vifer
09-11-2005, 11:40
Para memória futura....
Parte de texto Abril 2000, assinado pelo advogado e jornalista António
Marinho
MARIO SOARES E ANGOLA
A polémica em torno das acusações das autoridades angolanas
segundo as quais Mário Soares e seu filho João Soares seriam dos
principais beneficiários do tráfico de diamantes e de marfim levados a
cabo pela UNITA de Jonas Savimbi, tem sido conduzida na base de
mistificações grosseiras sobre o comportamento daquelas figuras políticas
nos últimos anos.
Espanta desde logo a intervenção pública da generalidade das figuras
políticas do país, que vão desde o Presidente da República até ao deputado
do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, passando pelo PP de Paulo Portas e
Basílio Horta, pelo PSD de Durão Barroso e por toda a sorte de fazedores
de opinião, jornalistas (ligados ou não à Fundação Mário Soares),
pensadores profissionais, autarcas, «comendadores» e comentadores de
serviço, etc? Tudo como se Mário Soares fosse uma virgem perdida no meio
de um imenso bordel.
Sei que Mário Soares não é nenhuma virgem e que o país (apesar de tudo)
não é nenhum bordel. Sei também que não gosto mesmo nada de Mário Soares e
do filho João Soares, os quais se têm vindo a comportar politicamente como
uma espécie de versão portuguesa da antiga dupla haitiana « Papa Doc » e
«Baby Doc».
Vejamos então por que é que eu não gosto dele(s).
1. - A primeira ideia que se agiganta sobre Mário Soares é que é um homem
que não tem princípios mas sim fins. É-lhe atribuida a célebre frase : «
Em política, feio, feio, é perder ». São conhecidos também os seus
zigue-zagues políticos desde antes do 25 de Abril.
Tentou negociar com Marcelo Caetano uma legalização do seu (e seus amigos)
agrupamento político, num gesto que mais não significava do que uma imensa
traição a toda a oposição, mormente àquela que mais se empenhava na luta
contra o fascismo.
Já depois do 25 de Abril, assumiu-se como o homem dos americanos e da CIA
em Portugal e na própria Internacional Socialista. Dos mesmos americanos
que acabavam de conceber, financiar e executar o golpe contra Salvador
Allende no Chile e que colocara no poder Augusto Pinochet.
Mário Soares combateu o comunismo e os comunistas portugueses como
nenhuma outra pessoa o fizera durante a revolução e foi amigo de Nicolau
Ceaucescu, figura que chegou a apresentar como modelo a ser seguido pelos
comunistas portugueses.
Durante a revolução portuguesa andou a gritar nas ruas do país a palavra
de ordem «Partido Socialista, Partido Marxista », mas mal se apanhou no
poder meteu o socialismo na gaveta e nunca mais o tirou de lá. Os seus
governos notabilizaram-se por três coisas : políticas abertamente de
direita, a facilidade com que certos empresários ganhavam dinheiro e essa
inovação da austeridade soarista (versão bloco central) que foram os
salários em atraso.
INSULTO A UM JUIZ
Em Coimbra, onde veio uma vez como primeiro ministro, foi confrontado com
uma manifestação de trabalhadores com salários em atraso. Soares não
gostou do que ouviu (chamaram-lhe o que Soares tem chamado aos governantes
angolanos) e alguns trabalhadores foram presos por polícias zelosos. Mas,
como não apresentou queixa (o tipo de crime em causa exigia a apresentação
de queixa), o juiz não teve outro remédio senão libertar os detidos no
próprio dia. Soares não gostou e insultou publicamente esse magistrado, o
qual ainda apresentou queixa ao Conselho Superior da Magistratura contra
Mário Soares, mas sua excelência não foi incomodado. Na sequência, foi
modificado o Código Penal, o que constituiu a primeira alteração de que
foi alvo por exigência dos interesses pessoais de figuras políticas.
Soares é arrogante, pesporrento e malcriado. É conhecidíssima a frase que
dirigiu, perante as câmaras de TV, a um agente da GNR em serviço que
cumpria a missão de lhe fazer escolta enquanto presidente da República
durantea presidência aberta em Lisboa : « Ó sr. Guarda desapareça ».
