View Full Version : Tour histórico pela Bolsa em Portugal
Uma compilação muito interessante elaborada por João Dinis de Sousa.
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1983 a 1986 - Ascensão Sustentada de uma Mini-Bolsa
O mercado de acções português conheceu um grande desenvolvimento nos últimos anos graças às privatizações e à introdução do sistema de negociação em contínuo. Nesta página procuro dar uma ideia do que foi a história da Bolsa de Lisboa nas últimas décadas. Esta descrição está, necessariamente, resumida e representa apenas o meu limitado ponto de vista como observador e interveniente.
Nos anos imediatamente anteriores a 1973 assistiu-se a uma forte alta das acções, acompanhada de aumento do volume de negócios, premiando uma industrialização bem sucedida, nos anos 60 e 70, pelo antigo regime. Em 1973, o choque petrolífero que varreu a economia mundial causa uma importante queda que ficará histórica. Na sequência da revolução de Abril de 1974 a Bolsa fechou e as principais empresas do país foram nacionalizadas, sem que os accionistas nacionais recebessem uma justa indemnização (ao contrário dos estrangeiros). Em 1977, em pleno PREC, a Bolsa reabre timidamente e assiste-se, logo nos primeiros dias a uma queda vertiginosa do índice BTA (o mais famoso na época), seguida de alguma recuperação. Entre 1977 e 1983 o índice sobe consistentemente à medida que se dissipam os receios de novas revoluções e a situação económica melhora.
De 1983 a 1986 o número de empresas cotadas é de cerca de 20, os capitais sociais muito pequenos, da ordem das centenas ou mesmo dezenas de milhares de contos, e o volume de negócios na Bolsa irrisório, pelos padrões actuais. As empresas mais interessantes neste período são Marconi, Caima, Inapa, CISF, Efacec, Vidago, Torres Novas, Capital Plus (na altura Mabor), F.Ramada, Lisnave, Grão-Pará e Estoril-Sol. Mas as cotações começam a subir em 1983 e subirão fortemente até 1986. Só para dar uma ideia, em 1983 as cotações da Caima rondavam os 7 contos e sobem paulatinamente até perto dos 60 em finais de 1986. Em finais de 1986, a maioria dos títulos mais líquidos está cerca de 10 vezes acima dos valores do início de 1983. Esta formidável performance começa a atrair as atenções, e é então que muita gente entra na Bolsa (eu entrei em Julho de 1986 com 30 contos!). A grande subida entre 1983 e 1986 tem sido, muitas vezes, ignorada nas análises, eclipsada pelo que se passou no ano seguinte, 1987, o ano de todas as loucuras. No entanto ela foi fundamental e muito acentuada: 42% em 1983, 14% em 1984, 150% em 1985 e 69% em 1986! (dados do índice Global do software Finbolsa). Essa performance está expressa no gráfico que se segue. Veja como o volume dispara em 1986 (em 1983-84 o volume negociado médio era de pouco mais de 1000 contos por dia!).
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A subida desde 1983 a 1986 estava bem fundamentada, teve como base vários factores muito favoráveis: a descida das taxas de juro (desde 1985) dos 28% para cerca de 18%, o contínuo aumento dos lucros das empresas, o simples acompanhamento pelas acções da forte inflacção imobiliária, já que a maioria das empresas detinha um significativo património imobiliário, a descida do preço do petróleo, a entrada de Portugal na CEE e a vitória de Cavaco Silva em 1985 (não que os governos deste tenham sido mais favoráveis à Bolsa e ao capitalismo do que os de António Guterres, mas essa semelhança era pura e simplesmente ignorada em 1983-85... Nessa fase, os tempos da revolução e do PREC ainda estavam nas memórias de todos e, para a maioria das pessoas, PS e PSD pareciam bem diferentes...). Por tudo isto, cotações e volumes aumentam, e cada vez mais gente ouve falar da Bolsa, até aí esquecida pela geração pós 25 de Abril. O Expresso publica uma página, escrita por Acácio Gomes, sobre a Bolsa (é, nesse tempo, praticamente o único jornal a fazê-lo) que começa a atrair alguma curiosidade.
