Houdini
07-12-2005, 07:41
Luiz Felipe Scolari
"Se mudasse antes da Grécia nem ia para o segundo jogo"
Abala a nossa confiança no proverbial acolhimento português ao garantir que se sente descriminado por ser brasileiro e vítima de comentários preconceituosos e ofensivos que passam por cima do bom trabalho, como se ser estrangeiro fosse óbice à competência. A duas vitórias de igualar o recorde ganhador de António Oliveira à frente da Selecção, Scolari explica, pela primeira vez, porque mudou Portugal tão radicalmente após a derrota na partida inaugural do Euro'2004 e diz claramente que corria o risco de não chegar ao segundo jogo se tivesse mudado antes, como muitos exigiam.
LEONOR MOREIRA, no Rio de Janeiro
Mais duas vitórias farão Luiz Felipe Scolari igualar o recorde vitorioso de António Oliveira à frente da Selecção, e se essas vitórias vierem seguidas (incluindo o jogo amigável que se disputará em Março) o técnico pode chegar aos números de melhor série invicta alcançados por Humberto Coelho, com 13 partidas sem perder. No Rio de Janeiro para acompanhar durante dois dias o congresso impulsionado pelo seu homólogo e sucessor no "escrete", Carlos Alberto Parreira, Felipão riu quando O JOGO o tratou por "senhor Scolari", mostrou como as coisas mudam de Portugal para o Brasil - onde continua a ser Felipão - e ficou com o mote para confessar uma mágoa grande: na pátria dos brandos costumes, na língua dos "criadores" da mulata, ele sente-se descriminado e tratado como um estrangeiro. "Não pelo povo", mas por sectores da opinião pública, "cineastas, arquitectos", que exerceram e continuam a exercer pressão. Mais longe ainda, conta, pela primeira vez, que esperou pelo primeiro jogo do Euro'2004 para operar as mudanças que sabia serem cruciais para atingir os objectivos há muito traçados. "Se eu tivesse mudado antes dessa derrota, e ela tivesse acontecido como aconteceu, nem teria ido para o segundo jogo!".
Depois de repetir ser necessário fazer melhor do que já foi feito, ficar no mínimo entre os primeiros oito e tentar chegar à final, Scolari Felipão (ou vice sem versa) diz ainda que não prescinde de mergulhar os jogadores na energia do povo português. "É ela que nos vai ajudar a superar dificuldades".
O JOGO| Os dados objectivos do seu trabalho à frente da Selecção Nacional são muito, muito positivos. Os números surpreendem-no?
LUIZ FELIPE SCOLARI| Não esperava estes números, mas também não me surpreende que sejam muito bons. Não os projectei nem antecipei dificuldades. Apenas fui fazendo o meu trabalho como sei: com objectivos definidos e trabalhando para isso, organizando com a comissão técnica todo o trabalho que tornasse possível aos jogadores me darem esse retorno.
P| O que podemos esperar da Selecção no Mundial em termos tácticos, de desenvolvimento de jogo?
R| O que os portugueses podem esperar da Selecção na Alemanha é o que estão vendo nestes últimos três anos. Depois dos amistosos, até ao Euro, fomos definindo um padrão, os atletas que o interpretam e os resultados foram os obtidos. Com essa forma de trabalhar, depois de 10 ou 11 jogos no primeiro ano, implantámos uma forma de trabalhar, pensar e agir, e é ela que levaremos à Alemanha.
P| A sensação que ficou, porém, é que o padrão surgiu por acaso....
R| Algumas pessoas não entendem que o técnico tem que fazer primeiro um trabalho que é prolongado no tempo, para depois poder tomar decisões e até promover mudanças mas já com maior conhecimento de tudo, até da envolvente cultural.
P| Essas questões do conhecimento estão então já ultrapassadas. Conhece bem o meio em que se mexe?
R| Já resolvi essas questões. Até ao início do Euro foi uma coisa e depois do Euro foi outra. Esperei o tempo que achava que era o certo para fazer as mudanças que achei que eram as necessárias, correctas. E porquê? Porque sou um estrangeiro em Portugal. Se eu tivesse avançado com algumas mudanças antes do Euro, a Imprensa teria me derrubado.
P| Não foi um pouco excessivo, esperar até ao Europeu?
R| Quando eu fui para a competição usei os meus critérios e mudei o que tinha de mudar de acordo com os objectivos que tinham sido traçados. Porque os resultados iam dizer se o objectivo iria ser atingido ou não. Não era a imprensa que ia escolher, ficaria claro que eram as minhas escolhas. Ainda que essas escolhas pudessem coincidir em ou 90 por cento, veja bem. Ainda hoje dizem que eu mudei por isso e por aquilo. Mas o que eles não sabem porque é a primeira vez que eu falo isso, é que eu dei tempo ao tempo para fazer aquilo que eu desde o início queria. Eu era estrangeiro e estaria interferindo com alguns ídolos. Primeiro eu tinha que ser aceite pelo meu trabalho, porque eu não era ídolo e era estrangeiro.
P| Está a dizer que precisava do momento crucial do Europeu para afastar jogadores que já não considerava úteis aos objectivos. De repente, assim, lembro que os "sacrificados" com nomes mais sonantes foram Rui Costa e Fernando Couto. Eram eles os ídolos a afastar?
R| O grupo tinha gente que deu muito ao futebol português mas que naturalmente teria que ir sendo substituída. Não vou falar de nomes, nunca! Sabe o que é engraçado? É que alguns ainda acham que escrevendo vão fazer com que o técnico mude as suas escolhas. Isso eu acho engraçado. Parece que eles entendem e o que o técnico não entende de nada. Eu ouço as opiniões de todos e tomo as minhas decisões. Quando acho necessário, no tempo que acho ser o correcto.
P| Precisou então de tanto tempo para chegar a essa conclusão?
R| Eu não conhecia o país, os costumes, a cultura, as competições.
P| Mas não acredito que antes de ir para Portugal ninguém lhe tenha traçado um quadro geral....
R| A imagem geral que tinha eram fitas de vídeo, tudo muito impessoal. Quando consegui ter uma base que me sustentasse, essa base era o Euro.
P| Então podemos dizer que a derrota no jogo inaugural, com a Grécia, foi uma coisa boa?
R| A derrota com a Grécia não foi boa, nem óptima, não é isso. Foi onde eu pude não contemporizar mais nada e fazer o que eu queria. Se eu tivesse feito as coisas antes dessa derrota, e ela tivesse acontecido como aconteceu, nem teria ido para o segundo jogo.
P| Despedido em pleno Europeu?
R| Ahhh... é que eu tenho "feelling", sei como também existem pressões, e que pressões, sobre o meu presidente. E não é só da Imprensa, é de presidentes de clubes, de todo o lado.
http://www.ojogo.pt/21-287/Artigo515470.htm
"Se mudasse antes da Grécia nem ia para o segundo jogo"
Abala a nossa confiança no proverbial acolhimento português ao garantir que se sente descriminado por ser brasileiro e vítima de comentários preconceituosos e ofensivos que passam por cima do bom trabalho, como se ser estrangeiro fosse óbice à competência. A duas vitórias de igualar o recorde ganhador de António Oliveira à frente da Selecção, Scolari explica, pela primeira vez, porque mudou Portugal tão radicalmente após a derrota na partida inaugural do Euro'2004 e diz claramente que corria o risco de não chegar ao segundo jogo se tivesse mudado antes, como muitos exigiam.
LEONOR MOREIRA, no Rio de Janeiro
Mais duas vitórias farão Luiz Felipe Scolari igualar o recorde vitorioso de António Oliveira à frente da Selecção, e se essas vitórias vierem seguidas (incluindo o jogo amigável que se disputará em Março) o técnico pode chegar aos números de melhor série invicta alcançados por Humberto Coelho, com 13 partidas sem perder. No Rio de Janeiro para acompanhar durante dois dias o congresso impulsionado pelo seu homólogo e sucessor no "escrete", Carlos Alberto Parreira, Felipão riu quando O JOGO o tratou por "senhor Scolari", mostrou como as coisas mudam de Portugal para o Brasil - onde continua a ser Felipão - e ficou com o mote para confessar uma mágoa grande: na pátria dos brandos costumes, na língua dos "criadores" da mulata, ele sente-se descriminado e tratado como um estrangeiro. "Não pelo povo", mas por sectores da opinião pública, "cineastas, arquitectos", que exerceram e continuam a exercer pressão. Mais longe ainda, conta, pela primeira vez, que esperou pelo primeiro jogo do Euro'2004 para operar as mudanças que sabia serem cruciais para atingir os objectivos há muito traçados. "Se eu tivesse mudado antes dessa derrota, e ela tivesse acontecido como aconteceu, nem teria ido para o segundo jogo!".
Depois de repetir ser necessário fazer melhor do que já foi feito, ficar no mínimo entre os primeiros oito e tentar chegar à final, Scolari Felipão (ou vice sem versa) diz ainda que não prescinde de mergulhar os jogadores na energia do povo português. "É ela que nos vai ajudar a superar dificuldades".
