Mohandas
22-05-2003, 20:12
Atraiçoado pela vida. Assim se sentia o homem, debruçado sobre a mesa manchada e velha, que já tinha assistido a inúmeras histórias idênticas. Ela ficava ali, quieta e calma, como sempre tinha sido, enquanto as lágrimas amargas de décadas se misturavam com ressequidas manchas de bebidas que já tinham perdido o nome e a forma. Ouvia as lamúrias, os desgostos, entremeados com explosões de raiva e de impotência e de actos de contrição que vinham atrasados décadas. O que pudesse, o que devesse ter sido feito tinha tido o seu espaço e o seu tempo. Não era ali e agora…
Este não era diferente dos outros. Nunca são. Se as razões para um mergulho no abismo se encontram no íntimo de cada homem, os íntimos não são assim tão diferentes, e as partes de horror e de inferno acompanham-nos sempre, podemos é não as deixar tomar conta de nós. Regularmente, um destes perdidos de si próprio sentava-se naquela cadeira, apoiava os braços na mesa, e afogava as lágrimas em mais líquido que aquele que seria necessário para esquecer. Daquele ângulo tudo parecia negro, o Mundo, as palavras, os actos… Nada do que a vida tinha prometido se tinha concretizado. Agora, o fim estava próximo e era muito tarde para voltar atrás. Como sempre, a culpa era dos outros. Os outros, sempre os outros… nunca nós. Porque nós somos perfeitos e temos sempre razão. Por vezes, a mesa cansava-se dos choros e das desculpas auto-aplicadas por aqueles que desconheciam a palavra orgulho, e, baixinho, sem que mais ninguém ouvisse, contava histórias de adormecer, que lá funcionavam ao oitavo copo, deixando um corpo inerte, mais um e apenas o corpo, que a mente já se tinha esvaído muito antes, sobre si, penando para mais um dia, que era como se não entrasse já na contabilidade dos merecimentos. Atraiçoado pela vida ou por si mesmo?, interrogava-se a mesa… E chegava sempre à mesma conclusão: quem não gosta dos outros não pode gostar de si; quem não gosta de si há-se sempre destilar veneno e ódio e ser a personificação do mal; porque afinal, o mal tem sempre um rosto, e procura sempre alguém a quem atribuir culpas dos seus próprios fracassos.
A mesa está mais uma vez ocupada. Mais um atraiçoado pela vida se perfila a destilar veneno e ódio. Deixemos as palavras diluírem-se no vento. Pouco mais podemos fazer, para além de observar e ter pena…
Para os outros, a vida continua, calma e serena como sempre, porque a palavra camaradagem não se dilui num copo com álcool...
Este não era diferente dos outros. Nunca são. Se as razões para um mergulho no abismo se encontram no íntimo de cada homem, os íntimos não são assim tão diferentes, e as partes de horror e de inferno acompanham-nos sempre, podemos é não as deixar tomar conta de nós. Regularmente, um destes perdidos de si próprio sentava-se naquela cadeira, apoiava os braços na mesa, e afogava as lágrimas em mais líquido que aquele que seria necessário para esquecer. Daquele ângulo tudo parecia negro, o Mundo, as palavras, os actos… Nada do que a vida tinha prometido se tinha concretizado. Agora, o fim estava próximo e era muito tarde para voltar atrás. Como sempre, a culpa era dos outros. Os outros, sempre os outros… nunca nós. Porque nós somos perfeitos e temos sempre razão. Por vezes, a mesa cansava-se dos choros e das desculpas auto-aplicadas por aqueles que desconheciam a palavra orgulho, e, baixinho, sem que mais ninguém ouvisse, contava histórias de adormecer, que lá funcionavam ao oitavo copo, deixando um corpo inerte, mais um e apenas o corpo, que a mente já se tinha esvaído muito antes, sobre si, penando para mais um dia, que era como se não entrasse já na contabilidade dos merecimentos. Atraiçoado pela vida ou por si mesmo?, interrogava-se a mesa… E chegava sempre à mesma conclusão: quem não gosta dos outros não pode gostar de si; quem não gosta de si há-se sempre destilar veneno e ódio e ser a personificação do mal; porque afinal, o mal tem sempre um rosto, e procura sempre alguém a quem atribuir culpas dos seus próprios fracassos.
A mesa está mais uma vez ocupada. Mais um atraiçoado pela vida se perfila a destilar veneno e ódio. Deixemos as palavras diluírem-se no vento. Pouco mais podemos fazer, para além de observar e ter pena…
Para os outros, a vida continua, calma e serena como sempre, porque a palavra camaradagem não se dilui num copo com álcool...