Óscar
17-10-2004, 16:49
Paea se combater o terrorismo, nada melhor do que o conhecer primeiro.
Está em pré-publicação um livro "No Interior da Al Qaeda, Rede Global do Terror" do académico do Sri Lanka, Rohan Gunaratna, um dos mais citados peritos em terrorismo e na Al-Qaeda. Já foi investigador do departamento de prevenção do terrorismo das Nações Unidas, e integra hoje o Centro de Estudos sobre Terrorismo e Violência Política da Universidade escocesa de St. Andrews.
Um pequeno trecho:
A estrutura da Al-Qaeda permite-lhe exercer o controlo directo e indirecto de uma força potente e espalhada pelo mundo. Ao emitir periodicamente declarações, discursos e artigos, Osama bin Laden doutrina, treina e controla um grupo central interno ao mesmo tempo que inspira e apoia quadros periféricos. Para além de explorar as relações da Al-Qaeda com grupos, partidos e regimes islamitas, Osama também procura influenciar o seu comportamento e modo de pensar
Os grupos constituintes da Al-Qaeda actuam como coligação aberta, mantendo cada um as suas estruturas próprias de comando, controlo e comunicação. A coligação tem uma característica única que melhora a sua resistência e permite que as forças se multipliquem em busca de um objectivo específico: sempre que necessário, esses grupos interagem ou fundem-se, cooperando ao nível ideológico, financeiro e técnico.
Para desenvolver o projecto islamita, em 1998 a Al-Qaeda foi reorganizada em quatro entidades distintas mas interligadas: a primeira tinha uma estrutura em pirâmide para facilitar a gestão estratégica e táctica; a segunda tinha uma rede terrorista global; a terceira era uma força de base para luta de guerrilha no interior do Afeganistão; e a quarta era uma coligação aberta de grupos terroristas e de guerrilha transnacionais. [...]
Rede financeira
O conselho financeiro e de negócios gere os recursos financeiros necessários para sustentar a Al-Qaeda. A organização está instalada na maioria dos países que têm comunidades de muçulmanos, quer sejam autóctones ou emigrantes; a sua infiltração torna-se evidente em qualquer local onde viva e trabalhe um muçulmano. Nunca age individualmente, visto que a montagem de uma operação terrorista exige apoio técnico e logístico que tem de ser instalado no local muitas vezes anos antes. No Médio Oriente, nomeadamente no Golfo, a Al-Qaeda mantém o apoio público, embora disfarçado, e também recebe ajuda prática de filantropos e fundações islâmicas, nomeadamente dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita. No mundo em vias de desenvolvimento, as suas estratégias de infiltração estão coordenadas para fornecer bens e serviços aos muçulmanos locais, enquanto que nas democracias ocidentais cria dinheiro para os muçulmanos necessitados do exterior, constituindo a recolha e a canalização de fundos uma óptima oportunidade para obter apoio e recrutamento. [...]
Nenhuma rede se parece com a da Al-Qaeda, apesar de ter algumas características do agora falido Banco de Crédito e Comércio Internacional, que canalizava fundos para a jihad afegã anti soviética e era apoiado por outros grupos terroristas nos anos 80. A resistência da infra estrutura financeira da Al-Qaeda deve-se principalmente à estrutura compartimentada que adoptou desde a sua criação. Dedica a máxima atenção à formação e gestão financeiras, bem como à criação e investimento bem gerido dos rendimentos. O conselho financeiro e de negócios da Al-Qaeda - que inclui banqueiros profissionais, contabilistas e financeiros - gere os fundos do grupo nos quatro continentes. [...]
Formação
O êxito que a Al-Qaeda tem tido na condução de ataques de guerrilhas e terroristas bem coordenados deve-se em grande parte à aposta rigorosa na formação e na reciclagem. A organização produziu diversos manuais de formação, dos quais o trabalho de referência é a obra de 7000 páginas, em vários volumes, intitulada Enciclopédia da Jihad Afegã. Os primeiros dez volumes incluem tácticas; segurança e serviços secretos; armas manuais; primeiros socorros; explosivos; granadas e minas; tanques; fabrico (de armas e explosivos); topografia e levantamento topográfico e armas (em geral). [...]
