PDA

View Full Version : Esta country não é para velhos


jleandro
27-04-2011, 11:10
Um dia hei-de fazer um pouco a "história" da country americana e da importância que esta senhora tem na cena musical das últimas 4 décadas.
Nessa altura será inevitável falar do Gram Parsons e da importância que teve no curto período tempo de vida que andou pela música country, e também da ligação a Paul Kennerley, um respeitável senhor responsável por discos fundamentais como o "White Manssions" ou "Jesse James" mas enquanto não me dou a esse trabalho tenho que falar da Senhora Emmylou Harris.

http://crowdfusion.myspacecdn.com/media/Emmylou%20Harris%201-621x322.jpg

a saída dum disco novo da Emmylou Harris é sempre notícia para os seus indefectíveis admiradores como eu.
hoje é muito raro ouvir-se falar dela, mesmo até na cena musical americana, e como nunca se houve nas nossas rádios, sinto que lhe devo isto.

aqui fica um artigo do "Público" de sexta-feira passada.



Esta country não é para velhos

Um quarto de hotel em Joshua Tree, no meio do deserto californiano, e um corpo imóvel caído lá dentro. A 19 de Setembro de 1973, uma combinação de morfina e álcool em doses desumanas parou de vez Gram Parsons, o homem que unira country e rock. Quase parecia uma tentativa derradeira e bem-sucedida para provar que a união se dera por completo - uma morte precoce de um grande talento, por overdose, era provavelmente o único item que então separava os dois géneros. No início do ano anterior, depois de um concerto dos Flying Burrito Brothers - que Parsons fundara e do qual fora despedido em 1970 devido à sua relação doentia com as drogas -, desabafou junto do seu ex-companheiro Chris Hillman que andava à procura de uma voz feminina para ajudar a dar corpo às canções do seu primeiro disco a solo. Hillman tinha um nome: Emmylou Harris, uma cantora folk em início de carreira, com quem mantinha contacto. Parsons foi ouvi-la nessa mesma noite num bar em Washington D.C. Pouco depois, ela juntava a sua voz à dele no seminal "GP".

A relação entre Gram e Emmylou foi curta, mas de uma tal intensidade que a viúva de Parsons - numa desconfiança que não se resumia a cantorias, conta a lenda - fez saber que não queria a cantora perto dos restos mortais. Assim, Emmylou passou os meses seguintes cumprindo um luto desnorteado, percorrendo o país e visitando pessoas próximas daquele homem que chegara e partira da sua vida numa correria, deixando-a perdida, à procura de um conforto que substituísse a despedida que nunca teve. Não teve outra solução. Tentou calar a dor da perda através da música, gravando o seu primeiro álbum a sério, "Pieces of the Sky", e, em especial, o tema "Boulder to Birmingham", dedicado a Parsons. Cantava, às tantas, "Well you really got me this time / And the hardest part is knowing I"ll survive". Passados quase 40 anos, pode dizer-se que Emmylou sobreviveu, sim. Nunca esquecendo o encontro com Parsons, evocando-o sempre que possível, afirmando-se devedora dos seus ensinamentos, mas sobreviveu. Graciosamente.

Parsons é um fantasma a pairar no céu de Emmylou Harris, como a mãe da personagem de "Oedipus Wrecks", o segmento de Woody Allen no tríptico "Histórias de Nova Iorque". Está sempre presente. Mas não de uma forma controladora, em que Emmylou quase ficaria apenas no papel de imaginar o que Parsons gostaria que ela fizesse, e sim enquanto figura tutelar, fonte inesgotável de um percurso vasto e rico que honra a sua memória. Se "Pieces of the Sky" encerrava uma homenagem a quente, feridas em carne viva, Emmylou a lamber-se quanto podia, "Hard Bargain" arranca com "The Road", mais uma sentida forma de tentar fazer as pazes com a morte de Gram. Ou como Emmylou não deixou em todos estes anos de tentar penitenciar-se, artística e pessoalmente, pelo facto de não ter antecipado o momento em que álcool e morfina se juntariam para passar o atestado de óbito ao jovem cantor.

