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View Full Version : O melhor disco de sempre do género?


Cali
08-03-2010, 15:18
Brazil – a Tribute

O novo trabalho do Girão, em formato duplo, é, tal como o nome indica, uma viagem pelo mundo da musica brasileira, em jeito de homenagem, com sua marca singular. Tal como parece ser seu apanágio recente, Girão optou por arrumar tudo bem arrumadinho (abaixo as ‘salganhadas’, certo, Girão? ), em dois formatos:

O disco “Bossa Nova”, acustico, atmosférico (ou ‘lounge’ como se usa mais agora) dedicado á Bossa Nova, onde visitou alguns dos clássicos do género (alguns mais conhecidos que outros) num timbre assumidamente 'jazzy', que já era apanágio do seu trabalho anterior “Fado Negro”, parece marcar a tendência deste seu regresso em força, após 10 anos de silêncio. Tendo por base obras de Chico Buarque e Tom Jobim, entre outros, aos primeiros acordes deste disco sou remetido para o sofisticado e requintado ambiente de um piano-bar, como por exemplo num luxuoso hotel. Fecho os olhos e três palavras assomam-me ao pensamento: sweet, soft and lazy, que só por acaso (ou talvez não) é uma canção de Viktor Lazlo, com mais de 20 anos (se tiverem curiosidade procurem-na no Youtube). Este disco é dos que merece um hi-fi de primeira qualidade, com uns graves precisos e poderosos, e umas colunas de sensibilidade decibélica elevada, que coloque ‘cá fora’, na nossa sala, a atmosfera singular e o palco sonoro que se adivinha fantástico, se um dia fôr possivel de apreciar ao vivo. Para quem é melómano, é fácil perceber o que quero dizer, pois existem ‘aromas sonoros’ fundamentais quase inaudiveis, que apenas se sentem e pressentem, e sem as condições indispensáveis para tal, perde-se o ambiente acustico e a sua magia. Se me permitem a sugestão, de seguida, façam assim: encham um copo com a vossa bebida preferida, fechem os olhos e ... flutuem. Em alternativa (melhor ainda), agarrem o/a vosso/a mais-que-tudo, baixem as luzes, encostem as bochechinhas e embalem-se como se não houvesse amanhã.

O outro disco deste trabalho duplo, “Samba”, mantem o mesmo perfil sonoro, embora num registo naturalmente mais animado, e já polvilhado aqui e ali pela irreverência de Girão, que não pode evitar brincar com as vocalizações á sua maneira, com mestria, aliás como apenas outra pessoa faz em Portugal, e estou obviamente a falar da Maria João. Este é um disco mais abrangente, no que respeita aos autores, e nele podemos encontrar versões muito peculiares de temas inesqueciveis como “Samba da minha terra”, “É com esse que eu vou”, “Alô Alô Marciano”, “O Pato”, e “Agua de Beber” e outros, de autores como Vinicius de Moraes, Ivan Lins, Tom Jobim, Rita Lee, Dorival Caymmi e João Bosco. Cá está de novo o toque do Jazz metido no Samba (apetece-me chamar-lhe 'Jazzamba', ) e aqui a genialidade da flexibilidade vocal e interpretativa do Girão atinge o brilho que no disco “Bossa nova” não é possivel atingir, por contingências especificas daquele género musical. O primeiro tema do disco, “Samba da minha terra” é o melhor cartão de visita possivel para o resto do disco, pois está lá tudo o que Girão tem para dar quando se deixa possuir pelo insano espirito do ritmo. Depois... é deixar rolar, até á faixa 13!

Em resumo, apesar de naturalmente cantado em português, este é claramente um trabalho universal, feito para ser ouvido pelo mundo, e não apenas para Portugal. Aliás o próprio titulo e apresentação gráfica do disco denuncía isso mesmo. E ainda bem que assim é. Fernando Girão já percebeu há muito tempo que se vivesse do que os portugueses lhe dão, estava bem tramado. Afinal, o que ele aqui fez, neste disco, e em particular no "Bossa Nova", nada fica a dever aos discos da Diana Krall, antes pelo contrário. Mas a Diana é loira, é gira, e é estrangeira, e por isso os preconceituosos consumidores portugueses podem aplaudi-la de pé e dar-lhe muitos discos de ouro. Ao Girão é que não, infelizmente. Se me perguntarem com que este tributo brasileiro 'made by' Girão é parecido, eu diria que é parecido com ... Girão. E o Girão não é parecido com mais ninguem: é unico.

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Caros amigos, o texto acima foi escrito por mim, há umas semanas atrás, para outro destino e outro propósito. Fiquei durante uns tempos cá a pensar se o deveria colocar aqui tambem, já que alguns de vocês sabem que eu tenho maior respeito pelo Girão (embora não goste de tudo o que ele fez ao longo da sua já longa carreira) e que posso ser algo desconsiderado na minha opinião por isso mesmo, mas hoje decidi que 'sim senhor, porque não'?
Para mim, trata-se de uma das melhores homenagens á musica brasileira que eu já ouvi, e um trabalho que merece todo o destaque, embora, como é óbvio, acabará por não obter nenhum relevo em Portugal. Pode ser que além-fronteiras lhe reconheçam a genialidade. Mas aproveito para o partilhar convosco. Têm aqui, no youtube, algumas das canções deste disco (mas só um hi-fi em condições fará jus ao que vão ouvir). É possivel comprá-lo ou encomendá-lo (caso não esteja disponivel) nas FNACs.


