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View Full Version : querem aumentar as receitas fiscais???


profit
05-04-2004, 17:41
Só quando os particulares puderem beneficiar de todas as despesas é que os lucros (declarados) das empresas aumentaram e o a economia real aparecerá.



Leiam a história e enviem para a Nelinha.
Claro que estatisticamente alguns ramos de actividade não apresentam dimensão. Eles existem mas a margem da economia real.

Como particulares que todos somos, vamos ao restaurante e não pedimos factura (para quê?).

Por sua vez, o sr XX do restaurante, como não entra com todas as receitas, pode muito bem, quando vai ao mercado abastecer de matéria prima, não pedir factura, vai pagando em dinheiro.
O fornecedor das carnes dos sumos etc até facilita e também não passa factura.

Por sua vez, o sr ZZZ, dono do mercado que como vimos não entra com todas as receitas, decide fazer umas obras de remodelação do seu mercado. Após pedir os diversos orçamentos, todos lhe apresentaram um valor mais IVA.
como um dos concorrentes lhe disse que "se ele não quiser factura, não necessita de pagar o IVA", logo sai mais barato. O sr, ZZZZ depressa pergunta aos outros concorrntes, se lhe fazem o mesmo "mimo". Claro que têm de fazer, a concorrencia é terrivel, ou eles ou nós.

Como o "remodelador" necessita de comprar materias de construção, depressa o IVA é esquecido. Eles compram tudo em todo o lado que lhes facilita a compra do material sem IVA, e como todos querem vender, não existe nenhuma empresa que não venda materiais de construção sem facturar.

O dono da empresa de construção entretatanto acaba a obra, e necessita de fazer umas limpezas. Claro, o Sr "limpezas" dono da empresa de limpezas também facilita a não passagem da factura. Para quê ainda se arrisca a perder o trabalho para a concorrencia.

Ou seja, já temos:
- o sr XXX do restaurante;
- O sr ZZZ do mercado,
- o Sr, "remodelador",
- o Sr, "limpezas"

A história continua.

Ao remodelador é-lhe pedido uma remodelação doméstica. Claro que facturas e IVa's é para esquecer. Um particular pagar mais 19%-19%-19% de IVA. Para quê? para os "chulos do(s) governo(s) gastarem mal e porcamente o nosso dinheiro - diz ele - claro.

Entretanto é necessário tirar os moveis de casa. Ópá, necessitamos de uma empresa de transportes. O Sr, "transportes legal" lá vai todo contente dar um orçamento, no documento até escreve "IVA incluido". MAs surpresa das surpresas, o cliente telefona a dizer que o orçamento dele está 19% mais caro que o seu concorrente. O Sr "transportes legal" ainda pergunta mas o meu concorrente quem é? O cliente diz é o "Leva tudo, sem alvará, empresário em nome individual sem empregados fixos que até só tem dois carros". "Bolas grande nome!" - diz o "trans legal" - como é que ele consegue? responde o cliente, "sabe, ele não cobra 19% de IVA se o sr facilitasse!?"

O Sr Transportes Legal, pensa. Bem se não fizer este serviço, no final do mês não consigo pagar os salários fixos, a Segurança social, o PEC, as prestações dos carros etc, etc, o melhor é dizer ao cleinte que não passo factura.
E assim o sr transportes Legal, aprendeu mais uma lição. Era este pormenor chamado IVA que estava a fazer com que ele perdesse centenas de serviços para os concorrentes mais pequenos.

Mas nesta história todos foram aprendendo, que se existem empresas mais competitivas porque não cobram/pagam impostos a solução é tornar-me competitivo ou fechar.

E assim continuou a sequencia, o sr Transportes Legal, iniciou a táctica do "Leva tudo, sem alvará, empresário em nome individual sem empregados fixos que até só tem dois carros".

Como as receitas decairam ele deixou de querer facturas de uma data de fornecedores. Empresas de carroçarias, oficinas, materiais de embalagem, publicidade(graficas), etc, etc.

Mas mais espantado ficou o Zé ferro. Há este é dono duma pequena serralharia. 80% do seu trabalho é para particulares, portões, marquises, grades á volta das moradias etc. Ele ficou espantado quendo o seu contabilista lhe disse que sobre despesas de refeições ainda paga 6% de impostos. Bolas nunca mais pesso facturas - pensa ele.
Todos os fornecedores facilitam a compra das mate´rias primas ao ze ferro.