Nunca, em Portugal, um agente da autoridade terá sido tão humilhado
publicamente por um responsável político, como aquele pobre soldado da GNR
.
Em minha opinião, Mário Soares nunca foi um verdadeiro democrata. Ou
melhor é muito democrata se fôr ele a mandar. Quando não, acaba-se
imediatamente a democracia. À sua volta não tem amigos, e ele sabe-o ; tem
pessoas que não pensam pela própria cabeça e que apenas fazem o que ele
manda e quando ele manda. Só é amigo de quem lhe obedece. Quem ousar ter
ideias próprias é triturado sem quaisquer contemplações. Algumas das suas
mais sólidas e antigas amizades ficaram pelo caminho quando ousaram pôr em
causa os seus interesses ou ambições pessoais. Soares é um homem de ódios
pessoais sem limites, os quais sempre colocou acima dos interesses
políticos do partido e do próprio país.
Em 1980, não hesitou em apoiar objectivamente o General Soares Carneiro
contra Eanes, não por razões políticas mas devido ao ódio pessoal que
nutria pelo general Ramalho Eanes. E como o PS não alinhou nessa aventura
que iria entregar a presidência da República a um general do antigo
regime, Soares, em vez de acatar a decisão maioritária do seu partido,
optou por demitir-se e passou a intrigar, a conspirar e a manipular as
consciências dos militantes socialistas e de toda a sorte de oportunistas,
não hesitando mesmo em espezinhar amigos de sempre como Francisco Salgado
Zenha.
Confesso que não sei por que é que o séquito de prosélitos do soarismo
(onde, lamentavelmente, parece ter-se incluido agora o actual presidente
da República), apareceram agora tão indignados com as declarações de
governantes angolanos e estiveram tão calados quando da publicação do
livro de Rui Mateus sobre Mário Soares. Na altura todos meteram a cabeça
na areia, incluindo o próprio clã dos Soares, e nem tugiram nem mugiram,
apesar de as acusações serem então bem mais graves do que as de agora. Por
que é que Jorge Sampaio se calou contra as «calúnias » de Rui Mateus ?»
«DINHEIRO DE MACAU
Anos mais tarde, um senhor que fora ministro de um governo chefiado por
Mário Soares,
Rosado Correia, vinha de Macau para Portugal com uma mala com dezenas de
milhares de contos. A proveniência do dinheiro era tão pouco limpa que um
membro do governo de Macau, António Vitorino, foi a correr ao aeroporto
tirar-lhe a mala à última hora. Parece que se tratava de dinheiro que
tinha sido obtido de empresários chineses com a promessa de benefícios
indevidos por parte do governo de Macau. Para quem era esse dinheiro foi
coisa que nunca ficou devidamente esclarecido.
O caso Emaudio e o célebre fax de Macau é um episódio que envolve
destacadíssimos soaristas, amigos íntimos de Mário Soares e altos
dirigentes do PS da época soarista. Menano do Amaral chegou a ser
responsável pelas finanças do PS e Rui Mateus foi durante anos responsável
pelas relações internacionais do partido, ou seja, pela angariação de
fundos no estrangeiro. Não haveria seguramente no PS ninguém em quem
Soares depositasse mais confiança. Ainda hoje subsistem muitas dúvidas (e
não só as lançadas pelo livro de Rui Mateus) sobre o verdadeiro destino
dos financiamentos vindos de Macau. No entanto, em tribunal, os pretensos
corruptores foram processualmente separados dos alegados corrompidos, com
esta peculiaridade (que não é inédita) judicial : os pretensos corruptores
foram condenados, enquanto os alegados corrompidos foram absolvidos.
Aliás, no que respeita a Macau só um país sem dignidade e um povo sem brio
nem vergonha é que toleravam o que se passou nos últimos anos (e nos
últimos dias) de administração portuguesa daquele território, com os
chineses pura e simplesmente a chamar ladrões aos portugueses.
