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View Full Version : Unificação da língua portuguesa


costarios
22-10-2004, 13:48
Brasil dá primeiro passo para unificar língua portuguesa
ANDRÉ SOLIANI
da Folha de S. Paulo, em Brasília

As duas ortografias oficiais da língua portuguesa --a do Brasil e a de Portugal-- estão prestes a se tornar uma só. Na quinta-feira (21), o governo brasileiro aprovou um protocolo que deverá, em breve, promover a unificação.

Com a reforma pela qual a língua passará, o trema deixará de existir, a não ser em nomes próprios e seus derivados, e o alfabeto passará a ter 26 letras --incorporará mais três: "k", "w" e "y".

O filólogo Antônio Houaiss, representante brasileiro durante as negociações com Portugal (que terminaram em 1990), aponta no livro "A Nova Ortografia da Língua Portuguesa" cerca de 40 mudanças que terão de ser incorporadas ou à ortografia brasileira ou à portuguesa.

As mudanças, no entanto, ainda dependem da aprovação do protocolo por Portugal e Cabo Verde. O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa existe desde 1990, mas nunca foi implementado, pois precisava da ratificação de todos os oito membros da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). Apenas três deles --Portugal, Brasil e Cabo Verde-- haviam começado a adaptar suas legislações ao acordo.

Para agilizar o processo de reforma da língua, os chefes de Estado da CPLP decidiram, na última reunião de cúpula, em meados deste ano, que bastaria a ratificação do acordo por três países para que ele passasse a valer. O protocolo assinado pelo Brasil ontem é o que permite a entrada em vigor do acordo com apenas três ratificações.

O governo brasileiro conta agora com a aprovação do protocolo em Portugal e Cabo Verde. Para isso, o Ministério de Relações Exteriores pediu às embaixadas brasileiras nos dois países que promovam a aceleração da aprovação do protocolo.

Mudanças

As novas regras ortográficas obrigarão os portugueses a grafarem algumas palavras como no Brasil. O verbete "acção" passará a ser "ação". Os portugueses também terão de retirar o "h" inicial de algumas palavras, como em "herva" e "húmido", que passarão a ser grafadas como no Brasil: "erva" e "úmido".

Para as palavras que admitem diferentes pronúncias, manteve-se a possibilidade de duas grafias. Os brasileiros escreverão "fato", e os portugueses, "facto". As duas formas de grafar esse substantivo serão consideradas corretas nos países signatários do acordo.

Segundo um integrante do governo ligado à área da cultura, que preferiu permanecer no anonimato para evitar desgastes com Portugal, a reforma fará com que o português falado no Brasil se torne o internacional.

Mas os brasileiros também terão de se acostumar com mudanças. Não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem". O acento circunflexo em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo", também cairá. O acento também deixará de ser usado para diferenciar "pára" (verbo) de "para" (preposição). Alguns acentos já haviam sido abolidos no Brasil na reforma ortográfica de 1971.

Na opinião de Carlos Alberto Xavier, assessor do ministro da Educação, a unificação da ortografia é importante para o futuro da língua portuguesa no mundo. O português é a terceira língua ocidental mais falada, atrás apenas do inglês e do espanhol.

O fato de existirem duas ortografias dificulta campanhas de divulgação do idioma e a sua adoção em fóruns internacionais. "A entrada em vigor do acordo é condição essencial para a definição de uma política de promoção e difusão da língua portuguesa", afirma nota divulgada ontem pelo Itamaraty.

costarios
22-10-2004, 13:51
Unificação da ortografia é gesto político
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THAÍS NICOLETI DE CAMARGO
Especial para a Folha

Uma língua é muito mais que a sua ortografia. É um sistema de representação verbal que permite a comunicação entre os indivíduos. Como conjunto de mecanismos e recursos expressivos que traduzem a cultura de um povo, uma língua, quando falada em diferentes países, assume características próprias, decorrentes da trajetória histórica de cada um.

O português falado em Portugal, no Brasil, em Moçambique, em Angola, na Índia ou na China é uma só língua. Variações ficam por conta da extensão do léxico, da grafia, do uso mais ou menos corrente de certas expressões ou estruturas sintáticas, da pronúncia, bem como da incorporação da influência de outras línguas.

Unificar a grafia do português nos países lusófonos é antes um gesto político, no qual parece estar o mérito da ação. Afinal, estimula-se assim a mobilização em torno de um fator de identidade nacional e a conscientização da vitalidade do idioma e dos traços comuns entre as culturas que se expressam por meio dele. Isso tende a fazer surgir um maior intercâmbio entre as obras literárias produzidas nesses países.