"Ele ensinou-me a cantar, sem me dar quaisquer lições", concretiza Emmylou. "Mostrou-me uma emoção tão simples, uma melodia e uma simplicidade nas letras, e pôs-me a ouvir grande música country, de George Jones ou Pearl Butler. Abriu-me um mundo de música em relação ao qual eu era um bocado snob, porque vinha do mundo folk - que continua a ser uma grande influência em mim. Se não fosse o Gram, eu continuaria provavelmente a ser uma imitadora da Joan Baez". Pode soar a exagero, uma vez que em pouco mais de um ano Emmylou se transformou de candidata a cantora folk em ídolo country, mas foi o que aconteceu, com Parsons a servir de candeia que ilumina o avanço pela penumbra. De início, admite Emmylou, quis dar continuidade à visão musical do seu mestre "porque sentia que tinha uma formação muito incompleta". "Por muito que não soubesse o que o Gram teria feito, eu queria apenas cantar com ele e aprender tudo o que podia, e como isso foi cortado tão abruptamente tive de continuar a minha formação sem ele. Mas há um ponto em que temos de andar para a frente. Olharei sempre para trás a pensar que não estaria onde estou hoje se não fosse aquela pessoa, mas há muitos mais riachos que confluem para o rio que faz a nossa vida".

Nem cópia nem cópia

O sucesso de "Pieces of the Sky", em 1975, deu alguma paz à vida de Emmylou: o álbum foi bem recebido e Nashville - a capital da música country - apressou-se a celebrá-la como um dos seus e a levá-la ao notário para reconhecer a sua assinatura musical como distintamente country. Mas nem tudo eram rosas. E a entrada pela porta grande para um meio conservador não era coisa que casasse especialmente bem com a vontade de arriscar de Emmylou Harris. Ela que nunca deixou de trazer a folk na sua música, que aprendera com um homem para quem a distinção country-rock não fazia sentido porque não designava uma coisa nova mas sim uma mistura de duas velhas, e que recusara ser dirigida por uma figura masculina, tornou-se progressivamente um corpo estranho naquele meio. Fugira de ser uma cópia de Joan Baez e agora queriam fazer de si uma cópia de Linda Ronstadt, Dolly Parton ou Bonnie Raitt.

Por isso, após um forte sucesso inicial junto do poderoso circuito das rádios country norte-americanas, o entusiasmo por Emmylou arrefeceu. Nada que lhe tenha roubado o sono, uma vez que nunca se preocupou com a possibilidade de perder público e o apoio radiofónico não era para ela uma questão de vida ou morte. "Quando isso desapareceu", confessa, "foi libertador num certo sentido". Isto porque em 1993, acabada de chegar à Elektra, Emmylou e a sua nova editora decidiram avançar com um álbum assumidamente desenhado para "cortejar a country radio". Os preliminares até correram bem, entre promessas de "airplay" eterno de tudo quanto era estação de Nashville: quase se juraria ter havido línguas a tocar-se entre "Cowgirl"s prayer" e as rádios com aquele enrolado sotaque sulista. Mas assim que parou para respirar e recuperar o fôlego, Emmylou percebeu que nunca chegaria a vias de facto. "Toda a gente estava excitada e dizia que ia tocar na rádio, mas depois não fui convidada para a festa. E então tornou-se muito claro que não importava que tipo de disco fizesse, não iam mesmo tocá-lo".

É deste abortado reacender da paixão que surge o disco que, em 1995, revoluciona a sua carreira. "Wrecking Ball" deve-se parcialmente à constatação de Emmylou de que pode ser tão radical quanto lhe passar pela cabeça, uma vez que o argumento de agradar do público tradicional tinha desaparecido. ""Wrecking Ball" surgiu numa altura em que precisava mesmo de um empurrão e de uma mudança. Acho que nem eu tinha percebido o quanto precisava dessa mudança. Andava a lavrar o mesmo terreno há muito tempo". Queria mudar, mas não sabia para o quê. E então resolveu ligar ao produtor Daniel Lanois e convidá-lo para se sentar no lugar do condutor. Daniel produzira não há muito "Oh Mercy", de Bob Dylan, álbum que encantara Emmylou. Mas, mais importante do que isso, Lanois fora o produtor de "Joshua Tree", o disco mais norte-americano dos U2, baptizado em homenagem a... Gram Parsons.

