View Full Version : Sustento, sabedoria e saúde...
Karl Marx
13-02-2006, 11:34
Se fosse vivo, fazia hoje 100 anos o homem que um dia se recusou a receber salários para não ser obrigado a pagar impostos... Um dia ainda hei-de pesquisar bem esse episódio.
O homem que sustentava a vida de uma pessoa em 3 ésses: na busca do sustento, da sabedoria e da saúde.
Agostinho da Silva. Tanta coisa que foi e fez, com excelência. Como, por exemplo, fundar 4 universidades no Brasil, já que cá só o queriam amordaçado e ele não era homem para mordaças.
Podem passar para a esplanada, mas, por favor, acrescentem algo. Vale a pena aprendermos mais um pouco.
Karl Marx
13-02-2006, 15:10
Conheço bem o autor, Manuel Jorge Lobão. Fomos colegas nos épicos tempos em que fui professor.
Encontrei aqui: http://graciosa.blogs.sapo.pt/
BREVÍSSIMA VISITA A AGOSTINHO DA SILVA
Caro leitor, o nome de Agostinho da Silva diz-vos alguma coisa?
Se sim, parai já com a leitura deste texto pois nada de novo aprendereis.
Se ao invés, para vós, não passa de um simples nome, estais no texto certo já que este apenas deseja dar a conhecer a quem desconhece uma das mais fascinantes personalidades do século XX português.
Agostinho da Silva foi professor, filósofo, ensaísta, novelista, poeta, orador, investigador, tradutor.
Mais importante do que dar a conhecer os dados biográficos de Agostinho da Silva, mais importante do que saber, por exemplo, que Agostinho da Silva, de seu nome completo George Agostinho Batista da Silva, nasceu no Porto a 13 de Fevereiro de 1906 ( faria pois 100 anos se vivo fosse na próxima segunda-feira ) e morreu a 3 de Abril de 1994 em Lisboa será talvez tentarmos ir fornecendo alguns nacos esparsos do seu pensamento na tentativa de despertarmos em alguém o interesse de desvendar a larguíssima obra de Agostinho.
Grande orador, afirmando ele próprio gostar mais de falar do que escrever, dele existem registadas muitas entrevistas. É de uma série de entrevistas que fazem parte de um livro publicado pelo Instituto de Cultura e Língua Portuguesa com o título de “Dispersos” que tirei as considerações dele que a seguir transcrevo.
O pensamento original de Agostinho da Silva poderá vislumbrar-se quando, em relação a Platão, a dada altura afirma: “Valiosa também, para mim, que sou contra a pedagogia, é a noção, platónica ou não, de que o que importa não é educar mas evitar que os homens se deseduquem. Cada pessoa que nasce deve ser orientada para não desanimar com o mundo que encontra à volta. Porque cada um de nós é um ente extraordinário, com lugar no céu das ideias; se nos soubermos lavar da lama que se nos pegou quando aparecemos na terra, seremos capazes de nos desenvolver, de reencontrar o que em nós é extraordinário, e transformaremos o mundo.”
Agostinho da Silva antes de ir para o Brasil onde viveu vinte e cinco anos e onde fundou quatro universidades, foi, em Portugal, demitido do ensino oficial, quando era professor em Aveiro depois de regressar de Madrid para onde tinha partido após a extinção por Salazar da Faculdade de Letras do Porto onde se tinha iniciado na docência, porque se recusou a assinar uma declaração “jurando não ter pertencido ou vir a pertencer a qualquer associação secreta”.
Quando nas já referidas entrevistas, Agostinho disserta sobre a sua concepção de cultura, afirma a dada altura: “É esta a minha noção de cultura: tornar melhor a vida das pessoas. (...) Uma das desgraças de Portugal é que foi sempre governado pelo vedor da Fazenda, quando este deveria ser o simples caixa de uma empresa a dirigir pelo Ministério da Cultura”.
O não alinhamento do pensamento de Agostinho da Silva está bem patente na resposta que dá à pergunta: “Foi alguma vez marxista?”
- “Nunca, tive a sorte de não ser ista nenhum. Onde podia ir por mim ia... O importante não é ser marxista mas ser Marx. E pensar o que Marx diria hoje, não quando viveu. De resto isto serve também para Cristo. Não sei se serão tão antagónicos como se pretende... De facto nunca me interessei pela política, interesso-me, sim, pelo pensamento político.”
Uma das vertentes mais interessantes do pensamento de Agostinho da Silva prende-se com as suas teorias sobre o Império do Espírito Santo.