Entretanto o Zé Ferro vai casar a filha. Quintas, Copo dágua. Bem tudo por fora sem quaisquer facturas. Fotografos, cozinheiros, empregados de mesa etc.

A pergunta é simples: o sr Zé Ferro quer pagar só, repito só, 50 euros ou 50 euros mais IVA (com factura claro!!!). O Zé Ferro cuja flha é tudo para ele pensou.
300 pessoas X 50 igual a 15.000 euros o IVA são 2.850 euros. Bom antes dar o dinheiro do IVA á filha para a Lua-de-Mel.

Como ele decidiu SEM FACTURA os contratados para organizarem o casório depressa passaram a mensagem aos subcontratados que pela milionésima vez era tudo sem factura.

O fofografo o Tó das fotos" é que não gosta muito. As máquinas custaram um balurdio (IVA incluido) e o gajo nunca mais consegue abater o IVA. Todos os trabalhos são sempre sem facturar. Todas as semanas são 2 casamentos x 4 semanas x 1000 euros e IVA nem ve-lo.
Ao desabafar com um amigo durante um jantar de amigos sobre a situação, o amigo depressa lhe diz:
"épá trabalho numa agencia de publicidade que factura quase tudo, sabes as multinacionais não perdoam, querem tudo facturado. Se podes passar facturas nós damos-te o valor do IVA e assim abate no nosso IRC".


Depresa o Tó das Fotos pensa. Pera lá, se os gajos poupam 30% de IRC podem muito bem dar-me mais 5 a 10%. E assim ele passou a rezar para que todos os casamentos fossem sem facturas. Passava facturas de fotos para campanhas de publicidade, abatia o IVA de que era credor e ainda ganhava 5 a 10% extras. Belo negocio.

O negocio é tão bom que agora ele todas as semanas oferece flores ás namoradas. Claro que: factura das flores para quê?

O negocio vai tão bem que ele decide vender a casa e comprar outra. (Nota do autor) claro que não vou agora aqui falar como fugir aos impostos na construção, pois os construtores todos vivem com o sálário minimo). O kim Imovel, mediador imobiliário já se esqueceu como é que se passa uma factura. Sempre que vai receber as comissões aos fregueses pergunta quer pagar IVA ou não? Claro os fregueses que já vão dar 7.500 euros de comissão pensam, "para que raio quero eu a factura. Com o dinheiro do IVA (7.500 x 19% = 1.425) compro uma mobilia nova.

E assim foi. Claro, a casa de moveis, ou melhor as casas de moveis perguntam quer pagar IVA ou não? O Tó das fotos mais uma vez pensa IVA?? para que??, não serve para porra nenhuma é só um custo.

Claro, o Luis dos Moveis, sempre que vai ao Norte buscar moveis ás fábricas paga tudo a pronto, em dinheiro mas... sem factura.
Por vezes ainda passa umas facturitas para não dar nas vistas. A margem normal é de 100% mas a diferença nas facturas é de 5%, coitado o negocio está dificil.

Assim já temos:
- o sr XXX do restaurante;
- O sr ZZZ do mercado,
- o Sr, "remodelador",
- o Sr, "limpezas"
- o Zé do ferro
- o Sr dos casamentos e todos os subcontratados,
- O to fotografo
- A florista,
- o luis dos moveis


E agora estou cansado de escrever... depois continua...

Cali
05-04-2004, 18:15
homem ! Isto é obra tua ? Tá muita giro, pá ! Obrigado! Então continua ? Buté lá! :D

Óscar
05-04-2004, 18:55
Eu diria mais... está mesmo muito giro...:D

Vou relê-lo outra vez para ver se aprendo como estas "coisas" funcionam...:)

jleandro
05-04-2004, 21:25
a grande porra é quando o "Transportes Tudo Legal" não pode mesmo fazer o serviço sem cobrar o IVA...

porque ainda há muitas empresas que não podem entrar nestes golpes

o texto está bom, reflete muitas situações autenticas, mas que não se fique a pensar que é assim em todo o lado e em todas as actrividades.

