Patacôncio
24-07-2003, 00:48
Para quem gosta destas coisas...
In http://www.finbolsa.com/anaart.asp?aut=0&nome=anaaaajf&orig=hpaut&tit=hp&s=1
BCP: qual a dimensão do buraco?
Por Joao Dinis de Sousa , 22/07/2003
A situação financeira do BCP inspira suspeitas e receios a quem faça uma análise mais atenta da mesma. A situação líquida do banco era, no final de 2002, de 2188 milhões de euros (ME). No entanto, como essa situação líquida já incorpora 700 ME da entrada de capital correspondente à emissão de títulos convertíveis em acções (feita em Dezembro), ela seria de 1488 ME sem essa emissão, ou seja, atendendo ao número de acções em 31-12-2002 (2327 milhões), o valor contabilístico era, antes dessa emissão, de 0.63 euros por acção, bem abaixo do valor nominal.
A emissão desses títulos, feita in extremis em Dezembro último, salvou o banco de problemas na capacidade de captar depósitos (que são notórios) e poupou-o também a uma maior exposição pública dos problemas na sua estrutura financeira.
Desde então, houve mais um grande aumento de capital, a 1 euro por acção, que fez entrar nos cofres do BCP mais 931 ME. Isso fez subir a situação líquida para 2188 + 931 = 3119 ME. Mas, como o número de acções passou a ser de 2327 + 931 = 3258 milhões, o valor contabilístico actual mantém-se abaixo de 1 euro, no valor de 96 cêntimos.
Mas há mais: a emissão de títulos convertíveis de Dezembro de 2002 (cujo montante já entrou no balanço de 2002) implica a conversão desses títulos em acções, ao rácio de 2.042 acções por cada título, o que faz com que o número de acções vá ser, até 2005, aumentado em mais 286 milhões. Logo, o número de acções que devemos considerar é 3544 milhões, o que coloca o valor contabilístico em apenas 88 cêntimos por acção (e foram precisos dois aumentos de capital feitos a correr para o conseguir...).
Que lucros anuais devemos esperar para o BCP nos próximos anos? O de 2002 foi de 272 ME, cerca de metade do consigo em anos anteriores. Para 2003 e 2004, poderá ir algo acima do de 2002 (já que este foi afectado por uma provisão extraordinária de 200 ME), mas talvez não volte à casa dos 500 ME. Vamos admitir resultados em torno dos 400 ME (o que pode ser optimista demais; veja mais abaixo nesta análise). Mesmo com esses 400 ME (em 2003 e 2004), isso dá um lucro por acção de 11.2 cêntimos. Logo, a cotação actual de 1.43 euros dá um PER de 13, o que é aceitável, mas não demasiado barato, como alguns analistas andam a dizer por aí.
Agora vamos analisar outros possíveis "rombos" na situação líquida (não esquecendo que o BCP foi, entre as empresas cotadas em Portugal, o campeão da destruição de valor accionista; um estudo estrangeiro mostra que a maior parte do valor investido pelos accionistas em sucessivos aumentos de capital desde 1987 foi destruído).
Examinemos as participações financeiras principais. Na tabela que se segue, temos a empresa participada, o número de acções, o valor com que aparecem no balanço de 2002 e o valor de mercado em 31-12-2002.
Participação Quantidade Valor (balanço) Mais/menos valia
---------------------------------------------------------------------------------
B.Millenium 442 M 1.04 E 0?
EDP 151 M 3.83 E -332 ME
ONI 66.7 M 3.22 E -208 ME (deve valer zero)
Friends Provident 583 M 1 E -143 ME
Portanto, aqui há menos valias de 683 ME, das quais 151 ME estão provisionadas no balanço, pelo que a menos valia que "se comunicará" aos anos seguintes poderá ser des poderá ser de 683 - 151 = 532 ME.
Há outras participações financeiras, mas menos importantes do que estas: BII, Banque BCP, Leasefactor, e muitas outras mais pequenas. Não é fácil apurar as mais ou menos valias delas, mas é provável que não sejam significativas e que até haja ganhos no BII.
Dois factos positivos são a subida de cotação da EDP durante 2003, que anulou uma parte das menos valias (será que a subida da EDP continuará, já que é uma empresa com vendas e lucros com poucas hipóteses de expansão futura?) e bons resultados no Banco Millenium (anterior Big Bank Gdansk) que poderão gerar mais valias bastante apreciáveis. Mas há o outro lado da questão: todas estas participações também poderão descer mais.