O JOGO| Os dados objectivos do seu trabalho à frente da Selecção Nacional são muito, muito positivos. Os números surpreendem-no?
LUIZ FELIPE SCOLARI| Não esperava estes números, mas também não me surpreende que sejam muito bons. Não os projectei nem antecipei dificuldades. Apenas fui fazendo o meu trabalho como sei: com objectivos definidos e trabalhando para isso, organizando com a comissão técnica todo o trabalho que tornasse possível aos jogadores me darem esse retorno.
P| O que podemos esperar da Selecção no Mundial em termos tácticos, de desenvolvimento de jogo?
R| O que os portugueses podem esperar da Selecção na Alemanha é o que estão vendo nestes últimos três anos. Depois dos amistosos, até ao Euro, fomos definindo um padrão, os atletas que o interpretam e os resultados foram os obtidos. Com essa forma de trabalhar, depois de 10 ou 11 jogos no primeiro ano, implantámos uma forma de trabalhar, pensar e agir, e é ela que levaremos à Alemanha.
P| A sensação que ficou, porém, é que o padrão surgiu por acaso....
R| Algumas pessoas não entendem que o técnico tem que fazer primeiro um trabalho que é prolongado no tempo, para depois poder tomar decisões e até promover mudanças mas já com maior conhecimento de tudo, até da envolvente cultural.
P| Essas questões do conhecimento estão então já ultrapassadas. Conhece bem o meio em que se mexe?
R| Já resolvi essas questões. Até ao início do Euro foi uma coisa e depois do Euro foi outra. Esperei o tempo que achava que era o certo para fazer as mudanças que achei que eram as necessárias, correctas. E porquê? Porque sou um estrangeiro em Portugal. Se eu tivesse avançado com algumas mudanças antes do Euro, a Imprensa teria me derrubado.
P| Não foi um pouco excessivo, esperar até ao Europeu?
R| Quando eu fui para a competição usei os meus critérios e mudei o que tinha de mudar de acordo com os objectivos que tinham sido traçados. Porque os resultados iam dizer se o objectivo iria ser atingido ou não. Não era a imprensa que ia escolher, ficaria claro que eram as minhas escolhas. Ainda que essas escolhas pudessem coincidir em ou 90 por cento, veja bem. Ainda hoje dizem que eu mudei por isso e por aquilo. Mas o que eles não sabem porque é a primeira vez que eu falo isso, é que eu dei tempo ao tempo para fazer aquilo que eu desde o início queria. Eu era estrangeiro e estaria interferindo com alguns ídolos. Primeiro eu tinha que ser aceite pelo meu trabalho, porque eu não era ídolo e era estrangeiro.
P| Está a dizer que precisava do momento crucial do Europeu para afastar jogadores que já não considerava úteis aos objectivos. De repente, assim, lembro que os "sacrificados" com nomes mais sonantes foram Rui Costa e Fernando Couto. Eram eles os ídolos a afastar?
R| O grupo tinha gente que deu muito ao futebol português mas que naturalmente teria que ir sendo substituída. Não vou falar de nomes, nunca! Sabe o que é engraçado? É que alguns ainda acham que escrevendo vão fazer com que o técnico mude as suas escolhas. Isso eu acho engraçado. Parece que eles entendem e o que o técnico não entende de nada. Eu ouço as opiniões de todos e tomo as minhas decisões. Quando acho necessário, no tempo que acho ser o correcto.
P| Precisou então de tanto tempo para chegar a essa conclusão?
R| Eu não conhecia o país, os costumes, a cultura, as competições.
P| Mas não acredito que antes de ir para Portugal ninguém lhe tenha traçado um quadro geral....
R| A imagem geral que tinha eram fitas de vídeo, tudo muito impessoal. Quando consegui ter uma base que me sustentasse, essa base era o Euro.
P| Então podemos dizer que a derrota no jogo inaugural, com a Grécia, foi uma coisa boa?
R| A derrota com a Grécia não foi boa, nem óptima, não é isso. Foi onde eu pude não contemporizar mais nada e fazer o que eu queria. Se eu tivesse feito as coisas antes dessa derrota, e ela tivesse acontecido como aconteceu, nem teria ido para o segundo jogo.
P| Despedido em pleno Europeu?
R| Ahhh... é que eu tenho "feelling", sei como também existem pressões, e que pressões, sobre o meu presidente. E não é só da Imprensa, é de presidentes de clubes, de todo o lado.
http://www.ojogo.pt/21-287/Artigo515470.htm