Dá bem uma ideia de como a política, naquele tempo, contava, o facto de o índice BTA (o índice de referência até aparecer o BVL 30 em 1990) ter subido 40% em Janeiro de 1986, após a vitória de Freitas do Amaral sobre Mário Soares na primeira volta das eleições presidenciais (desceria parcialmente após a segunda volta, com a vitória do segundo). Veja esse movimento no gráfico seguinte.
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Em finais de 1986, um grande número de empresas faz subscrições públicas e entra na Bolsa. Algumas emissões tornam-se famosas como as da Marconi, BPI, Crisal, Sofinloc e Inapa. Assim, o número de empresas cotadas aumenta para cerca de 40. Os volumes aumentam e uma onda de euforia atinge a Bolsa, a partir de Outubro. Em Novembro e Dezembro há algumas correcções devido a um acelerar de subscrições públicas que secavam capitais no mercado.
Antes de fins de 1986, pode-se dizer que só os visionários investiam na Bolsa. Alguns investidores de longo prazo muito bem sucedidos compraram Marconi a 200$ em 1982 e venderam-nas a mais de 20 contos na alta de 1987, conseguindo multiplicar o capital mais de 200 vezes. Performance ainda melhor conseguiu quem investiu na Caima e ficou sossegado com as acções até meados de 1987... Mas devem-se contar pelos dedos aqueles que, no país todo, realmente o fizeram!
Janeiro a Outubro de 1987 - A Louca Cavalgada
Logo no começo de 1987, a subida precipita-se, com o efeito Janeiro (habitual nos mercados altistas dos anos 80) e rumores de excelentes resultados das empresas. Afluem também muitos capitais estrangeiros à nossa Bolsa (durante 1987 eles dominarão mais de 50% do volume de transacções). Se, em 1986, a Bolsa tinha subido 69%, em 1987 subirá 280% entre Janeiro e Outubro! Depois do crash de 20 de Outubro a Bolsa desce muito, mas ainda fecha o ano a ganhar 59%. Veja aqui a evolução do índice desde Janeiro a Outubro. Note a correcção de cerca de 20% a partir de 4 de Junho (logo após a vitória do PSD com maioria absoluta em fins de Maio; pode considerar-se a pequena alta de Junho como o 1º ombro de um gigantesco cabeça e ombros).
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Durante todo o ano de 1987 sucederam-se as subscrições e (mais para o meio do ano) as OPV's, que fizeram o número de empresas aumentar de 40 para cerca de 150. Mas os capitais sociais postos à venda continuavam a ser reduzidos, pelo que as cotações não paravam de subir, sob a pressão da procura. O limite de subida era de 5% por dia e ele era atingido muitas vezes. As acções que mais subiam eram as que já tinham subido muito anteriormente e que toda a gente apontava como caras. As baratas ninguém as queria (embora tivesse havido uma alta repentina de muitas acções de segunda linha como a Lisnave, Mabor, Papelaria Fernandes e F.Ramada nos últimos meses antes do crash). Subiam mais as Marconi, CISF, Caima (um recorde avassalador: dos 6500$ em 1983 para os 380 contos (!) em Abril de 1987, depois uma incorporação de reservas de 14 novas acções por uma detida que, naturalmente, fez descer a cotação para os 25000$, subindo depois novamente dos 25 para os 227 contos! Uma multiplicação por 500 desde 1983...), Sonae, BPI, Inapa, Sofinloc e Imoleasing. Em Junho dá-se a subscrição da companhia de seguros O Trabalho ao preço de 8000$. Eu participei nela e consegui obter 110 acções, através de várias pessoas. Mal acabou a subscrição, já havia transacções fora de Bolsa a 30 contos e, depois da admissão à cotação, a cotação atingiu os 80 contos. Ganhos semelhantes alcançavam-se nas outras OPV's e subscrições.
