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Afinal o milagre não tem nada de milagroso...
Milagre económico do Dubai escapa a quem faz a cidade
Trabalham sob um sol impiedoso por menos de 120 euros por mês, partilham dormitórios sufocantes, arriscam a vida nas obras. O milagre económico do Dubai ainda não chegou aos milhares de imigrantes do Sul da Ásia que constroem a cidade. Bruno Faria Lopes no Dubai São seis da manhã e, sob a luz quente do Médio Oriente, os homens apressam-se por entre as ruelas estreitas de terra, cobertas de lixo, para não perderem o autocarro – o atraso pode custar-lhes um dia de salário. Ao longe vê-se a silhueta inconfundível do Burj al Arab, o hotel mais luxuoso do Dubai, onde um quarto custa no mínimo 1.500 euros por noite e os hóspedes podem escolher entre 17 tipos de almofadas diferentes. Aqui, num dos campos de trabalho imigrante na zona de Al Quoz, são caixotes pré-fabricados que servem de dormitório. Entra-se num deles e contam-se 24 camas, divididas em beliches para duas pessoas. À volta de cada cama estão concentrados os poucos objectos dos respectivos ocupantes, trabalhadores da construção – uma caixa de cartão, uma camisola de alças encardida, chinelos. Lá fora, os últimos homens saem do campo já a correr, mas Adnan tem menos pressa. “Já não trabalho na construção porque é demasiado duro”, conta ao Diário Económico o imigrante que veio há oito anos do Bangladesh para o Dubai. Adnan, 26 anos, trocou as obras pela limpeza das ruas, um trabalho que lhe rende 400 dirhams (70 euros) por mês. A família – mulher e dois filhos – estão no Bangladesh e recebem muito pouca ajuda. “Não sobra quase nada para enviar para casa”, lamenta. No Dubai, um dos sete emiratos da federação dos Emiratos Árabes Unidos e mais pequeno do que o Algarve, a meta é criar um centro mundial de turismo e alta finança, construído por mão-de-obra barata importada de países do Sul da Ásia – Índia, Bangladesh, Paquistão ou Sri Lanka. Os xeques locais, que gerem o território como uma empresa, sabem que o Dubai não está sentado em cima de um tesouro de petróleo e gás natural, como o seu vizinho menos conhecido, o Abu Dhabi, e tentam diversificar a economia. “Há quem diga que um país é abençoado quando tem recursos naturais”, diz Fareed Abdulrahman, presidente executivo da Smart City, um cluster tecnológico no Dubai. “Nós fomos abençoados quando descobrimos que as riquezas naturais estavam a desaparecer”, afirma. O ritmo de crescimento é alucinante. Entre projectos e obras já em execução estão mais de 280 mil milhões de euros (1,7 vezes a riqueza produzida em Portugal no ano passado) de escritórios, hotéis e residências, incluindo ilhas artificiais em forma de palmeira e o Burj Dubai, a torre mais alta do mundo, que deverá ficar pronta ainda este ano. Para alimentar esta expansão imobiliária, no ano passado os Emiratos Árabes Unidos tinham 700 mil imigrantes a trabalhar nas obras, cerca de 20% da população total. Passar de carro na zona industrial de Al-Quoz à sexta-feira, o único dia de descanso, é como dar um salto até às ruas das cidades de Bombaim, na Índia, ou de Dhaka, a capital do Bangladesh – na época do Diwali, uma das principais festas da religião hindu, as luzes enfeitam as pequenas lojas e as ruelas onde milhares de homens vagueiam. Só no Dubai havia, em 2005, cerca de 309 mil trabalhadores nas mais de 5.900 empresas de construção civil ali presentes, indica a Human Rights Watch (HRW), uma organização não-governamental. A imagem de dinamismo e riqueza cuidadosamente vendida pelo emirato para atrair investimento e turistas ocidentais, choca com a dureza extrema das condições de trabalho dos trabalhadores não qualificados da construção, muitos deles imigrantes ilegais. “Por trás das luzes e do luxo, as experiências destes trabalhadores imigrantes são uma imagem muito menos atractiva, feita de exploração salarial, de dívidas a recrutadores sem escrúpulos e de condições de trabalho perigosas ao ponto de serem mortais”, aponta o relatório “Building Towers, Cheating Workers”, da HRW. Estes