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View Full Version : Dar músíca...


Óscar
20-03-2006, 13:10
A 'golden hour' do Presidente Bush

henrique@cayatte.pt
Designer
Henrique Cayate

Em 12 de Setembro de 1959, no Town Hall em Nova Iorque, Nina Simone dava um concerto memorável e gravava ao vivo o álbum The Golden Hour. A imprensa falou de um enorme sucesso. Na sua autobiografia, a cantora escreveu que parecia um filme. Não era.

Dez anos depois, em plena guerra do Vietname, a Marinha dos EUA criou uma escola de elite para os melhores pilotos de caça, para apenas 1% dos melhores. Exclusiva. Esses pilotos passaram a chamar-se Top Gun. Disto fez-se um filme, este verdadeiro, com Tom Cruise. Foi inspirados nesse filme que os assessores de George Bush - filho - o levaram a aterrar a bordo de um caça na pista do porta-aviões USS Abraham Lincoln, ao largo de San Diego, no princípio de Maio de 2003.

Vestido de Tom Cruise, quando este se veste de piloto de caça, Bush abraçou-se aos verdadeiros pilotos, escolhidos especialmente para a recepção ao Presidente. O mesmo equipamento para reforçar a ideia de pertença ao restrito universo Top Gun, um casting atento para que nenhum grupo racial fosse esquecido nas imagens a produzir e a obrigatoriedade de que nenhum dos intervenientes fosse mais alto que o protagonista. Fez-se filmar e fotografar, sorridente, e entrou nos seus aposentos para mudar de roupa. Vestiu um fato escuro, camisa branca e gravata vermelha. O clássico. E esperou.

Esperou que lhe viessem dizer que tinha chegado o momento de voltar a descer à pista, dirigir-se a um palco aí instalado e iniciar o discurso em que anunciava o fim - pensava ele - das hostilidades no Iraque. O fim da operação "Choque e Espanto". Atrás dele, numa enorme tela, podia ler-se: "Missão cumprida!" Nem tanto. Passados mais de seis meses sobre esta operação de marketing político planetário, os actos de guerrilha sunita contra a coligação intensificaram-se. Já morreram mais soldados americanos após este discurso do que no decurso do conflito.

Esta encenação terá sido uma das mais caras na história da comunicação. Um milhão de dólares para deslocar um porta- -aviões - com o nome de um dos fundadores da nação americana - mais tripulação e comunicação social. Vinte horas para percorrer uma distância que demorava, afinal, apenas uma a percorrer. Tudo para que o cenário encaixasse no guião e no tempo. Tudo a uns ridículos 50 quilómetros da costa. Muito, muito longe do Iraque. Tudo por causa da golden hour.

Para os médicos americanos, golden hour são os primeiros 60 minutos de cuidados intensivos prestados a um paciente desde o acidente até à intervenção cirúrgica. É um período de estabilização, uma hora decisiva. Muitos pacientes morrem desse choque. Mas golden hour é também o que os fotógrafos chamam à hora imediatamente antes do pôr do Sol. O baixo ângulo dos últimos raios que iluminam a paisagem, pintam de dourado pessoas e objectos. Dá-lhes um ar irreal, "iluminado" e "heróico".

Era isto que os peritos de imagem do Presidente tinham na ideia. Um efeito "dramático", como referiu o correspondente da CNN Wolf Blitzer. Uma equipa passou dias a levar à cena este argumento. O correspondente do New York Times falou de uma equipa de especialistas para criar cenário, coreografia, adereços e texto pensados para que a eficácia fosse máxima num espaço de tempo que não excedesse essa hora mágica.

Com um fundo constituído por um público militar dócil, de todos os ramos das forças armadas, mais uma vez de cores diferentes e, sobretudo, que não fizessem perguntas, o que nunca aconteceria se esta declaração tivesse sido lida perante jornalistas. Depois foi só lá colocar o actor previamente ensaiado.

À mesma hora, em Indianápolis, sete mil pessoas assistiam pela televisão ao discurso. A ideia era filmar a assistência local para depois editar e emitir mais tarde: o discurso no porta-aviões seria fundido com as imagens de uma audiência exultante.

Apesar dos cuidados postos na preparação de uma assistência que se pretendia variada, e cuidadosamente escolhida, os especialistas não ficaram satisfeitos depois de verem o resultado. Deram então indicações para que se trabalhasse na pós-produção das imagens. Gravatas foram digitalmente tiradas e, face ao défice de elementos de raça negra no enquadramento mais fechado, alterou-se, também digitalmente, a cor da pele de uma senhora que estava ao lado do marido. Este, depois de ter visto as imagens editadas, comentou que não queria acreditar no que via, e com humor comentou: "Ela é a minha mulher e, a última vez que tinha olhado para ela, era branca!" É que o digital mente.

Isto passou-se no Indiana State Fairgrounds Coliseum. Porque a guerra e a guerra da informação são um imenso espectáculo, é essencial uma produção rigorosa e grandes meios, figurantes e cuidadas encenações, especialmente quando o actor é fraco. Tenta-se criar a "legitimidade" de que a guerra precisa, tenta-se reorganizar uma ordem social que foi perturbada. Percebe-se assim que o anúncio do fim de um conflito seja tão cuidadosamente preparado. Antes de mais para a televisão.

Para Elisabeth Bumiller, jornalista e escritora, "para se ser um político de sucesso na América de hoje é necessário ser-se bom em televisão. Sabemos isto há décadas". Não é isto que, por cá, se chama "dar música"?

* Cortesia da revista 'Egoísta', onde este texto foi publicado em Dezembro de 2003

http://dn.sapo.pt/2006/03/20/internacional/a_golden_hour_presidente_bush.html