E isso não foi só dirigido a alguns coladores de cartazes do MASP que a
dada altura enxamearam aquele território. Esse epíteto chegou a ser
dirigido aos mais altos representantes do Estado Português. Tudo por causa
das fundações criadas para tirar dinheiro de Macau. Mas isso é outra
história cujos verdadeiros contornos hão-de ser um dia conhecidos. Não foi
só em Portugal que Mário Soares conviveu com pessoas pouco recomendáveis.
Veja-se o caso de Betino Craxi, o líder do PS italiano, condenado a
vários anos de prisão pelas autoridades judiciais do seu país, devido a
graves crimes como corrupção. Soares fez questão de lhe manifestar
publicamente solidariedade quando ele se refugiou na Tunísia.
Veja-se também a amizade com Filipe Gonzalez, líder do Partido Socialista
de Espanha que não encontrou melhor maneira para resolver o problema
político do país Basco senão recorrer ao terrorismo, contratando os piores
mercenários do lumpen e da extrema direita da Europa para assassinar
militantes e simpatizantes da ETA.
Mário Soares utilizou o cargo de presidente da República para passear
pelo estrangeiro como nunca ninguém fizera em Portugal. Ele, que tanta
austeridade impôs aos trabalhadores portugueses enquanto Primeiro
Ministro, gastou, como Presidente da República, milhões de contos dos
contribuintes portugueses em passeatas pelo mundo, com verdadeiros
exércitos de amigos e prosélitos do soarismo, com destaque para
jornalistas. São muitos desses «viajantes » que hoje se põem em bicos de
pés a indignar-se pelas declarações dos governantes angolanos. Enquanto
Presidente da República, Soares abusou como ninguém das distinções
honoríficas do Estado Português. Não há praticamente nenhum amigo que não
tenha recebido uma condecoração, enquanto outros cidadãos, que tanto as
mereceram, não obtiveram qualquer distinção durante o seu « reinado ».
Um dos maiores vultos da resistência antifascista no meio universitário,
e um dos mais notáveis académicos portugueses, perseguido pelo antigo
regime, o Prof. Doutor Orlando de Carvalho, não foi merecedor, segundo
Mário Soares, da Ordem da Liberdade. Mas alguns que até colaboraram com o
antigo regime receberam as mais altas distinções. Orlando de Carvalho só
veio a receber a Ordem da Liberdade depois de Soares deixar a Presidência
da República, ou seja logo que Sampaio tomou posse. A razão foi só uma :
Orlando de Carvalho nunca prestou vassalagem a Soares e Jorge Sampaio não
fazia depender disso a atribuição de condecorações.
FUNDAÇÃO COM DINHEIROS PÚBLICOS
A pretexto de uns papéis pessoais cujo valor histórico ou cultural nunca
ninguem sindicou, Soares decidiu fazer uma Fundação com o seu nome. Nada
de mal se o fizesse com dinheiro seu, como seria normal. Mas não ; acabou
por fazê-la com dinheiros públicos. Só o governo, de uma só vez deu-lhe
500 mil contos e a Câmara de Lisboa, presidida pelo seu filho, deu-lhe um
prédio no valor de centenas de milhares de contos. Nos Estados Unidos, na
Inglaterra, na Alemanha ou em qualquer país em que as regras democráticas
fossem minimamente respeitadas muita gente estaria, por isso, a contas com
a justiça, incluindo os próprios Mário e João Soares e as respectivas
carreiras políticas teriam aí terminado. Tais práticas são absolutamente
inadmissíveis num país que respeitasse o dinheiro extorquido aos
contribuintes pelo fisco. Se os seus documentos pessoais tinham valor
histórico Mário Soares deveria entregá-los a uma instituição pública, como
a Torre do Tombo ou o Centro de Documentação 25 de Abril, por exemplo. Mas
para isso era preciso que Soares fosse uma pessoa com humildade
democrática e verdadeiro amor pela cultura. Mas não. Não eram preocupações
culturais que motivaram Soares. O que ele pretendia era outra coisa.
Porque as suas ambições não têm limites ele precisava de um instrumento de
pressão sobre as instituições democráticas e dos órgãos de poder e de
intromissão directa na vida política do país. A Fundação Mário Soares
está a transformar-se num verdadeiro cancro da democracia portuguesa.»
