Óscar
04-04-2004, 15:50
Metalurgias bloqueadas por falta de matéria-prima
Autor: Teresa Costa
Data: 03-04-2004
China está a comprar todo o ferro disponível e a deixar mercados sem resposta. Ruptura de stocks, dificuldade de abastecimento e subida brutal dos preços são consequências
O sector metalúrgico e metalomecânico está a atravessar um período de enorme angústia devido à escassez de matéria-prima no mercado e à consequente subida vertiginosa do preço do pouco material disponível, grande parte do qual de qualidade inferior.
O problema começou a esboçar-se em Dezembro de 2003 e tem vindo a gravar-se, sem um fim à vista, embora a Associação dos Industriais Metalúrgicos e Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP) acredite num início de regresso à normalidade a partir do Verão.
Tudo começou com a súbita procura por parte da China, tanto de matéria-prima para siderurgias, como de semi-produtos e de produtos de aço acabados, no contexto do forte crescimento económico que aquele país asiático regista.
A procura chinesa de aço, então verificada, igualou o consumo habitual da Alemanha em apenas um ano, segundo a União de Armazenistas de Ferros de Espanha, facto suficiente para alterar o equilíbrio do mercado do aço a nível mundial.
Em Portugal, como em Espanha, há ruptura de stocks em certos produtos, uma subida generalizada dos preços e dificuldades no abastecimento de alguns materiais, desde logo, porque alguns armazenistas já só vendem a quem fizer o pagamento à cabeça.
Segundo declarações, ao JN, de Rafael Campos Pereira, director-geral da AIMMAP, desde final de 2002 até agora, a matéria-prima teve um acréscimo no preço na ordem dos 180%. A sucata aumentou 100%, as ferroligas entre 50 e 200%, os lingotes 60% e os laminados entre 30 e 60 - só para citar alguns exemplos, tendo por fonte a organização europeia Eurofer.
Rafael Campos Pereira indicou, por outro lado, que a matéria-prima existente não está a ser convertida em produto final, circunstância que o leva a admitir haver um aumento da economia informal no sector, de que resultará nova distorção no mercado.
A AIMMAP acredita que o aumento dos preços é conjuntural e que os fornecimentos deverão regressar à normalidade com a chegada do Verão, por saber que a China fez contratos de seis meses.
Ao que o JN apurou, as metalúrgicas já tiveram de fazer ajustamentos às condições de mercado e, perante o cliente, reduziram os prazos de validade das propostas de encomendas, desistiram de fazer orçamentos anuais e preveniram os clientes para novas alterações das tabelas em função da conjuntura. Com a agravante de não poderem reflectir o aumento dos custos no produto final, sob pena de perderem competitividade face à concorrência, nomeadamente... chinesa.
A crise afecta, sobretudo, siderurgias, fundições e indústrias de automóveis, de mobiliário, da construção civil, de máquinas, de aparelhos de medicina e de equipamentos eléctricos.
A dimensão do problema relativo à falta de ferro sustenta um alerta que o Comité das Associações Europeias de Fundição tenciona apresentar, este mês, à Comissão Europeia, como revelou, ao JN, Braga Lino, presidente da fundição Felino e membro da direcção da Associação Portuguesa de Fundição. O sector espera que a Europa, à semelhança dos EUA, sensibilize as grandes empresas a não deslocalizar a produção para Leste ou para Ásia, destruindo, por arrastamento, as pequenas e médias empresas nacionais.
O JN procurou saber junto do Ministério da Economia
se haveria alguma diligência em perspectiva sobre a o assunto, mas não obteve nenhum comentário.
Entre as consultas feitas, destaque também para a Lusosider (uma das empresas criadas a partir da antiga Siderurgia Nacional), onde o presidente da direcção, João Audi, confirmou a "escalada de preços, nos últimos meses, por falta de matéria-prima", sublinhando que "até a sucata é um recurso escasso".
