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View Full Version : Sera que se justifica?


Helena
29-12-2006, 20:45
dentro de poucas horas Sadam Hussein sera executado....uma morte a mais no Iraque fara alguma diferenca?

jleandro
29-12-2006, 20:57
olá Helena

acabei de ler um artigo onde dizem que o enforcamento não poderá ser antes de 25 de Janeiro....mas isso não é de facto o mais importante.

tu dizes: uma morte a mais no Iraque fara alguma diferenca?

eu pergunto: mais uma morte fará alguma diferença? especialmente sendo a de quem é responsável por muitas, muitas mortes ?

Helena
30-12-2006, 02:43
"Some Arab media reported about an hour before daylight Saturday that the former Iraqi president had been executed "

Óscar
03-01-2007, 17:25
O fantasma de Saddam

Vicente Jorge Silva
Jornalista

Não há testemunho mais eloquente contra a pena de morte do que as imagens de uma execução, seja qual for o seu género. Mas o enforcamento de Saddam teve requintes de sordidez que deveriam fazer pensar não apenas aqueles que insistem em defender a lei de talião como um instrumento legítimo do Estado de direito, mas sobretudo os que ainda pretendem que o déspota de Bagdad foi julgado e executado segundo as regras da legalidade democrática trazida para o Iraque pelas tropas invasoras. Que distingue, no fundo, os invisíveis assassínios políticos no tempo de Saddam destas imagens de visão precária num ambiente lúgubre, captadas à socapa em estilo de reportagem "clandestina"? Que diferencia, afinal, a face da barbárie destas máscaras da civilização e da democracia?

"Deveriam fazer pensar", escrevia eu. Só que, precisamente, nada será mais estranho aos adeptos da pena capital e aos cruzados inflexíveis da invasão do Iraque do que o mero exercício da racionalidade. Há nuns e noutros - são aliás, muitas vezes, os mesmos - a pior de todas as cegueiras que é a comum recusa de ver e de pensar. Começam por negar a evidência das imagens e abdicam logo de reflectir sobre o seu significado, sempre que isso possa ferir certezas intocáveis. Admitir uma dúvida, uma perturbação, por ínfimas que fossem, seria um princípio de exposição à vulnerabilidade e ao risco de perder a face. O cinismo ideológico e a cobardia moral andam sempre de mãos dadas com o medo da verdade.

Há cerca de quinze anos, uma longa reportagem, também em estilo "clandestino", sobre o pseudojulgamento e a execução sumária do ditador romeno Ceausescu e da sua mulher Elena, foi exibida em Lisboa numa sessão promovida pela TSF. Ceausescu era, tal como Saddam, uma personagem particularmente execrável, um tirano patético e impiedoso. Mas, perante a farsa judicial montada pelos que o mandaram executar, acabava por justificar a sobranceria e o desprezo com que os tratava. Nem ele nem a mulher imploraram perdão ou misericórdia e foram abatidos como cães no pátio de uma escola onde se reunira o "tribunal", no qual pontificavam alguns antigos colaboradores do regime comunista e que, manifestamente, queriam desembaraçar-se a toda a pressa do chefe caído em desgraça.

No debate que se seguiu à projecção da reportagem, choquei alguns presentes quando disse que, perante aquela farsa repugnante de justiça expeditiva, era grande a tentação para simpatizar com a atitude final do ditador. Perguntei se não era verdade que muitos romenos tinham apoiado e até colaborado activamente com o regime de Ceausescu mas agora o responsabilizavam por todos os males, o que provocou novos protestos inflamados. Por fim, interpelei o então embaixador da Roménia em Lisboa - que se juntara ao coro das indignações - para saber se ele não exercia já as mesmas funções no tempo de Ceausescu. Respondeu-me com candura que sim, mas que, como diplomata, não tinha de ter opiniões políticas. Passou a tê-las, no entanto, assim que Ceausescu foi liquidado, e sem experimentar nenhum constrangimento moral com as imagens terríveis que acabávamos de ver.

É certo que o julgamento de Saddam foi rodeado de algumas aparências de legalidade que não existiram no tribunal improvisado para abater Ceausescu e a mulher. Mas para além dos assassínios de advogados de defesa de Saddam, quem pode honestamente, sem pingo de vergonha, pretender que essa encenação de pacotilha foi digna de um Estado de direito? Pelos vistos, muita gente, incluindo Bush, Blair (a ambivalência oficial britânica é, aliás, nauseabunda: contra a pena de morte, mas respeitando a "soberania" iraquiana...) e várias hordas de fanáticos que pairam sobre a tragédia do Iraque como aves de rapina, desde os cruzados neocons da ordem democrática americana até aos fundamentalistas iranianos.

Face à extensão dos desastres da guerra, os novos senhores de Bagdad já estendem a mão aos antigos colaboradores de Saddam para reconstruir o Estado, um processo idêntico ao que levou alguns aliados de Ceausescu a tornarem-se figuras de proa da Roménia democrática. É o caso do ex-presidente Iliescu e outras personagens menos notórias, que persistem em apagar todos os vestígios compro- metedores do seu passado dos arquivos da polícia política comunista. Eliminar Ceausescu, eliminar Saddam - para apagar resíduos incómodos e reescrever a História.

Mas o fantasma de Saddam ameaça tornar-se um símbolo mais incómodo com ele morto do que vivo. O boneco do ditador enforcado numa rua de Bagdad no dia da execução evoca o derrube da sua estátua quando as tropas americanas entraram, quase sem resistência, na capital iraquiana. Sabe-se o que se passou de então para cá - e como a miragem dessa entrada triunfal se desfez em pó.

http://dn.sapo.pt/2007/01/03/opiniao/o_fantasma_saddam.html

Helena
04-01-2007, 13:29
voltas que se lhe de o mundo esta cheio de "saddams" uns com menos mortes as costas outros com mais. O facto de ele ter morrido da-nos uma certa satisfacao misturada com outros sentimentos...e ai vem o tal longo debate da pena capital...

se ele em vida deu debate, na morte ainda vai dar mais. No seu pais e tido (por uma faccao) como um grande martir, por outra, dancam nas ruas com a sua morte....

entretanto pelo mundo fora as barbaridades continuam e continuarao...uns escaparao impunes, outros serao mortos....e o mundo em que vivemos..

e isto de tentar implantar democracia onde "ela" nunca existiu nao e facil.....e mais vos digo....... democracia e algo que se adquire dentro de certos preambulos e uma coisa boa nunca pode ser dada aos montes.....simplesmente nao funciona:(