Entretanto floresce o mercado fora de Bolsa, onde as cautelas de acções são transaccionadas antes de os títulos definitivos serem admitidos à Bolsa. O volume negociado na Bolsa em cautelas excede o referente a títulos definitivos. Transaccionam-se cautelas nos cafés e restaurantes que circundam a Bolsa. Todas as acções se transaccionam nestes mercados auxiliares, incluindo as de empresas não cotadas como BCP, Ocidental, Torralta, Compal e outras. Chegam a registar-se casos insólitos de negócios envolvendo acções de micro-empresas, como garagens, pequenos supermercados e lojas familiares, transformadas à pressa em sociedades anónimas, com o intuito de impingir as acções a compradores incautos. Em Maio há um pequeno frisson, com a moção de censura apresentada ao governo PSD pelo PRD (Partido Renovador Democrático) que provoca uma queda de 20% na Bolsa. Mas o PSD ganha as eleições com maioria absoluta, e volta tudo a subir mais moderadamente, para tornar a corrigir depois. Assim, de Maio a meados de Agosto o mercado pouco sobe, limitando-se a consolidar os ganhos obtidos até aí (mais de 100% desde o início do ano, mais de 1400% desde Janeiro de 1983!
Lembro-me de, nessa época, ser comum uma pessoa fixar a cotação de uma empresa, esquecê-la durante uns meses e depois, ao voltar a olhar para a mesma acção, vê-la uns 50 ou 100% acima... O que produzia frustração, por se não ter comprado essa acção; a melhor estratégia, durante esse ano, foi comprar blue chips e aguardar... Mas poucos o fizeram sistematicamente. Em vez disso, 99% das pessoas fez muitas transacções, tomando mais valias amiúde e investindo o produto de venda noutras acções logo a seguir, o que raramente ou mesmo nunca batia o mercado (mais certo era o que se vendia continuar a subir e o que se comprava ficar algum tempo sem subir!).
Nessa altura muitos comentaristas começaram a avisar o mercado sobre a iminência de um crash. Acácio Gomes escreveu uma vez qualquer coisa como isto: "Os investidores estão todos a ganhar; até um dia...". Alguém escreveu "Os títulos são bombas ao retardador que explodirão nas mãos de quem os possuir". O conhecido investidor Jorge Figueiredo previu o crash e vendeu tudo antes, mas demasiado antes: terá vendido vários meses antes de Outubro, não usufruindo da enorme escalada de Agosto e Setembro. Os avisos, porém, não arrefecem o mercado. As pessoas só pensavam em ganhar. Investir na Bolsa era igual a ganhar. Só se ganhava. Ninguém, mesmo ninguém, estava a perder. Os que ganhavam gabavam-se dos ganhos aos amigos o que atraía cada vez mais gente.
Finalmente, em Agosto e Setembro, o mercado passa para além da razão. A partir daí, os avisos à navegação tornam-se mais frequentes e contundentes, como as crónicas de Miguel Esteves Cardoso e a famosa frase "gato por lebre" de Cavaco Silva. Miguel Esteves Cardoso escreve, entre outras coisas que "Agora já não saímos com a Isabel, a Marina ou a Helena, em vez disso apaixonamo-nos pela Sofinloc, Locapor, Transbel... Em qualquer restaurante só se ouve falar de Sofinloc, Marconi... Está tudo Portloc!". De uma outra vez escreve "Não se ria destes investidores (ao lado uma foto de investidores no recinto da Bolsa); estão todos ricos".
Então, as cotações começam a subir 5% por dia, sem parar. O gráfico é um arco parabólico apontado para o céu. Todas as OPV's esgotam, com procuras muito superiores às ofertas e entrando na Bolsa 3, 4 ou mais vezes mais caras que o preço de venda. Os empresários que vendem essas participações fazem fortunas de milhões de contos de um dia para o outro, muitas vezes com empresas tecnicamente falidas. É nessa altura que muitas dezenas de novas empresas são admitidas. Algumas das mais importantes blue-chips admitidas em 1987: BCP, Sofinloc, Leasinvest, BES Investimento (na altura ESSI), Lusoleasing, Euroleasing, Chemical (na altura Banco Manufacturers Hanover), O Trabalho. Outras empresas interessantes admitidas nesse ano: Madeirense, Somague, Soares da Costa, Engil, Mota & Companhia, Salvador Caetano, Proholding (na altura Proadec), Sonae Indústria (na altura Novopan), Nobre, Valouro, Fisipe, Papelaria Fernandes, Dom Pedro, Mundicenter, Reditus, Soja, Cipan. A maior parte destas, depois da OPV, entravam na Bolsa com ganhos de 100 a 200% à cabeça.
