei do tom que o Ibn usou para falar do BB.
ainda por cima depois de inicialmente ter tentado fazer deste assunto uma cruzada contra Lisboa, como se no Porto isto fosse impossível, e falando em pessoas que não são exemplo de nada para ninguém. não tenho nenhuma razão para vir defender o BB, por quem não tenho especial simpatia. ele é um dos muitos que são inquilinos da Câmara, parece que são 3.200 segundo o "Expresso" quem ler o "Expresso" encontra lá uma explicação dada pelo BB. segundo ele em tempos o Abecassis ter-lhe-ia ofereciodo uma casa da Câmara, que ele não aceitou. mais tarde estando desempregado, acabou por aceitar. muitos não deram qualquer explicação. mas quem deveria dar grandes explicações são todos os que permitiram esta situação.
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faz-me o favor de seres feliz (adaptação duma frase do Raúl Solnado) |
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#10 | |||
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mas como é um dos teus herois, que sendo de esquerda leva selo de garantia... ![]() já estamos habituados aos dois pesos, duas medidas. Quote:
repito, JL. por muito que te custa a ler isto. Lisboa é o coração da corrupção em Portugal. o resto do país são meros imitadores fatelas. Quote:
do resto, é tudo factual o que aí vem. mostra uma coisa simples. há uma enorme camada de elitistas que são uns meros parasitas. e em Lisboa parece que são mais do que no resto do país. é fácil fazer as contas. 3200 fogos dá em média pelo menos 6400 pessoas que se amanharam com casas da câmara. façam as contas à população residente de Lisboa e têm uma ideia da enorme percentagem de parasitas elitistas que em Lisboa votam e se vendem por uma casa. é fazer as contas. se acham que é natural isto acontecer...
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#11 |
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mas há mais. muito mais.
o que eu escrevi é ainda mais grave que, ou o maralhal não percebeu o alcance das minhas criticas ou se o atingiu nem piou nem mugiu. A Justiça em Portugal está politizada e foi utilizada para atacar um gajo da direita. porque entregou casas a dois seus motoristas. se isto é assim em Lisboa imagine-se como vai a Justiça do meu país. é a podridão completa. é a corrupção ao mais alto nível que utiliza tudo o que pode para afastar e atacar os membros da direita mais perigosa para eles: ganha eleições. o Santana Lopes como ganha eleições a esquerda corrupta teme. repito, dos pelo menos 3200 casos, ao longo de anos, apenas 3 pessoas são arguidas. estranho? não. é a Lisboa, tão bela e prazenteira. ![]() e é na Capital que está concentrado o poder.
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#12 |
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É a mesma coisa no país todo. Os Suevos não são melhores que os Mouros - é tudo farinha do mesmo saco, até porque os incentivos são os mesmos. Em Lisboa, se calhar, a câmara tem mais casas, mas é só isso.
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#13 | |
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mas Lisboa tem uma coisa que eu sei que tu sabes que ainda potencia a corrupção. tem poder a mais. é por isso que, como naquele quadro mostrado pelo Paulo, Lisboa tem mais investimento per capita que o resto do país, apesar de já ser a região mais rica. ou seja, é uma parasitagem que explica parte da sua maior riqueza que no resto do país. só uma pergunta. quem se amanha com a grande parte das receitas dos jogos legalizados em Portugal? não é Lisboa? o que os da Suévia têm que entender é que se querem ser livres têm que exigir a Independência. mais vale pobres sós que tidos como corruptos mas parasitados pelos da Capital.
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#14 | |
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agora vou mostrar como pensa uma pessoa que diz que a direita é que os odeia:
Quote:
o BB, que até confirmou ter-se abotoado com uma casa da Camara, já merece dúvida pró reú só porque é comunista. o Óscar nem se apercebe da forma ínvia como ele pensa. é pena. felizmente ele nunca chegará ao poder em Portugal, se não, ia tudo para o Campo Pequeno. ![]()
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#15 |
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Aqueles que por obras(...)da lei da morte libertando
Uma pérola... que vos transmito.