“É o império do espírito, da imaginação, da liberdade. Implica que o mundo seja governado pela criança. Um mundo sem prisões e onde não falte a comida a ninguém. Confesso que gostaria de ver o embaraço dos revolucionários de vários matizes, perante uma possibilidade destas. Como gostaria de ver os conservadores estarem contra. Então, se estão contra a criança, que o digam claramente. O Império do Espírito Santo, de tradiçlão popular, foi no país batido e perseguido pela contra-reforma. Refugiou-se nos Açores, onde o transformaram em folclore, e também no Brasil, onde se implantou de norte a sul.”
Quando lhe perguntam se acredita em Deus, responde:
“Eu não acredito. Constato que se chega a determinado ponto e se encontra alguma coisa que resiste. Repare: se eu digo, é uma matemática, tem de ter um matemático, eu já estou limitando Deus, porque se eu tenho de pensar Deus como o total, eu tenho de o pensar como o total de tudo, de ser e de não ser. Na terra há uma representação muito simples desse conceito, que é o ponto. (...) As primeiras coisas que os homens da geometria explicam é o ponto. E definem o ponto como aquilo que não tem dimensões, e depois tiram toda a geometria do ponto, quando a geometria é a dimensão em todas as dimensões. Se o ponto não tem dimensões, como é que eu vou tirar do ponto uma ciência das dimensões? Então Deus poderia ser o ponto.”
E aqui termino com a alegria de poder prestar esta modestíssima homenagem a alguém por quem nutro uma muito especial admiração, alguém que afirmou “eu só tenho fé na dúvida”.
Mais contente ficaria se amanhã alguém me viesse dizer que este humilde texto lhe tinha aberto o caminho ao conhecimento do pensamento de Agostinho da Silva e que isso de algum modo o havia “ajudado a ser ele próprio”.
Karl Marx
13-02-2006, 15:24
Lisboa, 13 Fev (Lusa) - As comemorações do centenário do nascimento de Agostinho da Silva, pensador que continua controverso e enigmático, arrancam hoj e no Centro Cultural de Belém com o patrocínio da Ministra da Cultura, Isabel Pi res de Lima.
As celebrações incluem colóquios, exposições, publicação de livros a ed ição de um selo comemorativo, a abertura da cátedra "Agostinho da Silva" na Univ ersidade de Brasília e o baptismo de um avião da TAP com o seu nome.
As iniciativas resultam de uma parceria dos governos de Portugal e do B rasil (onde o escritor esteve exilado) e a Associação Agostinho da Silva e inclu em a projecção do documentário "Agostinho da Silva:um Pensamento Vivo" e a inaug uração da mostra "Agostinho da Silva:Pensamento e Acção" em cidades portuguesas e estrangeiras.
A efeméride revela que o pensador e pedagogo continua uma figura contro versa e enigmática, mesmo para os que com ele privaram.
Reconhecendo que a sua personalidade sempre o intrigou, o ensaísta Edua rdo Lourenço afirmou que "não era parecido com ninguém, excepto com ele próprio" e lamentou que a sua obra ainda esteja "pouco estudada".
Por seu lado, o escritor Fernando Dacosta afirmou à Lusa que se vive "u m tempo anti-Agostinho da Silva", pois "a sua filosofia e utopia" não têm eco ju nto dos governantes, apesar de Agostinho ter sido uma figura de "grande lucidez" .
Quanto a Nuno Nabais, professor de Filosofia em Lisboa, assegurou que " não existe um `pensamento Agostinho da Silva'" e disse acreditar que o pensador "estaria a rir-se, ao ver-se objecto de comemorações oficiais".
O escritor Baptista-Bastos, por seu lado, declarou à Lusa que Agostinho da Silva - "um grande museu clássico com um perfume de modernidade" - represent a "uma grande dose de utopia, de quimera e de esperança nas infinitas possibilid ades do Homem".
O filósofo e pedagogo Agostinho da Silva nasceu no Porto a 13 de Fevere iro de 1906, esteve preso no Aljube devido a polémicas com o Estado Novo e a Igr eja e optou por se exilar no Brasil, onde co-fundou as universidades federais de Paraíba e Santa Catarina e a Universidade de Brasília.
Quando morreu, em Lisboa, a 03 de Abril de 1994, Agostinho da Silva dei xou uma obra vastíssima que inclui textos pedagógicos, ensaios filosóficos, nove las, artigos, poemas, estudos sobre História e cultura e as suas reflexões sobre a religião.
HSF.
Lusa/Fim
jleandro
13-02-2006, 22:38
um dos homens de quem mais me lembro sempre que as situações são mais complicadas
porque ele tinha uma maneira simples de explicar o que a nós parecia muito complicado.
e tenho saudades de o ouvir a espantar, de fazer abrir bem os olhos e ouvidos, a quem teve a sorte de o escutar.
destes já não há muitos.....
será que há algum???
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