Nas cervejarias ouve-se falar de Bolsa na mesa do lado. A globalização, nessa época, não estava tão avançada, a sociedade da informação era na cervejaria e não num forum da Internet (mas produzia os mesmos efeitos). É esta conversa jovial, em que a serotonina elevada dos vencedores fabrica os seus sorrisos (ou risos alarves...) que seduz a assistência. Ninguém resiste a tantos relatos de fortunas feitas ou meio feitas. Muitos pais de família respeitáveis que, até aí, tinham investidos apenas 500 contos, investem mais 10 mil. Muitas novas pessoas chegam à Bolsa, pedindo apenas para comprar acções, quaisquer que elas sejam. Lembro-me muito bem de ter visto, em Setembro, amigos meus que nunca tinham investido, começarem a fazê-lo. As cotações estão a níveis incríveis, dezenas de vezes acima dos valores contabilísticos e com PER's de 50 para cima. A situação lembra, obviamente, o Nasdaq em 1999-2000 (e o movimento cabeça e ombros é semelhante). Veja a lista seguinte. Está ordenada por ordem decrescente do Year To Date de 1-1-1987 a 31-8-1987. A Caima está a subir, no ano, 1915%, a Sonae 515%, a Capital Plus (Mabor) 451%, etc. Os PERs (2ª coluna) estão, na sua maioria bem acima dos 50 a muitos acima de 100.
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Em Outubro, as pessoas mais atentas começam a vender. Isto também não tem merecido suficiente atenção dos analistas. O crash foi em 20 de Outubro mas as cotações estavam a descer desde 7 de Outubro. Pior que isso, os volumes atingiram valores muito grandes. Num dia negociaram-se 4 milhões de contos, um montante enorme para a época. Este volume pode parecer pequeno comparado com os actuais (cerca de 10 vezes maiores desde 1998 até agora) mas é preciso ver que agora há as empresas privatizadas, com capitais sociais muito maiores do que os das empresas cotadas em 1987, já houve uma considerável inflacção desde então para cá e, além disso, há negociação em contínuo, com o correspondente trading de curto prazo que, naturalmente, contribui para um mais alto volume diário. Por isso, um volume de 4 milhões de contos, naquele tempo, deve ser considerado muito alto. Com as cotações nas alturas e a começar a descer, só quem não estivesse atento é que não interpretava correctamente o forte sinal de venda técnico. Mas, naquela época, quase ninguém usava computadores e análise técnica...
Os dias entre 7 e 15 de Outubro têm uma importância muito grande, não apenas para a Bolsa, mas para todo o tecido social do país. São os dias em que enormes fortunas são feitas e milhares de pessoas são levadas à ruína. É uma escandalosa passagem de riqueza dos pobres para os ricos, como bem observou, nessa altura, o indignado (e estudioso atento da Bolsa) António Guterres, em entrevista à televisão.
Outubro de 1987 a Outubro de 1988 - O Maior Crash da Bolsa Nacional
O golpe fatal vem em 20 de Outubro, não com a frase de Cavaco, como às vezes se diz, mas com o crash em Nova Iorque (o Dow Jones cai de 2700 para 1700 em poucos dias, descendo 500 pontos só no dia 19 de Outubro). Cheguei à Bolsa no dia 20, sabendo o que acontecera ao Dow Jones, e percebendo perfeitamente as consequências. Quando entrei, a sessão ainda não tinha começado. As pessoas comentavam nervosamente o evento da véspera. Diziam que "cá era diferente", não ia acontecer nenhuma grande descida, mas o nervosismo traía-as. Os rostos crispados fizeram-me compreender que estava tudo perdido antes de a sessão abrir. Nesse dia, houve também uma ameaça de bomba no edifício da Bolsa, o que deve ser interpretado como uma tentativa deliberada de instalar o pânico (não foi preciso, ele já estava instalado) por parte de algum grupo de investidores interessados em tomar posições compradoras (que doidos!).