isto só é possível; quando entram particulares no negócio ou em pequenos negócios (que são a maior parte em Portugal)

e depois há os outros: quando o IVA começou em Portugal (1986) escrevi uma carta, registada, aos servoços do IVA por não concordar com algumas regras aplicáveis à minha actividade...

passado mais de 1 ano disseramme que me haviam de responder, pois as questões eram pertinentes.....

até hoje

:mad:

sensato
05-04-2004, 23:17
Por incrível que possa parecer, os factos descritos são verdade e do conhecimento, regrae geral, da Administração Fiscal. O grande problema do Fisco é a manifesta falta de meios humanos e materiais para identificar e punir os prevaricadores.

Átravés do cruzamento de dados, de inspecções com uma rotatividade decente (muito maior que a actual em que há empresas que não são fiscalizadas há 15/20 anos !!!), com a generalização de operações stop à circulação de mercadorias, todos teremos a beneficiar.

Com estas medidas, sem dúvida, que a carga fiscal irá diminuir para a generalidade dos contribuintes, uma vez que os "pagadores" aumentarão substancialmente.

E não se pense que são só as empresas a "fugir ao fisco". Também muitos trabalhadores por conta de outrem, em conivência naturalmente com as suas entidades patronais, devido aos mútuos benefícios, fogem aos seus impostos !!!

Penso ser uma luta não deste ou daquele Governo mas sim de todos nós.

Se a nossa atitude (e a do Fisco principalmente) continuar a ser de passividade face a este flagelo nacional, continuaremos a ser nesta área como outras um País terceiromundista.

dudu
05-04-2004, 23:27
...sobre a qual tenho uma curiosidade quase doentia :

COMO É LÁ FORA ???

lá tb existem como cá
- empresários em nome individual (prestadores de serviços), - trabalhadores por conta própria (advogados, solicitadores, contabilistas, consultores, etc...),
- pequenas empresas caseiras e familiares (padarias, serrelharias, oficinas, bate-chapas, o zé dos pneus, o manel dos escapes, etc)

???

o que têm eles que nós não conseguimos (ou não queremos, porque vai doer aos amigos...) implementar, em termos de fuga ao fisco ???

como se consegue por toda a gente a pagar por igual, um imposto justo, mesmo que seja menos (e deveria ser...) ???

como se controlam transacções entre profissionais - amadores e os seus clientes ?

quem conhece esta realidade que dê pistas, please...

bem sei que essa é a função dos caramelos que passam o dia a coçar os ditos lá no hemiciclo, mas já que os gajos não querem nem saber, talvez a gente os possa ajudar !!!

???

:rolleyes:

jleandro
06-04-2004, 07:18
dudu

a obrigação de implementar sistemas e métodos eficazes de combate à fraude fiscal não é dos deputados, mas das chefias dos departamentos e em última análise dos ministros das finanças que por lá têem passado.

e o problema também passa por aí: trabalhadores velhos ou sem preparação adequada; algumas vezes corruptos;sem meios e basta dizer que quando andavam na rua o transporte usado eram os transportes públicos e consequentes percas de tempo...

vifer
06-04-2004, 08:52
O problema é quando a corrupção vem de dentro para fora, APRE...!!!
È o artista que recebe o salário pago por nós (privados), sim porque é a privada que paga aquela gente toda e os gajos ainda mal agradecidos sentem-se mal pagos e toca de fazer uns trocados (normalmente bens em especie...), digo miseros trocados que até dá para comprar vivendas, carros topos de gama, etc...
Eu acho que a solução é PRIVATIZAR TUDO...
até o GOVERNO, vamos privatizá-lo tb!!!!!
Já vimos que o sector Publico não funciona!!
A seguir vou aqui publicar uma historia arrepiante, que podia bater á porta de qualquer um... Apanhei isto na net!!!
Leiam a proxima mensagem p.f.

Um abraço a todos

vifer
06-04-2004, 08:57
SNS: como se deixa morrer um homem por falta de assistência
Do Hospital de Seia, enviam-no para o de Coimbra com suspeitas de pneumonia ou enfarte de miocárdio.
Do Hospital de Coimbra devolvem-no para o de Seia muito pior de saúde do que lá chegou e sem nenhuma razão aparente. Os sintomas tinham-se agravado sobremaneira, entretanto.
Do Hospital de Seia enviam-no para o da Guarda porque cá não há Pneumologia
Do Hospital da Guarda enviam-no novamente para o de Coimbra, sem sequer entrar na Pneumologia e sem conhecimento dos familiares.
Do Hospital de Coimbra enviam-no... para a morgue.