"Jogar pelo seguro nunca é boa ideia", reconhece Emmylou, que sempre se preocupou mais em agradar aos fãs dispostos a embarcar consigo sem saber para onde, independentemente dos seus ziguezagues estilísticos. Por duas vezes na sua carreira, recorda, foi obrigada a puxar da sua arrogância para fazer valer opções temerárias. Da primeira vez, estava ela para lançar "Roses in the Snow", em 1980, foi informada pela editora de que levar aquele disco avante seria equivalente a atirar a sua carreira para um precipício. "Na altura fui suficientemente arrogante para achar que seria capaz de suportar um falhanço comercial. Pensei: "eles podem ter razão, não vai vender nada, mas este é o disco que eu preciso de fazer". Acabou por ser tornar o disco mais bem-sucedido da minha carreira até então". Passados cinco anos, tudo exactamente igual. A arrogância prevaleceu e fez "The Ballad of Sally Rose". Só que dessa vez, coube-lhe "um desastre comercial". "Mas se temos a sorte de sermos inspirados por uma ideia e pela música que estamos a fazer, então temos de honrar isso, caso contrário pagamos um preço muito mais elevado do que pagaríamos por jogar pelo seguro".

Pouco interessada no valor dessa coisa chamada segurança, Emmylou Harris, 64 anos, continua a ver a vida como um processo simples "de pôr um pé à frente do outro". Se o terreno é fértil, duro, pantanoso ou árido, isso logo se vê. As pernas desta mulher foram feitas para andar. Com a classe suficiente para nunca denunciar um pé mal colocado.

e agora a crítica ao disco, também no "Público"

Emmylou Harris - Hard Bargain


Gram Parsons demorou-se pouco mais de 26 anos na Terra. Mas foi tempo de sobra para injectar uma alma country nos Byrds, fundar os Flying Burrito Brothers - magnífica bandeira da música country electrificada - e gravar um par de seminais discos a solo. Isto é o que consta do currículo oficial. Mas há um outro facto grandioso: encontrou uma voz sublime, em bruto, só à espera de alguém lhe indicar uma direcção. Não tardou, por isso, a "flirtar" artisticamente com Emmylou Harris e a tornar-se seu mestre na descoberta de uma country muito para além das fronteiras "redneck" de Nashville, sem chapéu de caubói, tabaco de mascar, cornos pregados à frente da carrinha de tracção às quatro rodas e penduricalhos ao pescoço a fazer o papel de gravatas anorécticas. Harris sorveu o que pôde no curto espaço de tempo de que dispôs com Parsons. Parsons ofereceu-lhe uma voz. E ela não se fez rogada.

Essa voz foi-se manifestando de várias formas, mas sempre recusando ficar circunscrita ao meio da country. Até que a country, meio conservador, altamente ciumento, a foi afastando do poderoso circuito das rádios especializadas norte-americanas. E foi o melhor que podia ter acontecido a Emmylou Harris. Quando lhe voltaram as costas, ela soube responder não na mesma moeda, mas numa moeda mais forte. Chamou Daniel Lanois (U2, Bob Dylan...) para o lugar de produtor e este ajudou-a a esboçar um novo fôlego para a sua carreira. "Wrecking Ball", de 1995, deu início a um programa de resgate (expressão obrigatória por estes dias) de Harris para a frente de uma outra batalha. A de uma country de cara lavada, rejuvenescida, inspiradora de gente como Ryan Adams, Steve Earle, Gillian Welch ou Patty Griffin.