As cotações começam a descer 5% por dia (o máximo permitido; essa regra absurda não ajudou o mercado em nada, nem impediu o crash minimamente, apenas reduziu a liquidez), e mantêm-se assim durante 3 semanas, acumulando uma quebra de cerca de 50%. A partir daí, a Bolsa não se recomporá até meados de 1989. Ainda haverá um ensaio de recuperação em Dezembro (o 2º ombro de uma formação cabeça e ombros, perfeitamente visível em 1987) mas sem continuidade. É nessa altura que os espertos deslocam o seu dinheiro maciçamente para o imobiliário, que já subira fortemente até aí, mas continuará alguns anos mais em alta. As obrigações também foram, nesse momento, uma excelente aplicação pois, de 1987 a 1990, renderam à volta de 15% ao ano, enquanto as acções sofriam grandes perdas. Veja aqui o gráfico do crash.
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O ano 1988 é passado só a descer, diminuindo o índice cerca de 75% em valor desde o ponto mais alto de 1987. Note as sucessivas rampas descendentes com rebounds pelo meio, cada vez mais espaçadas (11-11-87, 23-12-87, 25-2-88 e 17-5-88), que tanto se assemelham às ocorridas durante o colapso do Nasdaq em 2000. O máximo do pessimismo atinge-se em 19 de Outubro, precisamente um ano depois do crash. Uma tendência baixista persistente nos dois meses anteriores provoca um acentuar da descida durante uns dias, seguida de uma alta súbita. Essa formação é a exaustão de vendas, os últimos pessimistas vendem por estarem fartos de, após um ano, verem tudo a cair. Este é um padrão bem descrito por André Kostolany em Bolsa - A Grande Aventura. Ele salienta que, nessa fase em que o pessimismo atinge o clímax, "as cotações caem como as folhas no Outono" (é curioso Kostolany use essa metáfora e que tantos crashs, mini-crashs e exaustões de vendas se verifiquem, de facto, em Outubro...). Este movimento é interpretado por alguns especialistas como um sinal de recuperação e começa um movimento de ligeira alta até ao fim do ano.
1988 é um ano em que o mercado se desenvolve. Aparecem ainda mais empresas na Bolsa, totalizando umas 200. As mais interessantes admitidas em 1988 e 1989: Sumolis, Cin, Cerexport, Tertir, Locapor, Corticeira, Lusomundo, ITI, Cinca, Hotelagos, Tâmega, BCI, Citibank, C.P.Cobre, Interlog, Soponata, Modelo, Unicer, Soporcel, Cires, BTA, Jerónimo Martins, BCI, BIC, Lameirinho. As primeiras privatizações ocorrem só em 1989: Unicer e BTA.
A Bolsa passa a ser objecto de muitas páginas em publicações periódicas e de programas de televisão, talvez ainda mais do que em 1987. Novos jornais e revistas de informação afirmam-se. A modernização da banca e dos seguros prossegue, procurando os bancos públicos imitar o sucesso do recém-nascido BCP, do BPI e da CISF. É também um período de reformulação dos valores da própria sociedade. Os Portugueses esquecem Che Guevara, Allende, Lenine, o rumo ao socialismo, o marxismo, e passam a admirar Belmiro de Azevedo, Américo Amorim, Bill Gates, Mário Conde, George Soros, descobrindo, ao mesmo tempo, as virtudes do leasing, factoring, private-banking, franchising, benchmarking, downsizing e outros ings. Os jovens licenciados esquecem a guitarra, aparam a barba e passam a dedicar mais atenção ao cartão de crédito e a andar imberbes e de gravata.
É notável que os lucros das empresas aumentam fortemente de 1987 a 1989. Os lucros de 1988 são, em média, 30% superiores aos de 1987, como anuncia na altura o Semanário Económico. Os dividendos aumentam, mas as cotações continuam sem subir devido à falta de confiança.
1989 - Renasce a Esperança
Em meados de 1989 o mercado apercebe-se da continuação da boa envolvente económica e dos baixos preços atingidos pelas acções, e acontece uma alta súbita, em Julho e Agosto. As cotações sobem cerca de 45%. As estrelas do momento são a maioria das blue-chips como a Marconi, CISF, BPI, BCP, Sonae, Mague, Soares da Costa.