E tudo isto sem um único tratamento, a não ser... soro!


Fica aqui o relato dos últimos 5 dias de vida do meu Pai que, acredito, possam servir a alguém que passe pelo mesmo.
Quanto mais não seja para evitar que o Serviço Nacional de Saúde mate por absoluta negligência um seu ente querido, tal como fez com o meu.





Sexta - feira, 19 (dia do Pai) - o meu pai sente-se subitamente mal com problemas intestinais.
Nada que justificasse uma ida ao hospital, pensou ele.
E foi para a cama mais cedo.



Sábado, 20 de Março - O meu irmão leva o meu pai e a minha mãe ao Hospital de Seia, já que entretanto tinham-lhe surgido umas dores gástricas a nível do esófago.
Cada vez que engolia eram dores insuportáveis que mal o deixavam respirar.
Foi medicado e fui buscá-los ao Hospital de Seia por volta das 7 da tarde. Entrou no carro pelo seu pé.
Fomos à Farmácia aviar a receita e levei-os a casa.
A noite passou-a mal.
As dores não desapareciam e agora surgia a dúvida se não seria também uma infecção na traqueia, já que até a inspiração do ar lhe causava pena.
Decidiu não ir novamente ao Hospital porque a medicação «ainda não teria tempo de começar a fazer efeito».
Combinou-se que iria no dia seguinte, segunda-feira, se não melhorasse entretanto.
O certo é que nessa mesma noite, por volta das 00:30h teve que se chamar uma ambulância, porque o meu pai já não podia com dores.
No Hospital ficou a soro.
Fez análises de manhã, em que lhe diagnosticaram vestígios de enfarte de miocárdio e uma pneumonia.
Enviaram-no para os Hospitais da Universidade de Coimbra - a única coisa que foi bem feita em todo este processo.
Esse favor devemos à Dra Margarida Ascensão e aqui lhe deixo os meus (e os dele, que muito insistiu em vida para que lhos desse) profundos agradecimentos.


Segunda-feira, 22 - O meu pai chega a Coimbra cerca do meio dia. Eu, que só tomo conhecimento dessa transferência e do seu preocupante diagnóstico por volta dessa hora, sigo de imediato para lá com a minha mãe.
Estivemos nas Urgências desde as 14:30h repetidamente perguntando pelo seu estado de saúde até às 17:00h.
Primeiro disseram-nos "que estava bem disposto" mas em observação.
Que perguntássemos passadas 2 horas, outra vez. O que fizemos.
Aí, a informação já foi outra: que o seu estado era muito preocupante e apresentava um quadro grave de provável pneumonia ou enfarte de miocárdio, o que já sabíamos desde Seia.
Que ia ficar internado de certeza. Claro que já o suspeitávamos, dado o diagnóstico de Seia.
Perguntámos se era preciso ir buscar a roupa que estava no carro e a enfermeira disse que não.
Que «ele não se podia levantar», que estava «prostrado» e que «não acreditava que pudesse levantar-se nem sequer para ir á casa de banho.»
Fiquei preocupadíssimo e pedi para mo deixarem ver nem que fossem só 5 minutos.
Que não, «nas Urgências não se podem ver doentes».
Mas após a minha insistência e quando lhe dissemos que «somos de Seia - a 100 Kms de distância - e que assim sendo iríamos embora, porque não estavamos ali a fazer nada», lá condescendou a deixar-me ir «dar-lhe uma palavrinha de não mais que 5 minutos e sair de imediato».
Assim fiz.
Entrei e depois de mais um tempo de espera, lá encontro o meu pai deitado numa maca num corredor, ao pé de tantos outros.
A receber soro. Como em Seia.
Ficou radiante por me ver e disse-me logo:
« - João: isto aqui é um matadouro!»
«Ninguém quer saber dos doentes. Olha que estou há horas a pedir uma pinga de água para molhar os lábios e ainda não ma deram. Já não sinto os lábios nem a boca de ressequidos que estão.»
Dirigi-me a um auxiliar que foi muito amável (tive sorte) e me arranjou um copo de água "choca", segundo o meu pai.
Assim que a bebeu, rejeitou-a logo. Não conseguia manter nada no estômago. Nem sequer água pura.
Enquanto era acometido dos vómitos chamei por um médico ou alguém num grupo de 7 ou 8 pessoas entre médicos e enfermeiros que estavam a cerca de 6 metros em amena cavaqueira e de costas para nós.
Um deles virou-se, viu o meu pai aflito e perguntou:
- Está a vomitar?
Respondi: está sim. Está aflito. Não podem ajudar?
«Está bem» disse e voltou novamente as costas, continuando a conversa com os colegas.