Um pouco de ternura Baptista-Bastos Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão. Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se. Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara. As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia. Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras. Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar? Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição. Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse: — Quer saber o que eu faço, não é? — Bom…bom — Não sabia o que responder. — Olhe: vendo ternura. E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura. Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida. Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde. (mantida a grafia original) Armando Baptista-Bastos (1934), é considerado um dos maiores prosadores portugueses contemporâneos. Iniciou-se como jornalista no jornal “O Século”, tendo trabalhado também no”República,”, “Europeu”, “O Diário”, “Diário Popular” e nas revistas “Cartaz”, “Almanaque”, “Época” e “Sábado”. Foi, igualmente, redator em Lisboa da Agência France Press. Usando o pseudônimo de Manuel Trindade, trabalhou na RTP – Rádio e Televisão de Portugal, nos tempos do governo de Marcelo Caetano. Foi despedido por ter sido considerado um “adversário do regime”. Porém, é no vespertino “Diário Popular”, onde trabalhou durante vinte e três anos (1965-1988), e no qual desempenhou importantes funções, que deixa sua marca,"com um estilo inconfundível" — no dizer de Adelino Gomes. Foi docente na Universidade Independente, onde lecionou a disciplina de Língua e Cultura Portuguesas. Percorreu, profissionalmente, todo o Portugal Continental e Insular, e viajou e escreveu sobre Espanha, Canárias, França, Itália, Bélgica, Irlanda, Brasil, Uruguai, Argentina, Suíça, Luxemburgo, Grécia, Áustria, Turquia, República Democrática Alemã, República Federal da Alemanha, Checoslováquia, URSS, Marrocos, Suécia, Dinamarca, Finlândia, Nigéria, Angola, Moçambique, Cabo Verde, etc. Baptista-Bastos recebeu, entre outros, os seguintes prêmios: Prêmio Feira do Livro de 1966. Prêmio Nacional de Reportagem / Prêmio Gazeta de 1985, atribuído pelo Clube de Jornalistas. Prêmio O Melhor Jornalista do Ano (1980 e 1983). Prêmio Porto de Lisboa de 1988. Prêmio Pen Clube de 1987 - «A Colina de Cristal» Prêmio Cidade de Lisboa de 1987 - «A Colina de Cristal» . Prêmio da Crítica 2002 (Atribuído, em 2003, ao romance “No Interior da Tua Ausência», e como consagração de uma obra literária). Grande Prêmio da Crônica da APE (Associação Portuguesa de Escritores), atribuído, em 2003, ao livro «Lisboa Contada pelos Dedos», publicado em 2001. Prêmio Gazeta de Mérito, atribuído, por unanimidade, pelo Clube de Jornalistas, em 2004. Algumas obras do autor: Ensaios: O Cinema na Polêmica do Tempo / 1959 O Filme e o Realismo / 1962 / Duas edições Ficção: O Secreto Adeus / 1963 / Seis edições O Passo da Serpente / 1965 / Duas edições Cão Velho entre Flores / 1974 / Oito edições Viagem de um pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura / 1981 / Cinco edições Elegia para um Caixão Vazio / 1984 / Quatro edições A Colina de Cristal / 1987 / Quatro edições (Prêmio Pen Clube e Prêmio Cidade de Lisboa) Um Homem Parado no Inverno / 1991 / Quatro edições O Cavalo a Tinta-da-China / 1995 / Quatro edições No Interior da Tua Ausência / 2002 /Quatro edições (Entre 2000 e 2002 as Edições ASA publicaram os nove volumes de ficção do autor, sob o título geral de Biblioteca Baptista-Bastos). Jornalismo: As Palavras dos Outros / 1969 / Quatro edições Cidade Diária / 1972 Capitão de Médio Curso / 1979 O Homem em Ponto / 1984 O Nome das Ruas / 1993 (Em colaboração com António Borges Coelho) José Saramago: Aproximação a um Retrato / 1996 Fado Falado / 1999 Lisboa Contada pelos Dedos (Edição do Montepio Geral) / 2001 Disco: O Sinal do Tempo / 1973 / Crônicas ditas pelo Autor, com música especial do maestro António Victorino d’Almeida (Edições Zip) Cinema: Baptista-Bastos é o autor do texto e da entrevista do filme “Belarmino”, realização de Fernando Lopes, geralmente considerado como um dos clássicos do Cinema Novo português. Trabalhou com Rogério Ceitil e Fernando Matos Silva nos documentários “Ribatejo” e “Alentejo”. O texto (publicado na Revista do Montepio Geral - Lisboa, em Julho de 2005) e os dados sobre o autor nos foram gentilmente enviados pelo amigo e escritor participante do Releituras, José Alberto Braga.
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Às vezes, não tomar uma decisão é uma decisão. |
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