Outros aspectos da questão são o desgaste de reaprender algo que já está automatizado e o custo econômico de substituir os livros, sobretudo os didáticos, que envelhecem.

Mas, passada a fase de transição, o saldo deve ser positivo.

jleandro
22-10-2004, 13:59
dizem-me que a lingua é uma ciencia viva, e que há que se adaptar aos tempos modernos....pois.

também por causa da modernidade foram aceites como palavras portuguesas alguns palavrões, como "bueda" e outros parecidos.

enfim, eles lá saberão mais que eu...

por mim a língua portuguesa ficava tal como está, até porque ela nunca constiui obstáculo ao entendimento entre os vários povos que falam português.

ah, e claro que esta decisão é política e claro que a lingua fica agora muito mais abrisileirada.

costarios
22-10-2004, 14:16
Mas também nós (brasileiros) vamos ter mudanças:


Mas os brasileiros também terão de se acostumar com mudanças. Não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos "crer", "dar", "ler", "ver" e seus derivados. A grafia correta será "creem", "deem", "leem" e "veem". O acento circunflexo em palavras terminados em hiato "oo", como "enjôo", também cairá. O acento também deixará de ser usado para diferenciar "pára" (verbo) de "para" (preposição).

Blue
22-10-2004, 14:19
Não me lembro de ter aprendido a escrever "herva" ????

Não percebo o porquê desta necessidade de uniformização, ainda por cima por causa de detalhes. Que eu saiba o inglês de Ingalterra não se uniformizou com o inglês americano. Cada um mantém as suas particularidades; como é o caso de "color" e "colour".

A menos que a tendência para a mudança seja natural ... e aí a nossa língua tem evoluído.

jleandro
22-10-2004, 14:42
gosto especialmente daquela de deixar de se usar o acento em "pára" forma do verbo parar

é que vai ser lindo, deixam de saber escrever e qualquer nem falar sabem :(

Mystic
22-10-2004, 18:00
Parece que o dia chegou, depois de uns anos em banho-maria.

Que me desculpem os defensores da função política da língua, mas acho estas unificações temporárias uma violência. Quem é que em Portugal não entende a norma brasileira? E quem é que no Brasil não entende a norma portuguesa? A última uniformização - que não chegou bem a sê-lo - foi em 1945 e a língua não divergiu assim tanto desde então.

A nova norma quase comum – porque vai continuar a haver palavras com grafia diferente (ex: fato/facto) - já estava aprovada desde então pelos dois parlamentos. Quanto às ex-colónias africanas o problema nunca se colocou, pois declararam que seguiriam a norma portuguesa, com mudança ou sem ela.

Apesar de entender os argumentos dos que defendem a unificação ortográfica e de todo o respeito e consideração que me merecem os dois grandes linguistas obreiros da norma comum, Lindley Cintra e Celso Cunha, autores da melhor gramática de Português que se encontra no mercado, discordo completamente.

Uma coisa é a língua evoluir – e isso é imparável - em função do bom uso que lhe dá a população, o que acarreta actualizações. Outra coisa é mudá-la artificialmente a partir do exterior para a compatibilizar com os usos de fala de outros povos. É uma violência sobre os falantes brasileiros e portugueses. Qualquer um de nós sente as novas palavras como estranhas, exactamente o contrário do que acontece quando é o uso interno diário que empurra a norma para as alterações gráficas.

Vamos afastar-nos da história da língua ao adaptarmos algumas grafias que nos vão parecer estranhas, ao mesmo tempo que se distanciam das suas parentes espanholas, inglesas, francesas.

Como diz o artigo que o CostaRios transcreveu, não se trata de evolução linguística mas de uma mera decisão política. Vamos ver se ao menos isso vale a pena.

Karl Marx
25-10-2004, 12:01
Eu, que estou longe de poder ser considerado conservador, acho que se pode mexer em alguma coisa, mas pouco. (herva também não conheço). E o que me faz mais confusão não está previsto no acordo: como é que vamos uniformizar ou aproximar expressões como: xeroxar, nocautear, "negócio", como significado de "coisa", ou "isso de que falas ou eu falo"... sei lá.
Para já não falar de AIDS para dizer SIDA, bonde, ônibus "fala aí, cara", "você", para dizer mesmo "tu", mídia, para dizer (mass) media (sim, sem acento, por significar "meios", em latim), quando afinal deveria ser "meios de comunicação social"...

E os neologismos?
Querem que vos mande um "imeile"?
;)

costarios
25-10-2004, 12:59
Karl, o objectivo deste trabalho não é chegar à esta profundidade de detalhes. :)

Creio que este unificação está orientada mais às regras gramaticais e à construção de palavras que possuem um mesmo significado em ambos os países, mas o respeito por certos termos prevalecerá (fato e facto, por exemplo).