Nessa época, mais e mais pessoas começam a usar os computadores pessoais. Surgem os primeiros livros de Análise Técnica escritos em português, explorando indicadores como as Médias Móveis e o MACD. 1989 é também o ano das primeiras privatizações, Unicer e Tranquilidade, marcadas por grande sucesso.
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Note a alta súbita de Agosto de 1989 (dois anos depois da louca cavalgada de 1987!) e o mini-crash ocorrido em meados de Outubro (as cotações caem 15% num dia, a variação máxima permitida nesse ano - tinha mudado de 5 para 15 a partir de fins de 1987...) respondendo a quedas internacionais. Mais uma vez se notou o Efeito Outubro (ou aniversário do crash de 1987). Como se vê, a recuperação desse mini-crash não é consistente, o que permite antever tempos difíceis.
A partir de Janeiro de 1990 as cotações começam a descer e mais fortemente a partir de Março. Essa queda explica-se pelos fundamentais das empresas. Tinham-se tornado baratos em 1988 (com PERs em torno dos 10 para as empresas de segunda linha) mas já estavam algo caros de novo após a alta de 1989. O ano de 1990 é muito mau. Começam a vir os sinais de abrandamento económico. O rebound súbito de Abril não convence e as cotações retomam a trajectória descendente.
1990 a 1991 - A Crise do Golfo
A partir de Agosto de 1990, o Mundo está a braços com a crise do Golfo. As cotações descem cerca de 25% enquanto só se fala de Saddam Hussein e do Kuwait. É um bom exemplo da máxima "Comprar com o troar do canhão e vender ao som da harpa". É a expectativa da guerra que faz descer as cotações, é o começo efectivo da mesma que as fará disparar (um padrão que se repetiu muitas vezes ao longo do século XX em muitos países).
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Note o deslizar das cotações durante o Verão e Outono de 1990 (cerca de 25%), à medida que a situação no Golfo não melhora. George Bush e os seus aliados tinham dado um ultimato ao Kuwait que expirava em 15 de Janeiro de 1991. Note os mínimos da Bolsa atingidos dias antes dessa data. No dia seguinte, expirado o prazo, os aliados atacam o Iraque. O ataque é fulminante logo desde o início e as cotações disparam logo aí (16 de Janeiro). Tornam a cair com a constatação de que a guerra não durará apenas dois dias e tornam a subir gradualmente em Fevereiro e Março, com a continuação das vitórias aliadas.
1991 e 1992 - Demolição Lenta da Bolsa
A partir de Março, concluída a guerra, as pessoas voltam-se novamente para a economia e não pressentem nada de bom. A descida recomeça e o ano de 1991 termina com perdas de 6%, apesar da subida de 20% entre Janeiro e Março. Note o resvalar contínuo das cotações entre Março e Janeiro de 1992. Note o pequeno mini-crash de Agosto, relacionado com a tentativa de golpe de estado na Rússia, logo recuperado depois da derrota dos golpistas e da ascensão ao poder de Ieltsin.
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Entre 1990 e 1993, o processo de privatizações acelera o que traz novas blue-chips para a Bolsa: Centralcer, BPA, BES, BCM, Tranquilidade, Mundial Confiança, Império, CPP, BM (na altura UBP). Outras interessantes a entrar: Barbosa & Almeida, Continente, Banif. Falências sucessivas afastam dezenas de pequenas empresas da Bolsa, sobretudo têxteis, alimentares, construtoras e comerciais.
O ano de 1992 começa com grandes expectativas, pois as taxas de juro começam a descer, embora timidamente. Tavares Moreira prevê a descida das taxas com meses de antecedência. É a integração crescente com a Europa que força esse aproximar das taxas portuguesas às europeias, num processo que só ficará concluído anos mais tarde, com a entrada no Euro. Devido à queda das taxas, muitos investidores esperam uma subida em força da Bolsa mas, em vez disso, só acontece uma fraca recuperação até Abril de 1992, destroçada logo a seguir. Veja como as cotações caem, dramaticamente (a expressão é de Pedro Caldeira, cuja corretora, ao fechar neste ano envolta num escândalo, lança ainda mais desolação no mercado), uns 18% até Outubro, para estabilizarem depois.