Passados dois discos, na sua campanha para arregimentar os maiores da música norte-americana, a Nonesuch assina-a e empresta-lhe aquilo que era devido: um classicismo de absoluta elegância, condizente com o hipnotizante cabelo prateado da senhora Harris. "Hard Bargain", terceiro álbum das contas que dizem respeito à mesma editora de Elvis Costello (acidentalmente inglês), Wilco, John Adams, Brad Mehldau ou Laurie Anderson, é mais um brilhante contributo para esta carreira e fica apenas ligeiramente abaixo das obras-primas "Wrecking Ball" e "Stumble Into Grace". Country como sempre devia ser: despudorada, chamando a si honky tonk, folk, rock e pop, tratando o amor através de um fatalista filtro próprio do Sul, com um lirismo absolutamente belo (exemplos perfeitos: "The Ship on His Arm" e as homenagens a Gram em "The Road" e a Kate McGarrigle em "Darlin" Karte").

A vantagem de Emmylou Harris é que faz tudo isto sem esforço aparente e de qualquer canção um manual de boas práticas de como fazer country sem nos lembrar a cada segundo que é isso que estamos a ouvir.
Gonçalo Frota


duas canções do disco novo:
esta canção é mais uma a falar de Gram Parsons

http://www.youtube.com/watch?v=IyUGPzBFzAM

http://www.youtube.com/watch?v=Mz42ADP_lYY

e aqui fica umas das raras gravações dela com o Gram

http://www.youtube.com/watch?v=bj8qnzwHUwo&feature=related

aqui a música começa só aos 3,56, até lá é conversa:
http://www.youtube.com/watch?v=mZ0_GgE3CFI&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=sbw0yFuEtKU&feature=related

para terminar ela a cantar uma canção do Paul Kennerley

http://www.youtube.com/watch?v=S3rvSyzz-Ws

Cali
28-04-2011, 21:34
Olha, conheço a senhora, gosto da voz dela, mas não tenho nenhum disco, e não me lembro de nenhuma das suas canções. Vou aproveitar amanhã para ouvir o 'best of' que seleccionaste, aqui no teu topico, e depois digo qualquer coisa.;) Obrigado!

jleandro
28-04-2011, 23:48
Olha, conheço a senhora, gosto da voz dela, mas não tenho nenhum disco, e não me lembro de nenhuma das suas canções. Vou aproveitar amanhã para ouvir o 'best of' que seleccionaste, aqui no teu topico, e depois digo qualquer coisa.;) Obrigado!

???
eu não indiquei nenhum "best of", que a existir te dá uma ideia das grandes canções dela de há 30/35 anos: são tantas que é difícil escolher: Amarillo, Together again, Here there and everywhere, Jambalaya, e especialmente "Boulder to Birmingham" a grande canção de amor ao Gram Parsons, que se não me engano é do 2º disco dela.
as canções que referi antes são do 3º "Elite Hotel"
procura também ouvi-la num disquinho muito esquecido que é: The Legend of Jesse James, editado no inicio dos anos 80, que foi composto e produzido pelo Paul Kennerley e onde cantam além dela o Leven Helm, Johnny Cash e o Charlie Daniels.
este e o "White Mansions" (também escrito e produzido pelo Paul) tentam recuperar uma certa cultura sulista e contradizer a verdade histórica, dando-lhe uma explicação muito própria da gente do sul dos EUA.

posso também recomendar um dos últimos discos dela, que ouço muita vez, que é uma "country" diferente do que normalmente se espera: "Stumble into grace", tem meia dúzia de anos e é sublime.

ela é estilo Neil Young: quantod mais anos passam, melhor ficam:)

Cali
29-04-2011, 09:50
'Best of' era brincadeira. :D Chamei-lhe isso porque a selecção foi tua. não escolheste outras, escolheste estas, portanto... é o teu Best of. Ora... não ligues, pronto. :D E... ainda não ouvi.

jleandro
29-04-2011, 11:16
aqui fica do tal disco "The legend of Jesse James2

canta Levom Helm
http://www.youtube.com/watch?v=7QwJoXbY_R0
http://www.youtube.com/watch?v=bhSquG1XGzM&feature=related

Johnny Cash
http://www.youtube.com/watch?v=zGYYN9FJtj4&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=MR23gkRMMyo

e não encontro as duas canções que ela canta no disco:o