Karl Marx
12-04-2010, 23:29
Manuela Arcanjo
Só preciso de 100 gramas de farinha e de dois ovos
(Negócios)
Na última década tem vindo a aumentar regular e fortemente o número de agregados familiares de um só indivíduo (solteiros, divorciados e viúvos). Podemos admitir que muitos deles não cozinham regularmente em casa, mas poderão fazê-lo ocasionalmente. Continuando no campo das hipóteses, vamos supor que um destes indivíduos decidia preparar um jantar simples e, para o efeito, elaborava uma lista de compras. Iria precisar de azeite (duas colheres de sopa), feijão (200 gramas), farinha (100 gramas) e 2 ovos, entre outras coisas. Poderia decidir fazer as suas compras numa loja de bairro ou numa grande superfície, o resultado seria o mesmo: só poderia adquirir meio litro de azeite, um quilograma de feijão e de farinha e seis ovos. Gastava muito mais do que pretendia (e precisava) e guardaria tudo o resto na dispensa para uma outra ocasião, salvo os produtos perecíveis. Quarenta anos atrás, o nosso hipotético indivíduo poderia adquirir rigorosamente as quantidades necessárias já que em lugar das conhecidas embalagens, as mercearias da época dispensavam todos os produtos em estilo "unidose".
Pois é, muita coisa mudou nas últimas décadas. Naquele tempo não tínhamos um Serviço Nacional de Saúde, o acesso a cuidados de saúde diferenciados era muito restrito, não dispúnhamos de meios auxiliares de diagnóstico e terapêutica da última geração, a entrada nas universidades era altamente selectiva, não tínhamos uma rede de vias rápidas, não existiam telemóveis nem computadores.
Vem esta longa introdução a propósito do debate recente, e recorrente, em torno da adopção da dispensa de medicamentos no sistema unidose. Mais uma vez pela mão do CDS e de Paulo Portas, especialista em trazer para a comunicação social ideias que possam ter acolhimento na opinião pública, isto é, que "vendam bem". Já no período de negociação do Orçamento do Estado para 2010, uma das matérias negociadas foi a celebração de protocolos com as IPSS para realização de cirurgias, o que já tinha sido feito em 2000 sem sucesso: os portugueses em lista de espera preferiam assim continuar num hospital público. Mas o mais interessante foi assistir a uma posição defensiva por parte de Ana Jorge e de deputados do PS: claro que se pretende adoptar o sistema, mas as dificuldades técnicas são muitas, é necessário um rigoroso controlo da qualidade e da potencial contrafacção. Em contra-ataque argumentam com os casos do Reino Unido - cujo SNS, em que Portugal se inspirou, já conheceu melhores tempos - e nos EUA, onde dezenas de milhões de pessoas não têm acesso a cuidados de saúde.
Raramente evoco experiências passadas, mas aqui abro uma excepção: não tive qualquer pressão para não adoptar este sistema nem, de forma directa ou encapotada, tomei qualquer decisão que beneficiasse (ou não prejudicasse) as organizações representativas das farmácias ou da indústria farmacêutica. A minha opção recaiu no redimensionamento das embalagens, mais ajustado a situações agudas ou crónicas, na manutenção da fórmula de cálculo do preço dos medicamentos na entrada no mercado português por assegurar preços mais reduzidos (será que o CDS não reparou na posterior alteração da fórmula de cálculo que agravou os preços?) e na majoração da comparticipação de medicamentos genéricos no caso de idosos (será que o CDS não reparou que veio a ser abolida?). Claro que também tive a preocupação de eliminar desperdícios, caso, por exemplo, de protocolos, contratos e potenciais aquisições que apenas beneficiavam entidades privadas e sociais e não os utentes do SNS. São opções.
Professora universitária (ISEG) e investigadora. Economista.
Só preciso de 100 gramas de farinha e de dois ovos
(Negócios)
Na última década tem vindo a aumentar regular e fortemente o número de agregados familiares de um só indivíduo (solteiros, divorciados e viúvos). Podemos admitir que muitos deles não cozinham regularmente em casa, mas poderão fazê-lo ocasionalmente. Continuando no campo das hipóteses, vamos supor que um destes indivíduos decidia preparar um jantar simples e, para o efeito, elaborava uma lista de compras. Iria precisar de azeite (duas colheres de sopa), feijão (200 gramas), farinha (100 gramas) e 2 ovos, entre outras coisas. Poderia decidir fazer as suas compras numa loja de bairro ou numa grande superfície, o resultado seria o mesmo: só poderia adquirir meio litro de azeite, um quilograma de feijão e de farinha e seis ovos. Gastava muito mais do que pretendia (e precisava) e guardaria tudo o resto na dispensa para uma outra ocasião, salvo os produtos perecíveis. Quarenta anos atrás, o nosso hipotético indivíduo poderia adquirir rigorosamente as quantidades necessárias já que em lugar das conhecidas embalagens, as mercearias da época dispensavam todos os produtos em estilo "unidose".
Pois é, muita coisa mudou nas últimas décadas. Naquele tempo não tínhamos um Serviço Nacional de Saúde, o acesso a cuidados de saúde diferenciados era muito restrito, não dispúnhamos de meios auxiliares de diagnóstico e terapêutica da última geração, a entrada nas universidades era altamente selectiva, não tínhamos uma rede de vias rápidas, não existiam telemóveis nem computadores.
Vem esta longa introdução a propósito do debate recente, e recorrente, em torno da adopção da dispensa de medicamentos no sistema unidose. Mais uma vez pela mão do CDS e de Paulo Portas, especialista em trazer para a comunicação social ideias que possam ter acolhimento na opinião pública, isto é, que "vendam bem". Já no período de negociação do Orçamento do Estado para 2010, uma das matérias negociadas foi a celebração de protocolos com as IPSS para realização de cirurgias, o que já tinha sido feito em 2000 sem sucesso: os portugueses em lista de espera preferiam assim continuar num hospital público. Mas o mais interessante foi assistir a uma posição defensiva por parte de Ana Jorge e de deputados do PS: claro que se pretende adoptar o sistema, mas as dificuldades técnicas são muitas, é necessário um rigoroso controlo da qualidade e da potencial contrafacção. Em contra-ataque argumentam com os casos do Reino Unido - cujo SNS, em que Portugal se inspirou, já conheceu melhores tempos - e nos EUA, onde dezenas de milhões de pessoas não têm acesso a cuidados de saúde.
Raramente evoco experiências passadas, mas aqui abro uma excepção: não tive qualquer pressão para não adoptar este sistema nem, de forma directa ou encapotada, tomei qualquer decisão que beneficiasse (ou não prejudicasse) as organizações representativas das farmácias ou da indústria farmacêutica. A minha opção recaiu no redimensionamento das embalagens, mais ajustado a situações agudas ou crónicas, na manutenção da fórmula de cálculo do preço dos medicamentos na entrada no mercado português por assegurar preços mais reduzidos (será que o CDS não reparou na posterior alteração da fórmula de cálculo que agravou os preços?) e na majoração da comparticipação de medicamentos genéricos no caso de idosos (será que o CDS não reparou que veio a ser abolida?). Claro que também tive a preocupação de eliminar desperdícios, caso, por exemplo, de protocolos, contratos e potenciais aquisições que apenas beneficiavam entidades privadas e sociais e não os utentes do SNS. São opções.
Professora universitária (ISEG) e investigadora. Economista.