Parte de texto Abril 2000, assinado pelo advogado e jornalista António
Marinho
MARIO SOARES E ANGOLA
A polémica em torno das acusações das autoridades angolanas
segundo as quais Mário Soares e seu filho João Soares seriam dos
principais beneficiários do tráfico de diamantes e de marfim levados a
cabo pela UNITA de Jonas Savimbi, tem sido conduzida na base de
mistificações grosseiras sobre o comportamento daquelas figuras políticas
nos últimos anos.
Espanta desde logo a intervenção pública da generalidade das figuras
políticas do país, que vão desde o Presidente da República até ao deputado
do Bloco de Esquerda, Francisco Louçã, passando pelo PP de Paulo Portas e
Basílio Horta, pelo PSD de Durão Barroso e por toda a sorte de fazedores
de opinião, jornalistas (ligados ou não à Fundação Mário Soares),
pensadores profissionais, autarcas, «comendadores» e comentadores de
serviço, etc? Tudo como se Mário Soares fosse uma virgem perdida no meio
de um imenso bordel.
Sei que Mário Soares não é nenhuma virgem e que o país (apesar de tudo)
não é nenhum bordel. Sei também que não gosto mesmo nada de Mário Soares e
do filho João Soares, os quais se têm vindo a comportar politicamente como
uma espécie de versão portuguesa da antiga dupla haitiana « Papa Doc » e
«Baby Doc».
Vejamos então por que é que eu não gosto dele(s).
1. - A primeira ideia que se agiganta sobre Mário Soares é que é um homem
que não tem princípios mas sim fins. É-lhe atribuida a célebre frase : «
Em política, feio, feio, é perder ». São conhecidos também os seus
zigue-zagues políticos desde antes do 25 de Abril.
Tentou negociar com Marcelo Caetano uma legalização do seu (e seus amigos)
agrupamento político, num gesto que mais não significava do que uma imensa
traição a toda a oposição, mormente àquela que mais se empenhava na luta
contra o fascismo.
Já depois do 25 de Abril, assumiu-se como o homem dos americanos e da CIA
em Portugal e na própria Internacional Socialista. Dos mesmos americanos
que acabavam de conceber, financiar e executar o golpe contra Salvador
Allende no Chile e que colocara no poder Augusto Pinochet.
Mário Soares combateu o comunismo e os comunistas portugueses como
nenhuma outra pessoa o fizera durante a revolução e foi amigo de Nicolau
Ceaucescu, figura que chegou a apresentar como modelo a ser seguido pelos
comunistas portugueses.
Durante a revolução portuguesa andou a gritar nas ruas do país a palavra
de ordem «Partido Socialista, Partido Marxista », mas mal se apanhou no
poder meteu o socialismo na gaveta e nunca mais o tirou de lá. Os seus
governos notabilizaram-se por três coisas : políticas abertamente de
direita, a facilidade com que certos empresários ganhavam dinheiro e essa
inovação da austeridade soarista (versão bloco central) que foram os
salários em atraso.
INSULTO A UM JUIZ
Em Coimbra, onde veio uma vez como primeiro ministro, foi confrontado com
uma manifestação de trabalhadores com salários em atraso. Soares não
gostou do que ouviu (chamaram-lhe o que Soares tem chamado aos governantes
angolanos) e alguns trabalhadores foram presos por polícias zelosos. Mas,
como não apresentou queixa (o tipo de crime em causa exigia a apresentação
de queixa), o juiz não teve outro remédio senão libertar os detidos no
próprio dia. Soares não gostou e insultou publicamente esse magistrado, o
qual ainda apresentou queixa ao Conselho Superior da Magistratura contra
Mário Soares, mas sua excelência não foi incomodado. Na sequência, foi
modificado o Código Penal, o que constituiu a primeira alteração de que
foi alvo por exigência dos interesses pessoais de figuras políticas.
Soares é arrogante, pesporrento e malcriado. É conhecidíssima a frase que
dirigiu, perante as câmaras de TV, a um agente da GNR em serviço que
cumpria a missão de lhe fazer escolta enquanto presidente da República
durantea presidência aberta em Lisboa : « Ó sr. Guarda desapareça ».