A unificação não vai "obrigá-lo" a dizer coisas como:

AIDS para dizer SIDA, bonde, ônibus "fala aí, cara", "você", para dizer mesmo "tu", ...

Vou procurar mais detalhes acerca deste projecto para evitar confusões maiores com relação ao seu real objectivo, mas acho que esta frase resume bem o "negócio" ;) :

O fato de existirem duas ortografias dificulta campanhas de divulgação do idioma e a sua adoção em fóruns internacionais. "A entrada em vigor do acordo é condição essencial para a definição de uma política de promoção e difusão da língua portuguesa", afirma nota divulgada ontem pelo Itamaraty.

Mystic
25-10-2004, 13:48
Karl, a questão desses vocábulos nem se coloca, pois a uniformização tem apenas a ver com o vocabulário comum - é um acordo ortográfico e não sintáctico ou vocabular (impossível ...) - e incide essencialmente na supressão das consoantes mudas nos dois países, a maior parte delas já eliminadas pela norma brasileira há muito tempo (ex. letivo, ação, atuar, etc), nas regras do hífen, etc.

As regras da acentuação ficam praticamente intocadas e cada país conservará quase todos os seus hábitos linguísticos nesse campo (ex. Antônio/António).

No fundo, poderá resolver algumas dissonâncias mas levanta outros problemas, como a dupla grafia de muitas palavras não uniformizáveis.

Por exemplo, a palavra espectador ou corrupção. Muita gente pronuncia espectador/corrupção e muita outra espetador/corrução.

Resultado: a dupla entrada, até aqui não autorizada.

Também sou tudo menos conservadora/purista da língua, já aqui falei sobre isso, e defendo a evolução natural, o não aprisionamento da língua em espartilhos imutáveis. Toda a gente sabe que a língua hoje já não é a de Eça de Queirós e muito menos a do século XIII. Mas foi um caminhar natural, não foi um empurrão. No entanto, os grandes defensores deste acordo falam em "resistentes à mudança", que é coisa que eu não sou nem nunca fui.

Karl Marx
25-10-2004, 14:32
Eu sei que o acordo é ao nível da grafia. E até concordo com a maior parte das situações nele previstas: "ator", "úmido", mesmo "espetador" (já "corrupção" não pode ser: ninguém diz "corrução" - até soa a "corrosão"!) e outros casos em que temos consoantes... sem consequência.
Curiosamente, até acho que os brasileiros não deviam deixar caír o trema, pelo contrário, nós é que devíamos ado(p)tá-lo! Assim os tais estrangeiros que vão beneficiar duma maior divulgação da nossa língua comum não continuariam a partir o coco (não a rir!) a tentar perceber porque raio é freQUENTE estar QUENTE em Portugal!

O que acho que é mesmo uma barreira a essa divulgação é a disparidade considerável de significantes para o mesmo significado, (olá M. Ferdinand de Saussure!) tornando os signos... imprescrutáveis, considerando uma língua unificada!

PS - Acho que deveríamos manter o pormenor dos FATOS vestidos e dos FACTOS bem explícitos!

Mystic
25-10-2004, 16:11
Bom, tu ainda concordas com a maior parte das alterações, mas eu é que acho que não vale a pena grandes investimentos para aproveitar o farelo quando a farinha está perdida.

Penso que é muito barulho por nada de verdadeiramente importante, pois a grande barreira é realmente do domínio vocabular, sintáctico e expressivo.

Porque pensamos que é difícil distinguir fato/facto - do que eu duvido - se o que realmente conta para a comunicação é a destrinça fato/paletó ou de que estás tu a falar?/está falando do quê/do que você está falando?

Tu aprendeste o inglês britânico como lingua estrangeira. Tens alguma dificuldade nas duplas harbour/harbor, realize/realise, have got/have gotten?

Não me parece que o impeditivo seja a ortografia. E os inconvenientes desta mexidela são tantos, a começar pelos económicos ... !

Não percebo que redação é redacção? E como vou perceber que camisola é camisa de dormir?

Enfim, manda quem pode. Política é política, não vale a pena dar-lhe qualquer tipo de coloração linguística.

PS: vamos manter os fatos do Armani e os factos políticos do Marcelo. :D

"Corrução" diz-se, podes ter a certeza. Se está prevista uma ortografia adequada na listagem das palavras comuns, já não sei. Aliás, nem sei se já está completamente pronta, pois era o que estava a atrasar a efectivação do acordo.