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As descidas do índice Global (programa Finbolsa) são de 22%, 8% e 17%, respectivamente em 1990, 1991 e 1992. Se se tiver em conta que os detentores de obrigações ganharam, durante esse período, uns 14% ao ano, compreende-se o ruinoso efeito que esses três anos produziram nos que continuaram expostos ao mercado accionista.
Os anos de 1990, 1991 e 1992 trazem uma nova realidade à Bolsa, que poucos julgariam possível nos gloriosos anos 80: a falência, uma após outra, de dezenas de empresas cotadas. Alguns casos tornam-se famosos, como a Fnacinveste, a Amadeu Gaudêncio e a Somec. Na maioria das vezes, as acções descem para 200 ou 100 escudos e ficam sem se transaccionar durante anos. Esta é uma das causas da diminuição do número de empresas cotadas no mercado oficial. Outra é o caso oposto: as boas empresas, as que sobreviveram à crise, vão sendo alvo de sucessivas OPA's lançadas pelos accionistas maioritários, que as retiram do mercado. Os pequenos investidores acabam por ter que vender, devido a uma lei vergonhosa e anti-constitucional, que dá o direito a um maioritário com mais de 90% a adquirir compulsivamente as restantes acções, a um preço determinado por avaliações muitas vezes por ele encomendadas.
Finalmente uma tendência contrária e muito positiva de aumento da "biodiversidade" da Bolsa são as privatizações, que não cessam desde 1989. Os principais bancos, seguradoras e outras grandes empresas voltam à Bolsa depois de décadas de ausência.
1993:
Recuperação Fulgurante
Os anos de 1992 e 1993 e mesmo início de 1994 são marcados por um grande pessimismo económico. Toda a gente fala de crise, de recessão, de desemprego, de falências. Na televisão, discute-se "os problemas da indústria", "os problemas da agricultura", "a grave situação de...". As grandes empresas multinacionais começam um doloroso downsizing, despedindo pessoal em massa, incluindo quadros superiores. Longe de pensarem em investir, os empresários só pensam em cortar custos, para poupar alguns magros tostões. O imobiliário, cujo ponto máximo tinha sido atingido em 1989-90 entra em crise também. Os escritórios concluídos por empreendedores ousados e imprudentes ficam anos sem se vender. Na Bolsa, os investidores aguardam uma recuperação desde que as taxas de juro começaram a descer mas, em vez disso, sucedem-se as falências.
No início de 1993, algumas pessoas desfazem-se dos últimos papéis, jurando nunca mais voltar à Bolsa. Notei esse comportamento em vários amigos meus. Um deles confidenciou-me "Agora vou vender tudo, está tudo a ir por água abaixo". As cotações estavam baixas. O país estava mesmo em recessão técnica (o PIB desceu 1%). Mas os sinais já presentes de bons dividend yields e taxas de juro a descer não passam despercebidos aos mais calejados. Baseado no que eu já sabia de anos anteriores e dos livros previ, correctamente, que ia haver uma recuperação, pois os últimos pessimistas estavam numa "exaustão de vendas", a abandonar o mercado, e decidi ter, em cada momento, 100% do capital investido nas acções que estavam a ter bons volumes e cotações já ligeiramente ascendentes. Veja a seguinte lista, com os indicadores fundamentais da maioria das blue-chips da época, calculados para a data de 30-04-1993. Dos cinco principais bancos (BCP, BES, BPA, BTA e BPI), quatro estão com PERs entre os 5 e os 10! Os seus dividend yields alcançam, nalguns casos, 7% a 9%. Os PERs da Sonae e da Marconi estavam em 12... Metade das acções estava abaixo do book value (veja o PBV), mesmo neste conjunto seleccionado de empresas! Alguma coisa estava para acontecer...
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De repente, tudo muda e a Bolsa começa a subir. Esta subida deve ser interpretada como uma correcção técnica dos valores extremamente baixos atingidos antes, com os correspondentes dividend yields e PER's atractivos.
Veja a potência do movimento no gráfico.