Eu nem queria acreditar naquilo!
Mas como entretanto ele ficou melhor, parando com os vómitos, controlei-me e decidi chamar um outro médico para lhe dizer que o doente já não comia nada desde sexta-feira (há 4 dias) e que devia ter algum problema gástrico.
Transmiti isso a um médico jovem que entretanto se aproximou da maca.
Disse-me que o meu pai ia ser visto, mais tarde, por um especialista que devia estar a chegar.
Passadas 3 horas apareceu um médico ainda mais jovem que lhe perguntou o que tinha.
O meu pai começou a explicar tudo, com grande esforço, porque já mal conseguia falar, mas o médico interrompeu-o passados 10 segundos de explicações e, olhando apenas para os papéis que tinha nas mãos, lhe disse, no tom mais seco que já ouvi a alguém:
- olhe, isto é assim: Eu devia fazer-lhe uma endoscopia, mas como o sr tem aqui suspeitas de enfarte de miocárdio não lha posso fazer. Virou as costas e foi-se embora.
Fiquei a olhar para o meu pai e ele para mim, atónitos.
E agora?
Ao que o primeiro médico jovem me respondeu que «em princípio iam mandá-lo de volta para Seia».
«- Mas sem poder comer nada? perguntei.
Então não vêem o que é que ele tem, que o impede de engolir nem que seja uma gota de água»?
Não obtive resposta.
O médico encolheu os ombros e foi-se embora.


Passado mais uma hora, uma profissional de bata larga, aberta e esvoaçante de cor verde (não sei se seria médica) jovem e divertidíssima, que esteve sempre a rir-se e às gargalhadas com os colegas, dirigiu-se ao telefone e perguntou se havia alguma ambulância para Seia.
Eram 19 horas. Não sei o que lhe responderam, mas ela, gargalhando sempre, gritou:
- Que sorte! E depois de mais de cerca de 5 minutos de conversa de circunstância sobre saídas à noite e marcações de jantares com a pessoa do outro lado, desligou o telefone, sempre a rir.
Estava visivelmente satisfeita.
Ainda bem, - pensei eu. É sinal que as coisas lhe estão a correr bem.


Passou-se uma hora.
Eu perguntei de novo a um médico que passava se iam mesmo enviá-lo para Seia, porque o meu pai já tinha muita dificuldade em respirar e dizia que lhe doía tudo.
Disse-me para esperar.
Às 20 horas e 15 minutos, a médica das gargalhadas, sempre sorrindo, telefonou outra vez.
«Ainda está aí a ambulância para Seia»?
Ficou mais séria. Percebeu-se nitidamente que já não.
- Mas eu tinha-a pedido... balbuciou, agora sem rir.
Acabou a conversa e escreveu num papel aos pés da maca do meu pai:
«Transporte para Hospital de Seia pedido às 20 horas».
Continuei à espera, ao pé dele, e cerca das 21 horas comecei a passar-me da cabeça e tirei várias fotografias, com o telemóvel, ao papel e ao estado em que o meu pai estava.
Praticamente já não falava.
Aproxima-se de mim um médico e convida-me a sair, «para evitar confusão». Não havia qualquer confusão.
Em toda a tarde do dia 22 não tinha entrado nenhum doente em estado grave, pelo que o mais grave seria mesmo o meu pai.
Mas acatei a ordem e saí, informando que ficava à espera do doente nas urgências.
Mal tinha chegado lá fora ouço chamar ao microfone «os acompanhantes de João Tilly dos Santos».
Voltei para dentro a correr.
Ao chegar lá, novamente, aproxima-se de mim um médico que se identificou como sendo o chefe da equipa e me disse que «lhe tinham dito que eu andara a tirar fotografias ao banco, o que era muito desagradável.»
Eu respondi que tirei fotografias ao meu pai, apenas, e mostrei uma delas.
Perguntei se o meu pai sempre ia para Seia ao que ele respondeu que não sabia (!), e perguntou-me a mim se o cardiologista lhe tinha dado alta (!!!).
Fiquei embasbacado e respondi que não sabia mas que «era o que estavam a dizer (a médica das gargalhadas ao telefone)».
Disse, então, que devia ir para Seia, devia, mas nitidamente sem saber do que estava a falar (por não conhecer absolutamente nada do quadro clínico do doente).
Vim-me embora e fiquei à espera dele, cá fora.
Isto eram 21:10h.