Como a Al-Qaeda actua em múltiplos ambientes, devido ao seu alcance global, a enciclopédia refere-se a terrenos urbanos, não urbanos, montanhosos, desérticos e de selva. Da mesma forma, o volume dedicado aos explosivos classifica os de acordo com as suas características naturais, utilização, velocidade de detonação, composição, etc. Numa secção explica-se como armadilhar objectos como uma máquina fotográfica, um rádio, um livro, um maço de cigarros, uma garrafa de vinho, um apito, equipamento electrónico, uma lanterna, um bolo, uma barra de chocolate, um tubo de pasta dentífrica, uma escova de cabelo, mobiliário, um aquecedor doméstico, etc. Depois dos objectos pequenos, a enciclopédia sobe de nível, explicando como colocar uma bomba em grandes edifícios, em estátuas e em pontes, e como abater um avião com mísseis Stinger. Toda a obra está escrita de uma forma simples e clara, e o leitor não precisa de ser extremamente culto para conseguir seguir as instruções. [...] A Al-Qaeda utiliza um outro manual, a Declaração de Jihad contra os Tiranos do País (Série Militar), exclusivamente dedicado às operações terroristas. [...]
Tácticas
A rede terrorista global da Al-Qaeda adopta unicamente o modelo celular - também conhecido como o casulo - "composto por várias células cujos membros não têm conhecimento uns dos outros, para que, se um membro de uma célula for apanhado, as outras células não sejam afectadas e o trabalho possa prosseguir normalmente". Os membros das células nunca se encontram juntos num local; na realidade, nem se conhecem; nem estão familiarizados com os meios de comunicação utilizados entre o líder da célula e cada um dos seus membros. [...]
A rede global da Al-Qaeda tem sobrevivido através da simples adesão dos seus membros aos princípios da segurança operacional. Os esconderijos são escolhidos após um estudo cuidado sobre a sua localização - evitar locais isolados, ou desertos - e sobre a natureza da sua utilização: por exemplo, se vão servir para reuniões, para armazenamento, para preparação de armas e munições, para esconderijo de fugitivos, ou para planeamento de ataques. [...] Deve-se optar por instalações térreas por facilitarem as opções de fuga, e todos os esconderijos da Al-Qaeda devem ter planos de emergência para evacuar as casas rapidamente em caso de rusga. Devem ser previstas áreas seguras para esconder documentos, armas e outros objectos importantes, e deve ser dado aos visitantes o necessário disfarce - de estudante ou de funcionário - e evitar ir ao esconderijo em alturas suspeitas. [...]
A Al-Qaeda sublinha a necessidade de um disfarce perfeito, acompanhado de documentos de apoio - um médico deve possuir um diploma médico, de membro de um sindicato de médicos, uma autorização oficial para exercer, ou mesmo um conhecimento rudimentar da prática da medicina. [...]
Ideologia
Para compreender a mentalidade dos voluntários da Al-Qaeda, é necessário analisar o seu sistema de crença e de ideologia de grupo, que se baseia no Islamismo e na prossecução da jihad. Diversos islamitas, incluindo a Al-Qaeda, distorceram - e algumas vezes reinterpretaram - a ideia de jihad enquanto "guerra santa". Lexicalmente, jihad significa a aplicação do maior esforço de cada um para atingir um objectivo ou para repelir algo de detestável. [...]
Os voluntários da Al-Qaeda que cederam às influências psicológicas e espirituais dos ideólogos islamitas dão a maior prioridade ao martírio. Assassinar e morrer por Alá é encarado como a forma mais elevada de sacrifício. [...] Ao condenar o alvo a atingir e reiterar a recompensa do sacrifício, os ideólogos reforçam o apelo da morte em combate. A um nível táctico, a Al-Qaeda utiliza a vontade de morrer dos seus soldados para provocar medo no inimigo.
O terrorismo é apenas uma das tácticas da Al-Qaeda. Enquanto grupo multi dimensional, pode manter o inimigo ocupado em diversas frentes em simultâneo. A ameaça estratégica de longo prazo que coloca à segurança internacional é a politização e radicalização dos muçulmanos, um fenómeno que nem o ocidente nem o Médio Oriente e os países muçulmanos da Ásia têm conseguido combater. Como é óbvio, se os governos e a sociedade civil responderem apenas à ameaça militar da Al-Qaeda, e não ao seu desafio ideológico, a longo prazo a organização não terá dificuldade em recrutar mais terroristas de sucessivas gerações de jovens muçulmanos desencantados.
http://jornal.publico.pt/2004/10/17/Mundo/I13.html
Está em pré-publicação um livro "No Interior da Al Qaeda, Rede Global do Terror" do académico do Sri Lanka, Rohan Gunaratna, um dos mais citados peritos em terrorismo e na Al-Qaeda. Já foi investigador do departamento de prevenção do terrorismo das Nações Unidas, e integra hoje o Centro de Estudos sobre Terrorismo e Violência Política da Universidade escocesa de St. Andrews.