Os 532 ME de perdas potenciais deverão ser amortizados em 4 ou 5 anos em parcelas iguais (o BPI e o BES já começaram a fazer isso com as suas perdas). Isso dará uma provisão (e consequente redução de lucro) de 80-100 ME por ano só para fazer face a essas perdas. Aqui o leitor pode ver por que considerei atrás que dificilmente o banco voltaria a lucros de 500 ME anuais nos próximos tempos.
Há ainda o problema de eventuais "buracos" adicionais na enorme carteira de títulos da Seguros e Pensões (aparece consolidada no balanço do BCP, mas os números apresentados são obscuros e suspeitos e da ordem das dezenas de milhares de milhões de euros; sugerem outras menos valias que poderão ser grandes, talvez mesmo muito maiores do que os 532 ME de perdas das participações financeiras descritos acima; se o são, isso não se pode ver no balanço de 2002).
Além disso, a autonomia financeira é de apenas 5%, um valor baixo (e seria muito pior se não fossem os dois aumentos de capital feitos in extremis!), o que só por si, tornaria provável um novo aumento de capital. Além disso, há as declarações de Vítor Constâncio, que afirmou que toda a banca privada portuguesa precisa de novos aumentos de capital. Além disso, há a necessidade de novos investimentos num novo sistema europeu de avaliação de riscos de crédito, muito caro.
E finalmente, há a sombra de um previsível aumento do crédito mal parado, agravado com a recessão e com o alto endividamento das famílias. Neste momento, o crédito vencido no BCP está em 1.5%, o que não é demasiado alto historicamente, mas está a aumentar rapidamente. As consequências de um aumento substancial deste crédito mal parado são imprevisíveis e potencialmente muito graves. Por exemplo, se subisse de 1.5% para 2.5%, dado o volume de créditos do grupo BCP, só aí haveria necessidade de provisionar mais 500 ME pelo menos (que "comeriam" os lucros de 2003 e a situação líquida).
Ainda há o problema de o banco estar a perder quotas de mercado em várias frentes para o BPI, BES, Banif e outros bancos.
Assim, a posse de acções BCP, neste momento, tem que ser considerada de altíssimo risco. Novos aumentos de capital são quase certos e talvez até operações harmónio (bem conhecidas por arruinarem os accionistas). A acção poderá subir até aos 2 euros, numa euforia do mercado, mas muito dificilmente passará daí (e aí haverá boas hipóteses de "shortá-la"). E, se as coisas derem para o torto nas frentes do crédito mal parado, da carteira de títulos da área seguradora e das participações financeiras, sabe-se lá o que poderá acontecer.
In http://www.finbolsa.com/anaart.asp?aut=0&nome=anaaaajf&orig=hpaut&tit=hp&s=1
BCP: qual a dimensão do buraco?
Por Joao Dinis de Sousa , 22/07/2003
A situação financeira do BCP inspira suspeitas e receios a quem faça uma análise mais atenta da mesma. A situação líquida do banco era, no final de 2002, de 2188 milhões de euros (ME). No entanto, como essa situação líquida já incorpora 700 ME da entrada de capital correspondente à emissão de títulos convertíveis em acções (feita em Dezembro), ela seria de 1488 ME sem essa emissão, ou seja, atendendo ao número de acções em 31-12-2002 (2327 milhões), o valor contabilístico era, antes dessa emissão, de 0.63 euros por acção, bem abaixo do valor nominal.
A emissão desses títulos, feita in extremis em Dezembro último, salvou o banco de problemas na capacidade de captar depósitos (que são notórios) e poupou-o também a uma maior exposição pública dos problemas na sua estrutura financeira.
Desde então, houve mais um grande aumento de capital, a 1 euro por acção, que fez entrar nos cofres do BCP mais 931 ME. Isso fez subir a situação líquida para 2188 + 931 = 3119 ME. Mas, como o número de acções passou a ser de 2327 + 931 = 3258 milhões, o valor contabilístico actual mantém-se abaixo de 1 euro, no valor de 96 cêntimos.
Mas há mais: a emissão de títulos convertíveis de Dezembro de 2002 (cujo montante já entrou no balanço de 2002) implica a conversão desses títulos em acções, ao rácio de 2.042 acções por cada título, o que faz com que o número de acções vá ser, até 2005, aumentado em mais 286 milhões. Logo, o número de acções que devemos considerar é 3544 milhões, o que coloca o valor contabilístico em apenas 88 cêntimos por acção (e foram precisos dois aumentos de capital feitos a correr para o conseguir...).
Que lucros anuais devemos esperar para o BCP nos próximos anos? O de 2002 foi de 272 ME, cerca de metade do consigo em anos anteriores. Para 2003 e 2004, poderá ir algo acima do de 2002 (já que este foi afectado por uma provisão extraordinária de 200 ME), mas talvez não volte à casa dos 500 ME. Vamos admitir resultados em torno dos 400 ME (o que pode ser optimista demais; veja mais abaixo nesta análise). Mesmo com esses 400 ME (em 2003 e 2004), isso dá um lucro por acção de 11.2 cêntimos. Logo, a cotação actual de 1.43 euros dá um PER de 13, o que é aceitável, mas não demasiado barato, como alguns analistas andam a dizer por aí.
Agora vamos analisar outros possíveis "rombos" na situação líquida (não esquecendo que o BCP foi, entre as empresas cotadas em Portugal, o campeão da destruição de valor accionista; um estudo estrangeiro mostra que a maior parte do valor investido pelos accionistas em sucessivos aumentos de capital desde 1987 foi destruído).
Examinemos as participações financeiras principais. Na tabela que se segue, temos a empresa participada, o número de acções, o valor com que aparecem no balanço de 2002 e o valor de mercado em 31-12-2002.
Participação Quantidade Valor (balanço) Mais/menos valia
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B.Millenium 442 M 1.04 E 0?
EDP 151 M 3.83 E -332 ME
ONI 66.7 M 3.22 E -208 ME (deve valer zero)
Friends Provident 583 M 1 E -143 ME
Portanto, aqui há menos valias de 683 ME, das quais 151 ME estão provisionadas no balanço, pelo que a menos valia que "se comunicará" aos anos seguintes poderá ser des poderá ser de 683 - 151 = 532 ME.
Há outras participações financeiras, mas menos importantes do que estas: BII, Banque BCP, Leasefactor, e muitas outras mais pequenas. Não é fácil apurar as mais ou menos valias delas, mas é provável que não sejam significativas e que até haja ganhos no BII.
Dois factos positivos são a subida de cotação da EDP durante 2003, que anulou uma parte das menos valias (será que a subida da EDP continuará, já que é uma empresa com vendas e lucros com poucas hipóteses de expansão futura?) e bons resultados no Banco Millenium (anterior Big Bank Gdansk) que poderão gerar mais valias bastante apreciáveis. Mas há o outro lado da questão: todas estas participações também poderão descer mais.
Os 532 ME de perdas potenciais deverão ser amortizados em 4 ou 5 anos em parcelas iguais (o BPI e o BES já começaram a fazer isso com as suas perdas). Isso dará uma provisão (e consequente redução de lucro) de 80-100 ME por ano só para fazer face a essas perdas. Aqui o leitor pode ver por que considerei atrás que dificilmente o banco voltaria a lucros de 500 ME anuais nos próximos tempos.
Há ainda o problema de eventuais "buracos" adicionais na enorme carteira de títulos da Seguros e Pensões (aparece consolidada no balanço do BCP, mas os números apresentados são obscuros e suspeitos e da ordem das dezenas de milhares de milhões de euros; sugerem outras menos valias que poderão ser grandes, talvez mesmo muito maiores do que os 532 ME de perdas das participações financeiras descritos acima; se o são, isso não se pode ver no balanço de 2002).
Além disso, a autonomia financeira é de apenas 5%, um valor baixo (e seria muito pior se não fossem os dois aumentos de capital feitos in extremis!), o que só por si, tornaria provável um novo aumento de capital. Além disso, há as declarações de Vítor Constâncio, que afirmou que toda a banca privada portuguesa precisa de novos aumentos de capital. Além disso, há a necessidade de novos investimentos num novo sistema europeu de avaliação de riscos de crédito, muito caro.
E finalmente, há a sombra de um previsível aumento do crédito mal parado, agravado com a recessão e com o alto endividamento das famílias. Neste momento, o crédito vencido no BCP está em 1.5%, o que não é demasiado alto historicamente, mas está a aumentar rapidamente. As consequências de um aumento substancial deste crédito mal parado são imprevisíveis e potencialmente muito graves. Por exemplo, se subisse de 1.5% para 2.5%, dado o volume de créditos do grupo BCP, só aí haveria necessidade de provisionar mais 500 ME pelo menos (que "comeriam" os lucros de 2003 e a situação líquida).
Ainda há o problema de o banco estar a perder quotas de mercado em várias frentes para o BPI, BES, Banif e outros bancos.
Assim, a posse de acções BCP, neste momento, tem que ser considerada de altíssimo risco. Novos aumentos de capital são quase certos e talvez até operações harmónio (bem conhecidas por arruinarem os accionistas). A acção poderá subir até aos 2 euros, numa euforia do mercado, mas muito dificilmente passará daí (e aí haverá boas hipóteses de "shortá-la"). E, se as coisas derem para o torto nas frentes do crédito mal parado, da carteira de títulos da área seguradora e das participações financeiras, sabe-se lá o que poderá acontecer.