Para abreviar a história, informo que a ambulância partiu do Hospital com o meu pai dentro às 01:10h da manhã.
E o mais grave é que a ambulância que o trouxe, estava estacionada à porta do Hospital há, pelo menos, 4 horas.


Seguimos a ambulância até Seia, onde chegámos cerca das 2:15h da manhã.
O meu pai estava no pior estado em que o vi na minha vida e apenas arranjou força para me dizer: «foi a pior viagem da minha vida. Não aguento outra».
Mal sabia ele que iria ainda fazer mais duas.
Entrou para dentro do hospital de Seia e duas enfermeiras disseram à minha mãe que o não podia acompanhar a partir daí e que tinha que se ir embora.
Fomos.
Estávamos arrasados fisica e psicológicamente (como estaria o meu pai...)




Terça- feira, 23 de Março
O meu pai é enviado para a Guarda às 5 da tarde com o pretexto de Seia não ter Pneumologia.
Lá foi.
Eu ainda me meti no carro para o acompanhar, mas como a minha mãe foi com ele na ambulância, combinei com a minha filha ir vê-lo na tarde do dia seguinte - quarta-feira, que eu tinha a tarde livre, escusava de faltar às aulas. Ela concordou.
Mal sabíamos nós que não mais o veríamos vivo.
À saída, o meu pai ainda teve a lucidez de se despedir (definitivamente) dela e da mãe, dizendo claramente: «para a Guarda não quero ir, porque eu vou morrer lá.»


Quarta-feira 2 de Março.
Estive desde as 9 da manhã ininterruptamente (de 5 em 5 minutos) a tentar ligar para o hospital da Guarda.
Primeiro para a Pneumologia - consegui ligação às 10:30h da manhã e de lá disseram-me que ainda não tinha dado entrada.
Devia estar ainda nas urgências.
Liguei para o geral. Informaram-me que não podiam ligar para as Urgências, que tentasse as Relações Públicas.
Consegui ligação às 11:45h sensivelmente.
Informei que tinha estado toda a a manhã a tentar ligar e que por favor me desse a informação pretendida agora que tinha conseguido, para não me voltar a acontecer o mesmo.
Respondeu-me uma senhora muito simpática a dizer que ia ver, e que depois me ligava sem falta nenhuma, para o que lhe dei o meu número, agradecendo muito o obséquio.
Não mais me ligou.


Às 12:30h, hora a que saí das aulas, tinha à minha espera a minha filha e a mãe, que me deram a pior notícia do mundo.


Tal com o ele tinha previsto, tinha efectivamente morrido... mas em Coimbra!?

Meti-me no carro como um autómato e saí para Coimbra e durante a viagem, em telefonemas múltiplos tentei perceber o que se tinha passado.
Só em Coimbra, em conversa com a médica (brasileira) que lhe prestou a última assistência, percebi.
Tinham-no enviado do hospital da Guarda para o hospital de Coimbra, onde chegou cerca das 3 da manhã. Sem passarem cartão aos familiares.
A médica não soube explicar o que ele tinha, porque não descobriu qualquer relatório médico na recepção e apenas me disse que quando ela entrou, às 10 horas, recebeu o doente vindo da cirurgia (!), mas onde nada lhe tinha sido feito (!!).
Estava já em estado crítico e às 10:30h teve a primeira paragem cardíaca.
Foi reanimado 3 vezes, até que o coração deixou de bater às 11 horas.
Causa da morte: DESCONHECIDA.