Um pequeno trecho:
A estrutura da Al-Qaeda permite-lhe exercer o controlo directo e indirecto de uma força potente e espalhada pelo mundo. Ao emitir periodicamente declarações, discursos e artigos, Osama bin Laden doutrina, treina e controla um grupo central interno ao mesmo tempo que inspira e apoia quadros periféricos. Para além de explorar as relações da Al-Qaeda com grupos, partidos e regimes islamitas, Osama também procura influenciar o seu comportamento e modo de pensar
Os grupos constituintes da Al-Qaeda actuam como coligação aberta, mantendo cada um as suas estruturas próprias de comando, controlo e comunicação. A coligação tem uma característica única que melhora a sua resistência e permite que as forças se multipliquem em busca de um objectivo específico: sempre que necessário, esses grupos interagem ou fundem-se, cooperando ao nível ideológico, financeiro e técnico.
Para desenvolver o projecto islamita, em 1998 a Al-Qaeda foi reorganizada em quatro entidades distintas mas interligadas: a primeira tinha uma estrutura em pirâmide para facilitar a gestão estratégica e táctica; a segunda tinha uma rede terrorista global; a terceira era uma força de base para luta de guerrilha no interior do Afeganistão; e a quarta era uma coligação aberta de grupos terroristas e de guerrilha transnacionais. [...]
Rede financeira
O conselho financeiro e de negócios gere os recursos financeiros necessários para sustentar a Al-Qaeda. A organização está instalada na maioria dos países que têm comunidades de muçulmanos, quer sejam autóctones ou emigrantes; a sua infiltração torna-se evidente em qualquer local onde viva e trabalhe um muçulmano. Nunca age individualmente, visto que a montagem de uma operação terrorista exige apoio técnico e logístico que tem de ser instalado no local muitas vezes anos antes. No Médio Oriente, nomeadamente no Golfo, a Al-Qaeda mantém o apoio público, embora disfarçado, e também recebe ajuda prática de filantropos e fundações islâmicas, nomeadamente dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita. No mundo em vias de desenvolvimento, as suas estratégias de infiltração estão coordenadas para fornecer bens e serviços aos muçulmanos locais, enquanto que nas democracias ocidentais cria dinheiro para os muçulmanos necessitados do exterior, constituindo a recolha e a canalização de fundos uma óptima oportunidade para obter apoio e recrutamento. [...]
Nenhuma rede se parece com a da Al-Qaeda, apesar de ter algumas características do agora falido Banco de Crédito e Comércio Internacional, que canalizava fundos para a jihad afegã anti soviética e era apoiado por outros grupos terroristas nos anos 80. A resistência da infra estrutura financeira da Al-Qaeda deve-se principalmente à estrutura compartimentada que adoptou desde a sua criação. Dedica a máxima atenção à formação e gestão financeiras, bem como à criação e investimento bem gerido dos rendimentos. O conselho financeiro e de negócios da Al-Qaeda - que inclui banqueiros profissionais, contabilistas e financeiros - gere os fundos do grupo nos quatro continentes. [...]
Formação
O êxito que a Al-Qaeda tem tido na condução de ataques de guerrilhas e terroristas bem coordenados deve-se em grande parte à aposta rigorosa na formação e na reciclagem. A organização produziu diversos manuais de formação, dos quais o trabalho de referência é a obra de 7000 páginas, em vários volumes, intitulada Enciclopédia da Jihad Afegã. Os primeiros dez volumes incluem tácticas; segurança e serviços secretos; armas manuais; primeiros socorros; explosivos; granadas e minas; tanques; fabrico (de armas e explosivos); topografia e levantamento topográfico e armas (em geral). [...]