Nunca, em Portugal, um agente da autoridade terá sido tão humilhado
publicamente por um responsável político, como aquele pobre soldado da GNR
.
Em minha opinião, Mário Soares nunca foi um verdadeiro democrata. Ou
melhor é muito democrata se fôr ele a mandar. Quando não, acaba-se
imediatamente a democracia. À sua volta não tem amigos, e ele sabe-o ; tem
pessoas que não pensam pela própria cabeça e que apenas fazem o que ele
manda e quando ele manda. Só é amigo de quem lhe obedece. Quem ousar ter
ideias próprias é triturado sem quaisquer contemplações. Algumas das suas
mais sólidas e antigas amizades ficaram pelo caminho quando ousaram pôr em
causa os seus interesses ou ambições pessoais. Soares é um homem de ódios
pessoais sem limites, os quais sempre colocou acima dos interesses
políticos do partido e do próprio país.
Em 1980, não hesitou em apoiar objectivamente o General Soares Carneiro
contra Eanes, não por razões políticas mas devido ao ódio pessoal que
nutria pelo general Ramalho Eanes. E como o PS não alinhou nessa aventura
que iria entregar a presidência da República a um general do antigo
regime, Soares, em vez de acatar a decisão maioritária do seu partido,
optou por demitir-se e passou a intrigar, a conspirar e a manipular as
consciências dos militantes socialistas e de toda a sorte de oportunistas,
não hesitando mesmo em espezinhar amigos de sempre como Francisco Salgado
Zenha.
Confesso que não sei por que é que o séquito de prosélitos do soarismo
(onde, lamentavelmente, parece ter-se incluido agora o actual presidente
da República), apareceram agora tão indignados com as declarações de
governantes angolanos e estiveram tão calados quando da publicação do
livro de Rui Mateus sobre Mário Soares. Na altura todos meteram a cabeça
na areia, incluindo o próprio clã dos Soares, e nem tugiram nem mugiram,
apesar de as acusações serem então bem mais graves do que as de agora. Por
que é que Jorge Sampaio se calou contra as «calúnias » de Rui Mateus ?»
«DINHEIRO DE MACAU
Anos mais tarde, um senhor que fora ministro de um governo chefiado por
Mário Soares,
Rosado Correia, vinha de Macau para Portugal com uma mala com dezenas de
milhares de contos. A proveniência do dinheiro era tão pouco limpa que um
membro do governo de Macau, António Vitorino, foi a correr ao aeroporto
tirar-lhe a mala à última hora. Parece que se tratava de dinheiro que
tinha sido obtido de empresários chineses com a promessa de benefícios
indevidos por parte do governo de Macau. Para quem era esse dinheiro foi
coisa que nunca ficou devidamente esclarecido.
O caso Emaudio e o célebre fax de Macau é um episódio que envolve
destacadíssimos soaristas, amigos íntimos de Mário Soares e altos
dirigentes do PS da época soarista. Menano do Amaral chegou a ser
responsável pelas finanças do PS e Rui Mateus foi durante anos responsável
pelas relações internacionais do partido, ou seja, pela angariação de
fundos no estrangeiro. Não haveria seguramente no PS ninguém em quem
Soares depositasse mais confiança. Ainda hoje subsistem muitas dúvidas (e
não só as lançadas pelo livro de Rui Mateus) sobre o verdadeiro destino
dos financiamentos vindos de Macau. No entanto, em tribunal, os pretensos
corruptores foram processualmente separados dos alegados corrompidos, com
esta peculiaridade (que não é inédita) judicial : os pretensos corruptores
foram condenados, enquanto os alegados corrompidos foram absolvidos.
Aliás, no que respeita a Macau só um país sem dignidade e um povo sem brio
nem vergonha é que toleravam o que se passou nos últimos anos (e nos
últimos dias) de administração portuguesa daquele território, com os
chineses pura e simplesmente a chamar ladrões aos portugueses.