As empresas do sector concentram-se na faixa litoral Norte e mais de 80% empregam menos 20 trabalhadores.
in JN
Autor: Teresa Costa
Data: 03-04-2004
China está a comprar todo o ferro disponível e a deixar mercados sem resposta. Ruptura de stocks, dificuldade de abastecimento e subida brutal dos preços são consequências
O sector metalúrgico e metalomecânico está a atravessar um período de enorme angústia devido à escassez de matéria-prima no mercado e à consequente subida vertiginosa do preço do pouco material disponível, grande parte do qual de qualidade inferior.
O problema começou a esboçar-se em Dezembro de 2003 e tem vindo a gravar-se, sem um fim à vista, embora a Associação dos Industriais Metalúrgicos e Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP) acredite num início de regresso à normalidade a partir do Verão.
Tudo começou com a súbita procura por parte da China, tanto de matéria-prima para siderurgias, como de semi-produtos e de produtos de aço acabados, no contexto do forte crescimento económico que aquele país asiático regista.
A procura chinesa de aço, então verificada, igualou o consumo habitual da Alemanha em apenas um ano, segundo a União de Armazenistas de Ferros de Espanha, facto suficiente para alterar o equilíbrio do mercado do aço a nível mundial.
Em Portugal, como em Espanha, há ruptura de stocks em certos produtos, uma subida generalizada dos preços e dificuldades no abastecimento de alguns materiais, desde logo, porque alguns armazenistas já só vendem a quem fizer o pagamento à cabeça.
Segundo declarações, ao JN, de Rafael Campos Pereira, director-geral da AIMMAP, desde final de 2002 até agora, a matéria-prima teve um acréscimo no preço na ordem dos 180%. A sucata aumentou 100%, as ferroligas entre 50 e 200%, os lingotes 60% e os laminados entre 30 e 60 - só para citar alguns exemplos, tendo por fonte a organização europeia Eurofer.
Rafael Campos Pereira indicou, por outro lado, que a matéria-prima existente não está a ser convertida em produto final, circunstância que o leva a admitir haver um aumento da economia informal no sector, de que resultará nova distorção no mercado.
A AIMMAP acredita que o aumento dos preços é conjuntural e que os fornecimentos deverão regressar à normalidade com a chegada do Verão, por saber que a China fez contratos de seis meses.
Ao que o JN apurou, as metalúrgicas já tiveram de fazer ajustamentos às condições de mercado e, perante o cliente, reduziram os prazos de validade das propostas de encomendas, desistiram de fazer orçamentos anuais e preveniram os clientes para novas alterações das tabelas em função da conjuntura. Com a agravante de não poderem reflectir o aumento dos custos no produto final, sob pena de perderem competitividade face à concorrência, nomeadamente... chinesa.
A crise afecta, sobretudo, siderurgias, fundições e indústrias de automóveis, de mobiliário, da construção civil, de máquinas, de aparelhos de medicina e de equipamentos eléctricos.
A dimensão do problema relativo à falta de ferro sustenta um alerta que o Comité das Associações Europeias de Fundição tenciona apresentar, este mês, à Comissão Europeia, como revelou, ao JN, Braga Lino, presidente da fundição Felino e membro da direcção da Associação Portuguesa de Fundição. O sector espera que a Europa, à semelhança dos EUA, sensibilize as grandes empresas a não deslocalizar a produção para Leste ou para Ásia, destruindo, por arrastamento, as pequenas e médias empresas nacionais.
O JN procurou saber junto do Ministério da Economia
se haveria alguma diligência em perspectiva sobre a o assunto, mas não obteve nenhum comentário.
Entre as consultas feitas, destaque também para a Lusosider (uma das empresas criadas a partir da antiga Siderurgia Nacional), onde o presidente da direcção, João Audi, confirmou a "escalada de preços, nos últimos meses, por falta de matéria-prima", sublinhando que "até a sucata é um recurso escasso".
As empresas do sector concentram-se na faixa litoral Norte e mais de 80% empregam menos 20 trabalhadores.
in JN