"samba da minha terra" - disco "Samba"
http://www.youtube.com/watch?v=y0r2q35abDM


"retrato em branco e preto" - disco "Bossa Nova"
http://www.youtube.com/watch?v=GlZX3a1Rrus

"ronco da cuíca" - disco "Samba"
http://www.youtube.com/watch?v=LjqK0Bei5h8

http://img28.imageshack.us/img28/2043/novocd.jpg

jleandro
08-03-2010, 15:59
há muito tempo que não sabia do Girão, se excluir umas coisas que encontrei algures na net (provavelmente aparecem neste disco), a verdade é que o Girão deve a si próprio e a quem o sempre apreviou uma carreira digna das suas qualidades como cantor.
quem o conhece desde os tempos do anúncio da "Regisconta" há muito tempo que espera que ele surja com o esplendor devido q uem tem uma voz e um sentido musical como ele tem.


vou tratar de comprar isto e ouvir devidamente;)

ps: BRAZIL com "z"...era escusado:o

Karl Marx
08-03-2010, 16:01
ps: BRAZIL com "z"...era escusado:o

Nesse caso, ATRIBUTE com "e" também era escusado ;)

Interessante, sim senhor.

Cali
08-03-2010, 16:07
Karl e Leandro, o disco foi feito a pensar no mundo, e não apenas em Portugal. Daí se explica o 'Z' e o 'Tribute'. ;) É que o Girão tem muito mais mercado no estrangeiro do que em Portugal. No Brasil foi entrevistado pela Globo, devido a este disco. Em Portugal foi entrevistado pelo "mundo das mulheres" na Sic Mulher, e não foi a proposito deste disco. Foi só porque calhou.

O Phillip Hamilton (ex-membro do Pat Metheny Group) disse:

"No one delivers a ballad like Fernando Girão. Truly a master at his craft.

Girão continues his work as an important voice on the international music scene. A vocalist who both respects and defies traditions.

On sambas, his style reminds listeners that the spirit is also physical.
On brazil – a tribute, Fernando Girão takes us higher and deeper.
Keep on inspiring through your music."

Cali
08-03-2010, 16:12
Acrescento ainda que, antes deste trabalho dedicado ao Brasil, o Girão editou um outro disco de originais, em Setembro do ano passado, denominado "Fado Negro". Pessoalmente acho-o menos interessante do que este, mas é sempre diferente, é sempre Girão.

http://aeiou.caras.pt/users/0/18/fernando-girao-b58c.jpg


Muito provavelmente o Girão irá editar mais 5 albuns nos proximos tempos, já que ele tinha 7 albuns gravados e prontos a editar, e no ano passado arranjou editora para os prensar e distribuir: a "Numérica".

Cali
29-03-2010, 10:34
Ontem, pela primeira vez na minha (já não tão curta assim) existência, tive o grato prazer de ver e ouvir o Fernando Girão. Foi ali, mesmo pertinho, cada um em sua mesa, separados por meia duzia de metros e o degrau do palco. Tinhamos duas mesas iguais, e ambas vazias, mas a dele ... tocava musica! É verdade! Por qualquer arte mágica, a mesa que estava á frente do Girão libertava um ritmo contagiante cada vez que as suas mãos se encontravam com o tampo! Parecia obra do Demo! Ou então coisa divina! Ou ambos, visto que segundo consta o Diabo é tambem ele próprio uma divindade. Seja lá o que fôr, aquela mesa era, com excepção da voz, o unico instrumento musical que o Girão tinha em sua posse. E depois havia ainda o guitarrista ao seu lado, não menos importante, certamente. Porém, fiquei sempre com a ideia de que, ainda que não houvesse guitarrista, ainda que fosse apenas o Girão e aquela mesa a necessitar de um exorcista, aquilo teria resultado bem de igual modo.
O album "Brazil, a tribute" foi apenas o mote para quase uma hora de genial simplicidade musical, entrecortada com bons pedaços de conversa e humor, na FNAC de Alfragide. O ambiente era acolhedor, as gargalhadas era francas, as palmas genuinas, a voz era inteira e intensa, a guitarra era competente mas...suada! O guitarrista brasileiro, cujo nome infelizmente me fugiu da memória, por vezes viu-se 'grego' para acompanhar os desvarios e os improvisos vocais do Girão, mas isso acabou por ser mais um espectaculo dentro do próprio Espectaculo, gerando alguns momentos inesperados de muito boa disposição.

É um prazer inexcedivel ver a facilidade com que um ser humano que transpira musica e ritmo por todos os poros há mais de meio século, torna tão fácil e natural aquilo que todo sabemos ser tão dificil: ser genial. Como brinde, ontem aprendemos (todos os que lá estavam) a fazer uns quantos "ZU-CU-TU-PÁ-TU-BÉ-LÉ-UÓ-NHO-NHÉS" com o Girão. Enfim... precisavamos de mais umas lições extras (talvez umas 298) para aquilo sair bem, mas ele parece ter gostado e isso já nos deixou mais motivados.
E eu ainda ganhei um autografo no meu disco, e meia duzia de palavras trocadas com um grande musico e um gajo porreiro.

Como consolação a quem não pode assistir a um momento raro, deixo a informação de que há Girão 'enlatado' á venda na Fnac. É em formato duplo, chama-se "Brazil - a tribute", e para aquilo que oferece, é mais barato que a uva mijona.

http://www.numerica-multimedia.pt/media/imagens_noticias_basico/NOTICIA.jpg