E isso não foi só dirigido a alguns coladores de cartazes do MASP que a
dada altura enxamearam aquele território. Esse epíteto chegou a ser
dirigido aos mais altos representantes do Estado Português. Tudo por causa
das fundações criadas para tirar dinheiro de Macau. Mas isso é outra
história cujos verdadeiros contornos hão-de ser um dia conhecidos. Não foi
só em Portugal que Mário Soares conviveu com pessoas pouco recomendáveis.
Veja-se o caso de Betino Craxi, o líder do PS italiano, condenado a
vários anos de prisão pelas autoridades judiciais do seu país, devido a
graves crimes como corrupção. Soares fez questão de lhe manifestar
publicamente solidariedade quando ele se refugiou na Tunísia.
Veja-se também a amizade com Filipe Gonzalez, líder do Partido Socialista
de Espanha que não encontrou melhor maneira para resolver o problema
político do país Basco senão recorrer ao terrorismo, contratando os piores
mercenários do lumpen e da extrema direita da Europa para assassinar
militantes e simpatizantes da ETA.
Mário Soares utilizou o cargo de presidente da República para passear
pelo estrangeiro como nunca ninguém fizera em Portugal. Ele, que tanta
austeridade impôs aos trabalhadores portugueses enquanto Primeiro
Ministro, gastou, como Presidente da República, milhões de contos dos
contribuintes portugueses em passeatas pelo mundo, com verdadeiros
exércitos de amigos e prosélitos do soarismo, com destaque para
jornalistas. São muitos desses «viajantes » que hoje se põem em bicos de
pés a indignar-se pelas declarações dos governantes angolanos. Enquanto
Presidente da República, Soares abusou como ninguém das distinções
honoríficas do Estado Português. Não há praticamente nenhum amigo que não
tenha recebido uma condecoração, enquanto outros cidadãos, que tanto as
mereceram, não obtiveram qualquer distinção durante o seu « reinado ».
Um dos maiores vultos da resistência antifascista no meio universitário,
e um dos mais notáveis académicos portugueses, perseguido pelo antigo
regime, o Prof. Doutor Orlando de Carvalho, não foi merecedor, segundo
Mário Soares, da Ordem da Liberdade. Mas alguns que até colaboraram com o
antigo regime receberam as mais altas distinções. Orlando de Carvalho só
veio a receber a Ordem da Liberdade depois de Soares deixar a Presidência
da República, ou seja logo que Sampaio tomou posse. A razão foi só uma :
Orlando de Carvalho nunca prestou vassalagem a Soares e Jorge Sampaio não
fazia depender disso a atribuição de condecorações.
FUNDAÇÃO COM DINHEIROS PÚBLICOS
A pretexto de uns papéis pessoais cujo valor histórico ou cultural nunca
ninguem sindicou, Soares decidiu fazer uma Fundação com o seu nome. Nada
de mal se o fizesse com dinheiro seu, como seria normal. Mas não ; acabou
por fazê-la com dinheiros públicos. Só o governo, de uma só vez deu-lhe
500 mil contos e a Câmara de Lisboa, presidida pelo seu filho, deu-lhe um
prédio no valor de centenas de milhares de contos. Nos Estados Unidos, na
Inglaterra, na Alemanha ou em qualquer país em que as regras democráticas
fossem minimamente respeitadas muita gente estaria, por isso, a contas com
a justiça, incluindo os próprios Mário e João Soares e as respectivas
carreiras políticas teriam aí terminado. Tais práticas são absolutamente
inadmissíveis num país que respeitasse o dinheiro extorquido aos
contribuintes pelo fisco. Se os seus documentos pessoais tinham valor
histórico Mário Soares deveria entregá-los a uma instituição pública, como
a Torre do Tombo ou o Centro de Documentação 25 de Abril, por exemplo. Mas
para isso era preciso que Soares fosse uma pessoa com humildade
democrática e verdadeiro amor pela cultura. Mas não. Não eram preocupações
culturais que motivaram Soares. O que ele pretendia era outra coisa.
Porque as suas ambições não têm limites ele precisava de um instrumento de
pressão sobre as instituições democráticas e dos órgãos de poder e de
intromissão directa na vida política do país. A Fundação Mário Soares
está a transformar-se num verdadeiro cancro da democracia portuguesa.»