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Entre Março e Outubro de 1993, as cotações galgam 40%. Há uma pequena correcção de uns 5% em Novembro e Dezembro, para recomeçar tudo a trepar em Janeiro de 1994 (um dos mais fortes efeitos Janeiros da década de 90, a par com 1997 e 1998). Veja como os volumes dispararam entre Outubro de 1993 e Abril de 1994 (o gráfico não mostra o índice principal do mercado, mas sim um índice interno a Finbolsa denominado "1992", pelo que os volumes mostrados não correspondem ao total do mercado). Em Abril, a subida acumulada atinge os 80% em relação aos mínimos de um ano atrás.
A partir daí a Bolsa corrige mais decididamente. Houve um dia de Abril de 1994 em que o índice caiu 5%, uma coisa rara na época, que foi interpretada correctamente como um forte sinal de venda (nos últimos anos, de 1998 a 2001, tais variações diárias tornaram-se vulgares e, por isso, já não são indicação de coisa nenhuma).
Veja aqui as estrelas mais bem sucedidas nesta corrida, num gráfico de evolução comparada. Sonae e Continente chegam a estar a subir 300% e 275% respectivamente, enquanto a Mundial Confiança alcança 150%, a Marconi 75% e o BCP apenas 50%. Sonae e Continente ganharam sobretudo na antecipação dos enormes crescimentos de vendas e lucros que haveriam de conseguir, na área da distribuição, na década de 90, graças à política de desenvolvimento baseada no consumo privado implementada.
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Abril de 1994 a Dezembro de 1995 - Resvalar Lento Exaspera
Sucede-se um bear market que virá a durar cerca de 21 meses, com as cotações a resvalarem lentamente, embora pouco em termos percentuais. Após o primeiro lanço de descida acentuado, de cerca de 20%, até Julho de 1994, o mercado torna-se lateral para, a partir de 1995, começar a resvalar lentamente. Durante 1995 resvalará 16% (variação do índice "Principal", mostrado no gráfico; o BVL 30 desceu apenas 9% em 1995).
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Apesar de a descida ser de pequena amplitude, ela tem repercussões junto dos investidores, pois ninguém gosta de estar a perder muito tempo, e este bear market durará quase dois anos. Por isso, em meados de 1995, muitos investidores começam a abandonar a Bolsa, vendendo as suas acções. Note como o resvalar se acentua em Outubro de 1995, com a chegada das eleições.
Não que o mercado visse com maus olhos a chegada do PS ao poder (as fortes subidas de 1996 a 1998 provaram o contrário; já não se estava em 1986!). Mas via com maus olhos o descrédito em que estava a cair o Governo de Cavaco Silva no último ano e meio e os sinais inquietantes visíveis na economia: muitas empresas ainda em crise (embora o clímax da mesma tivesse sido em 1993), um downsizing ou desaparecimento de muitas indústrias (o que incluía falências de empresas cotadas, um movimento que foi forte entre 1990 e 1995 e quase deixou de se verificar desde então), a invasão crescente das multinacionais estrangeiras, que parecia não darem muitas mais hipóteses aos empresários nacionais, a perda crescente de importância da Bolsa portuguesa em termos internacionais. Será que a indústria ia despedir a maior parte dos operários? Será que ia deixar de haver agricultores?
No entanto, em termos de Bolsa, havia alguns sinais muito promissores. Em primeiro lugar, as taxas de juro e a inflacção continuavam a descer, o que tornava os aforradores menos afoitos aos depósitos e às obrigações.
Segundo, a descida das cotações e o aumento de lucros das empresas e dos dividendos torna, de novo, os yields muito atractivos. Que eu me lembre, só em Outubro de 1988, Fevereiro de 1993 e Novembro de 1995 houve condições tão favoráveis, em termos de comparação entre o yield das acções e o das obrigações. De todas estas situações, a de 1995 foi a mais favorável. Veja a lista dos fundamentais da época. Encontram-se dividend yields entre os entre os 4 e os 7% para muitas blue-chips (Sonae, Efacec e bancos) e vários PERs abaixo de 10 (Os PERs do BTA e do BFE estão abaixo de 10, os do BES e BPI estão em 11, o do BCP em 14).
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Assim, o mercado altista que se seguiu era fácil de prever. Entretanto, as privatizações lançam novas blue-chips na Bolsa: Bonança, Cimpor, