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View Full Version : O despudor da estupidez


Óscar
07-10-2008, 23:15
Direitos negados também em Israel e no Irão

Mulheres sauditas só devem mostrar um olho

07.10.2008 - 16h28 Margarida Santos Lopes

Entre as muitas restrições a que estão sujeitas as mulheres na Arábia Saudita poderá juntar-se mais uma: quando saírem à rua, se não usarem um lenço que lhes oculte todo o rosto, só poderão mostrar um olho. É o que determina uma “fatwa” (édito religioso) proposta pelo xeque ultraconservador Muhammad al-Habadan, defensor de “um reforço das regras da modéstia”.

Para o xeque, que respondia a dúvidas de ouvintes no canal de TV por satélite al-Majd, “a revelação dos dois olhos encoraja as mulheres a usar maquilhagem [que é proibida] e atrai demasiada atenção, o que é um comportamento corrupto, em conflito com os princípios islâmicos.”

Como fazer então a vida diária apenas com visão parcial? Explica o xeque, muito popular entre os crentes masculinos: “Quando forem às compras, as mulheres poderão retirar totalmente o pedaço de tecido que tapa um dos olhos para poderem usar os dois... num limitado período de tempo.”

As novas directrizes, aparentemente, ainda não em vigor no reino onde nasceu Osama bin Laden e onde impera a rígida doutrina islâmica do wahabismo, confirmam as conclusões do último relatório das Nações Unidas sobre a condição feminina nas sociedades muçulmanas nos últimos cinco anos: a Arábia Saudita é o país onde as mulheres têm menos direitos – nem sequer o de usar saltos altos.

Zelotas judeus pela castidade...

Esta “fatwa” foi noticiada pelo diário hebraico “Yedioth Ahronoth”, no mesmo dia em que também denunciava o fanatismo de judeus ultra-ortodoxos, “que para salvaguardar a castidade, colocam a lei de Deus acima do estado de direito”. Nas últimas semanas, “patrulhas da modéstia” – semelhantes à “polícia de prevenção do vício e promoção da virtude” em países islâmicos – foram acusadas de assaltar casas para agredir mulheres por “usarem blusas vermelhas” ou “conviver com homens”. Também atearam fogo a armazéns que vendem aparelhos de acesso à Internet e leitores de MP4, “para evitar que os devotos façam ‘download’ de filmes pornográficos”.

A romancista, dramaturga e jornalista israelo-americana Naomi Ragen, uma judia praticante que tem abordado o mundo problemático das mulheres “haredim” (literalmente, tementes a Deus), lamenta o aparecimento destes “vigilantes com olhos e ouvidos em toda a parte, muito parecido com o que se passa no Irão”.

Isto agrava o antagonismo entre a comunidade ultra-ortodoxa (600 mil almas) e a maioria secular de Israel. O “Yedioth” nota que, embora muitos judeus ultra-ortodoxos se declarem escandalizados com a violência, os extremistas sentem-se protegidos por rabis, que aprovam estas acções para assegurar a reputação de guardiões da fé.

Foi por pressão dos “haredim” que algumas ruas, restaurantes e centros comerciais de Jerusalém foram encerrados no “Shabat”. Em 1976, um governo dirigido por Yitzhak Rabin (assassinado em 2005 por um colono extremista judeu) caiu quando os seus parceiros de coligação ultra-ortodoxos o abandonaram em protesto contra a entrega de quatro caças F-15 americanos no dia de descanso judeu, que começa ao pôr-do-sol de sexta-feira e termina ao pôr-do-sol de sábado.

... e carro exclusivamente feminino no Irão

Entretanto, no Irão – onde a tradição xiita tem algumas semelhanças com o fundamentalismo dos “haredim” (as mulheres ultra-ortodoxas rapam a cabeça e usam perucas tapadas com lenços, porque também consideram que “o cabelo é pecaminoso”) –, foi anunciado que o principal construtor nacional de automóveis vai produzir um veículo exclusivamente feminino.

O novo carro terá caixa automática de velocidades, sistema electrónico de apoio ao estacionamento, aparelho de GPS, macaco de socorro para ser mais fácil mudar rodas e alarmes indicadores de pneus vazios. Os bancos traseiros terão ainda um sistema audiovisual para entreter as crianças.

Muitos veículos de luxo já hoje oferecem estes “extras”, mas a viatura da Iran Khodro – que será lançada em Junho para coincidir com o “dia iraniano da mulher” – irá distinguir-se pelos “interiores de materiais coloridos e confeccionados segundo o gosto das condutoras”.

Inicialmente, este carro será apenas vendido no Irão, mas poderá ser exportado também para a Síria e Venezuela, informam os jornais “The Guardian” e “Jerusalem Post”. Aumenta assim a segregação num país onde está, igualmente, em discussão um modelo de bicicleta que esconda as pernas e a parte de cima do corpo da mulher. No Irão, embora as mulheres possam conduzir carros (o que não acontece na Arábia Saudita), só têm licença para circular em motorizadas como passageiras. Nos autocarros, há uma divisória que as separa dos homens. E, recentemente, foi criado um serviço de táxis só para elas.

http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1345220&idCanal=11

jleandro
07-10-2008, 23:26
se não fosse um assunto sério e se não soubesse que é mesmo verdade, julgaria que era uma anedota de mau gosto.

em pleno século XXI, depois do homem se ter habituado a sonhar com o espaço e outras galáxias, estes procedimentos são coisas do tempo das cavernas.

que Mundo estranho este

jleandro
08-10-2008, 17:58
este Muhammad Sven Kalisch já deve ter os fundamentalistas atrás.
não dou nada pela vida dele.


Pela primeira vez, um investigador muçulmano afirma duvidar que o profeta do islão tivesse sido uma figura histórica. A controvérsia acendeu-se na Alemanha, onde Muhammad Sven Kalisch, da Universidade de Munique, conseguira (mas perdeu) uma inédita cátedra para ensinar professores
da sua religião. Por Margarida Santos Lopes

Muhammad Sven Kalisch está consciente de que enveredou por um caminho perigoso quando diz: "Como figura histórica, Maomé talvez não tenha existido." Reconhece que "é revolucionário ser o primeiro muçulmano" a adoptar esta tese e não esconde o desassossego de poder tornar-se num Salman Rushdie alemão: "Há o risco de alguns fundamentalistas acharem que, segundo a Sharia [lei islâmica], têm de me matar."


Não foram apenas os "fundamentalistas" que se irritaram, mas também alguns académicos e investigadores, porque Kalisch, como director do Centro de Estudos Religiosos da Universidade de Munique, tinha sido este ano escolhido para um projecto sem precedentes na Alemanha: uma cátedra de Teologia para treinar professores de islão.
A iniciativa estava a ser acolhida com grande entusiasmo, já que, ao contrário das congregações judaicas e cristãs (com estatuto corporativo que lhes confere privilégios), a comunidade muçulmana no país não pode oferecer às suas 800 mil crianças instrução religiosa nos estabelecimentos de ensino estatais. Algumas, como se lê no site da Deutsche Welle, são levadas para obscuras madrassas (escolas corânicas) onde imãs e currículos não são controlados pelas autoridades, e onde estão mais expostas à influência de fanáticos. Foi com choque que os alemães tomaram conhecimento da furtiva "célula de Hamburgo" - a cidade onde Kalisch nasceu em 1966 - envolvida nos ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 nos Estados Unidos.
Assim que questionou publicamente a existência de Maomé, Kalisch perdeu a confiança do Conselho Coordenador dos Muçulmanos na Alemanha (KRM), que integra as quatro maiores organizações da comunidade, e deixou de ser responsável pelo inédito projecto. Continua, porém, a leccionar na Universidade de Munique e, apesar da controvérsia, não vai renegar as suas convicções. Porque, se recebeu críticas, também foi apoiado por dezenas de estudantes e colegas (um deles Tilman Nagel, biógrafo de Maomé). No próximo ano, vai publicar um livro.
"A essência do conflito é que as organizações islâmicas na Alemanha não aceitam o método da crítica histórica para analisar os textos sagrados", justifica Kalisch ao P2, por telefone. "Eu sou um cientista moderno e, obviamente, aplico esse método."
O cristão protestante Sven, que adoptou o nome próprio de Muhammad quando se converteu em muçulmano aos 15 anos, explica como a polémica se desenrolou: "Sempre fui crítico quanto à fiabilidade das fontes islâmicas e estou cada vez mais convencido de que o relato tradicionalista dos primórdios do islão não é História, mas uma construção ficcional. Eu já não tenho a certeza de que Maomé existiu. Talvez tenha existido. Mas, se existiu, não tenho a certeza de quem realmente foi ele, o que fez e o que disse. A melhor atitude neste caso é recuar aos que estudaram Maomé e sempre usaram o profeta como uma pessoa na qual projectaram as suas ideias teológicas."
E Maomé, salienta Kalisch, é apresentado de duas formas: "Os modernistas dizem que defendia a democracia e os direitos das mulheres; os fundamentalistas dizem que ordenou combater os infiéis e transformar o mundo num Estado islâmico. São dois retratos de um mesmo homem e resultam de uma vasta tradição religiosa. Temos de concordar que, para nós, muçulmanos, Maomé sempre foi a pessoa ideal. E a pessoa ideal foi a que construímos na nossa mente e depois projectámos para Maomé. Como figura histórica, temos de aceitar que Maomé talvez não tenha existido."
Desafio para o islão
"Não nego", adianta o professor de Munique, "que a minha tese é problemática para os tradicionalistas islâmicos. Sem margem para dúvida. Mas será que não devo ter liberdade para divulgar as minhas conclusões? Eu não posso dizer o contrário dos resultados a que cheguei como cientista. É claro que estes resultados constituem um grande desafio para o islão. O cristianismo e o judaísmo, depois de aplicarem o método de crítica histórica, fruto do Iluminismo da tradição europeia, nunca mais foram o que eram antes. O mesmo acontecerá com o islão."
Mas é possível duvidar dos fundamentos de uma religião que diz que Maomé é o seu profeta e ao mesmo tempo continuar crente? "Claro que sim", vinca Kalisch. "O problema está em definir o termo religião. Se a religião for vista como a vêem os tradicionalistas, como uma construção dogmática imutável, então não pode haver essa interacção. Mas eu deixei de ser um muçulmano tradicionalista. Ainda acredito em Deus e que há vida depois da morte. Sou uma pessoa religiosa, mas, para mim, a religião é uma tradição espiritual que tem de estar sob controlo da nossa razão. Temos de a examinar sempre de forma crítica, de acordo com o nosso conhecimento, aceitando que as tradições podem mudar. Numa posição tradicionalista não é possível combinar ciência e teologia."
Kalisch vai ainda mais longe: "Se permanecermos tradicionalistas, a teologia torna-se apologética, e tudo o que não encaixar nesta apologia tem de ser rejeitado. Se acharmos que tudo aquilo em que acreditamos é a verdade, se recusarmos qualquer investigação, deixamos de precisar da ciência. Eu sou um cientista! Quero uma teologia organizada de forma moderna, e isso não é compatível com o que existia antes."
Um xiita zaidita moderno
Foi há "cinco ou seis anos", depois de estudar o Antigo e o Novo Testamento, que Kalisch tomou a decisão que agora lhe pode custar a vida: "Reexaminar a minha própria tradição religiosa, aplicando o método da crítica histórica ao Corão e à emergência do islão. Foi um longo processo metodológico e sociológico. Não é um trabalho feito de um dia para o outro."
"O meu campo de especialização tem a ver com os primórdios do xiismo, é o meu background histórico", especifica Kalisch. Por um lado, é natural, sendo ele um zaidita. Por outro, é espantoso que um cientista moderno pertença à autoproclamada "quinta escola" de pensamento do islão (a ortodoxia só reconhece quatro), fundada por Zayd ibn 'Abidin e considerada a seita xiita mais conservadora e próxima dos sunitas.
Embora os imãs zaiditas sejam escolhidos com base na sua perícia militar, o discípulo Kalisch escolhe como figuras de referência Ibn Sina (Avicena), médico e filósofo iraniano, cuja obra foi muito influenciada por Aristóteles e Platão, ou Ibn al-'Arabi, filósofo árabe nascido em Múrcia (Espanha), com notável influência sobre o sufismo ou misticismo islâmico. "Eles encaminharam o homem para uma viagem espiritual até Deus", realça. "É esta essência que dá ao islão a sua dimensão e lhe imprime as qualidades necessárias ao nosso tempo moderno."
Kalisch sabe que o terreno que desbrava está minado, mas sente-se confiante para continuar a sua investigação. "Muitos até poderão não estar de acordo com as minhas conclusões, mas admitem que um islão moderno não poderá fugir aos desafios. As posições conservadoras das instituições muçulmanas alemãs terão consequências negativas para a comunidade islâmica e para a sociedade em geral."
Por enquanto, o professor de Munique tenta gerir "um clima que tem de ser levado a sério" desde que questionou a historicidade do mensageiro de Alá. "Ainda não recebi ameaças directas, mas estou em ligação directa com a polícia, que me vigia de perto. Alguns fóruns descrevem-me como um apóstata que merece a morte. Há muçulmanos que já nem sequer me identificam pelo nome próprio [que é também o do profeta]: Muhammad."

in "Público"

Massarico
10-10-2008, 13:01
Eu já cá tinha vindo ver isto, mas só agora é que tive tempo para responder.

Se o Xeque Muhamad ganha a medalha de ouro da estupidez, Margarida Santos Lopes leva a de prata. Por pouco.

Em primeiro lugar, nada se alterou na Arábia Saudita, porque o que se passou foi que um clérigo popular disse umas cretinices na TV. É como criticar o Sócrates por o Frei Bento Domingues dizer um qualquer disparate. Aliás, se o Xeque é popular provavelmente é porque diz muitas cretinices na TV, pelo que nem sequer se percebe a relevância jornalística desta notícia.

Mas isto não é o cúmulo da estupidez, não. A coisa tem requintes mais elaborados e só na segunda parte é que se começa a perceber a verdadeira notícia. Esta imbecil, e repito, I-M-B-E-C-I-L, faz equivaler uma milícias ilegais de fanáticos judeus, que praticam crimes (crimes no seu sentido jurídico de acordo com o sistema jurídico israelita) a organizações estatais ou para estatais que existem em países muçulmanos destinadas a oprimir direitos e liberdades fundamentais de qualquer pessoa. É o mesmo que fazer equivaler o gangue do multibanco à PSP.

Mas enfim, quando se fazem equivalências morais entre democracias de tipo ocidental, como Israel (sabiam que o parlamento israelita tem deputados muçulmanos? e que há partidos muçulmanos em Israel?) com sitíos pouco recomendáveis como a Arábia Saudita, podemos esperar o quê? E isto tudo se passa alegremente no Público.