homens – na maioria analfabetos e de zonas rurais – fazem turnos de doze horas, seis dias por semana. Ganham um salário médio mensal de 110 euros – o inicial, na construção, começa nos 70 euros –, menos de um décimo da média praticada nos Emiratos Árabes Unidos, de 1.300 euros. Mesmo este magro salário é muitas vezes desviado pelos empregadores como uma forma de “depósito”, para reter os trabalhadores na obra. As tarefas físicas são feitas sob um calor sem quartel, com temperaturas sempre acima dos 30 graus e que, entre Julho e Agosto, frequentemente atingem os 50 graus – ao longo do ano, os hospitais recebem uma média de 1.500 homens por dia, em estado de desidratação. A falta de segurança no trabalho matou 971 trabalhadores em 2005, dos quais apenas 39 foram registados pelo Governo do Dubai, aponta a HRW. Reacção violenta obriga a mudanças As melhorias na situação dos trabalhadores imigrantes no Dubai e em outros pontos dos Emiratos Árabes Unidos têm sido pressionadas por uma série de relatórios de organizações não governamentais sobre os abusos praticados e, sobretudo, pelo aumento das greves e dos protestos violentos. Estas acções têm vindo a aumentar este ano, também devido aos caprichos da economia global – a subida da inflação (11% nos Emiratos, em 2007) e a queda da moeda significa um custo de vida mais alto (65% do salário vai para alimentação) e menos dinheiro para enviar às famílias no país de origem. Em Março do ano passado, uma greve paralizou a construção do Burj Dubai, atraindo a atenção internacional para o assunto – a greve coincidiu com o lançamento dos apartamentos mais caros da torre, desenhados pelo estilista Giorgio Armani, que no primeiro dia de vendas arrecadaram 130 milhões de euros. Meses depois, quatro mil imigrantes foram deportados após violentos protestos, exigindo melhores condições e salários. Este ano, no emirato de Sharjah, os trabalhadores queimaram 14 autocarros. As autoridades e as empresas – que temem os atrasos nas obras e a má publicidade – têm vindo a fazer esforços no sentido de melhorar as condições. “Tem havido melhorias. Os maiores construtores, com uma imagem a defender, sentem agora a necessidade de tratar melhor as pessoas”, explica Ian Tarry, 45 anos, director regional da Mace, o gigante britânico de engenharia civil que está a construir 40 torres residenciais. A construtora belga Besix apoia a criação de um salário mínimo para os cerca de 15 mil trabalhadores indianos que emprega. A Aldar Properties, uma das maiores empresas locais, está a planear cortar com “os agentes de recrutamento sem escrúpulos”, segundo noticiou a agência Bloomberg. Ian Tarry explica que estão a ser construídos dormitórios melhores – em betão, com mais espaço e quartos divididos por seis pessoas – mas deixa um aviso. “Tudo isto não significa que desapareceram os empreiteiros que tratam mal as pessoas”. Para os homens que continuam a sair das aldeias pobres do Sul da Ásia para o Dubai, as dificuldades estão longe de acabar. Inflação leva estrangeiros a mudar de emprego A subida da inflação não poupa os países produtores de petróleo no Golfo Pérsico. Nos Emiratos Árabes Unidos os preços subiram, em 2007, uma média de 11%. Segundo a revista “Arabian Business”, esta pressão faz com que 68% dos trabalhadores estejam à procura de um emprego melhor. Este é um dos maiores problemas para as empresas no Dubai. “A mão-de-obra local é difícil e com os expatriados o problema está nos salários, que aumentaram brutalmente nestes últimos anos”, lamenta Paulo Madeira, director da Visabeira nos Emiratos. “Não há lealdade nenhuma: as pessoas que aqui estão, vieram pelo dinheiro e trocam de emprego assim que aparece uma proposta melhor”, explica. Para os trabalhadores na construção, que ganham em média 120 euros por mês, a inflação (e a queda da moeda local) assume outros contornos – só a fatia para a alimentação pode chegar aos 70 euros, sobrando muito pouco para poupar e mandar para a família. http://diarioeconomico.sapo.pt/edici...o/1136149.html
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