(continua a seguir....)

vifer
06-04-2004, 08:57
Portanto:
Não se sabe porque foi enviado para Coimbra de madrtugada sem o conhecimento dos familiares.
Não se sabe o que lhe fizeram na Guarda - presume-se que nada pois nem chegou a entrar na especialidade para a qual foi enviado.
Não se sabe o que lhe fizeram em Coimbra até às 10 da manhã - durante as horas em que supostamente terá estado na cirurgia. Presume-se que nada, tal como durante todo o dia 22, pois nada consta do seu relatório médico.
Sendo certo que não existem relatórios de medidas tomadas em nenhuma circunstância em Coimbra até às 10 da manhã, sou forçado a concluir que subsiste durante 3 dias seguidos negligência grave, a somar à negligência dos transportes sucessivos a que foi submetido um doente em estado de debilidade extrema.


É claro que não é o soro que cura um doente que vem diagnosticado com possibilidade de pneumonia - à qual não foi tratado - ou enfarte de miocárdio - ao qual também não foi tratado.
Nada lhe fizeram. A não ser deixá-lo entendido numa maca num corredor dos HUC a definhar visivelmente.
E a mim, questionarem-me por ter tirado fotografias.
Se usassem a mesma diligência para tratar os doentes, o meu pai estaria vivo.


Na participação que fizemos no DIAP eu e o meu irmão "exigimos" a realização da autópsia, corroborando o pedido da médica que ficou extremamente chocada quando lhe dissemos que o doente tinha saído dali, daquele mesmo serviço, meras 27 horas antes.

Não sabia! Não tinha qualquer registo nesse sentido!


E que, depois disso, o doente já tinha feito mais de 320 quilómetros e corrido mais 2 hospitais até chegar novamente ao ponto de partida, numa dança macabra entre hospitais que terá ajudado bastante ao trágico desfecho.


O Ministério Público acedeu e a autópsia foi realizada no dia 25 às 11 da manhã.
Aguardam-se as conclusões para se saber aquilo que nenhum médico quis saber, pelo menos em Coimbra: De que padecia aquele doente?


Assim se acaba uma vida, inglória e desnecessáriamente, por um acumular de negligências, quando bastava um pouco de cuidado de apenas um médico ou enfermeiro para que tivessem tido o bom senso de não enviarem o doente, naquele estado, muito mais debilitado do que entrou, com dores muito mais agravadas e sem poder ingerir nem sequer uma gota de água, de volta para Seia.


Por muito que paguem esta negligência, nada fará ressuscitar o meu pai.


Escrevo o que aconteceu para alertar quem ler esta triste história para o estado a que chegaram os Hospitais em Portugal.


Para terminar, o pior: toda a gente conhecida que eu lá tinha, no Hospital, me perguntou: mas porque é que tu não me deste um toque? Eu acompanhava o teu pai e a coisa de certeza que não acabava assim...


Isto é que dói.
Descobrir que a medicina, no Serviço Nacional de Saúde, só funciona minimamente quando há "conhecimentos" e "amizades" entre o corpo clínico.

Publicado por JoaoTilly em 08:45 PM :confused:

jleandro
06-04-2004, 09:16
nem sei que te diga,

só mesmo que nos hospitais Portugueses tudo é possível, e basta lembrar o mais recente caso: hospital de Lagos e as 2 mortes enexplicáveis acontecidas há dias.

desde arrogância e má educação a desinteresse pelos doentes, tudo se pode esperar

e não é só nos hospitais públicos: um tio meu, velhote, esteve em Setembro de 2002 internado num privado nas Caldas da Rainha, e eu tive que apresentar queixa duma auxiliar, que estando o meu tio só naquele quarto, resolveu ligar a tv em altos berros e tentou ignorar os nossos pedido para desligar ou colocar o som mais baixo, o que só fez passados minutos e depois de ter lançado uma expressão ofensiva.

quando escrevi a queixa, logo me disseram que daquela auxiliar era de esperar tudo - quer dizer já a conheciam e nada faziam.

no teu lugar, eu faria uma queixa e havia de seguir com ela em frente.