Como a Al-Qaeda actua em múltiplos ambientes, devido ao seu alcance global, a enciclopédia refere-se a terrenos urbanos, não urbanos, montanhosos, desérticos e de selva. Da mesma forma, o volume dedicado aos explosivos classifica os de acordo com as suas características naturais, utilização, velocidade de detonação, composição, etc. Numa secção explica-se como armadilhar objectos como uma máquina fotográfica, um rádio, um livro, um maço de cigarros, uma garrafa de vinho, um apito, equipamento electrónico, uma lanterna, um bolo, uma barra de chocolate, um tubo de pasta dentífrica, uma escova de cabelo, mobiliário, um aquecedor doméstico, etc. Depois dos objectos pequenos, a enciclopédia sobe de nível, explicando como colocar uma bomba em grandes edifícios, em estátuas e em pontes, e como abater um avião com mísseis Stinger. Toda a obra está escrita de uma forma simples e clara, e o leitor não precisa de ser extremamente culto para conseguir seguir as instruções. [...] A Al-Qaeda utiliza um outro manual, a Declaração de Jihad contra os Tiranos do País (Série Militar), exclusivamente dedicado às operações terroristas. [...]
Tácticas
A rede terrorista global da Al-Qaeda adopta unicamente o modelo celular - também conhecido como o casulo - "composto por várias células cujos membros não têm conhecimento uns dos outros, para que, se um membro de uma célula for apanhado, as outras células não sejam afectadas e o trabalho possa prosseguir normalmente". Os membros das células nunca se encontram juntos num local; na realidade, nem se conhecem; nem estão familiarizados com os meios de comunicação utilizados entre o líder da célula e cada um dos seus membros. [...]
A rede global da Al-Qaeda tem sobrevivido através da simples adesão dos seus membros aos princípios da segurança operacional. Os esconderijos são escolhidos após um estudo cuidado sobre a sua localização - evitar locais isolados, ou desertos - e sobre a natureza da sua utilização: por exemplo, se vão servir para reuniões, para armazenamento, para preparação de armas e munições, para esconderijo de fugitivos, ou para planeamento de ataques. [...] Deve-se optar por instalações térreas por facilitarem as opções de fuga, e todos os esconderijos da Al-Qaeda devem ter planos de emergência para evacuar as casas rapidamente em caso de rusga. Devem ser previstas áreas seguras para esconder documentos, armas e outros objectos importantes, e deve ser dado aos visitantes o necessário disfarce - de estudante ou de funcionário - e evitar ir ao esconderijo em alturas suspeitas. [...]
A Al-Qaeda sublinha a necessidade de um disfarce perfeito, acompanhado de documentos de apoio - um médico deve possuir um diploma médico, de membro de um sindicato de médicos, uma autorização oficial para exercer, ou mesmo um conhecimento rudimentar da prática da medicina. [...]
Ideologia
Para compreender a mentalidade dos voluntários da Al-Qaeda, é necessário analisar o seu sistema de crença e de ideologia de grupo, que se baseia no Islamismo e na prossecução da jihad. Diversos islamitas, incluindo a Al-Qaeda, distorceram - e algumas vezes reinterpretaram - a ideia de jihad enquanto "guerra santa". Lexicalmente, jihad significa a aplicação do maior esforço de cada um para atingir um objectivo ou para repelir algo de detestável. [...]
Os voluntários da Al-Qaeda que cederam às influências psicológicas e espirituais dos ideólogos islamitas dão a maior prioridade ao martírio. Assassinar e morrer por Alá é encarado como a forma mais elevada de sacrifício. [...] Ao condenar o alvo a atingir e reiterar a recompensa do sacrifício, os ideólogos reforçam o apelo da morte em combate. A um nível táctico, a Al-Qaeda utiliza a vontade de morrer dos seus soldados para provocar medo no inimigo.
O terrorismo é apenas uma das tácticas da Al-Qaeda. Enquanto grupo multi dimensional, pode manter o inimigo ocupado em diversas frentes em simultâneo. A ameaça estratégica de longo prazo que coloca à segurança internacional é a politização e radicalização dos muçulmanos, um fenómeno que nem o ocidente nem o Médio Oriente e os países muçulmanos da Ásia têm conseguido combater. Como é óbvio, se os governos e a sociedade civil responderem apenas à ameaça militar da Al-Qaeda, e não ao seu desafio ideológico, a longo prazo a organização não terá dificuldade em recrutar mais terroristas de sucessivas gerações de jovens muçulmanos desencantados.
http://jornal.publico.pt/2004/10/17/Mundo/I13.html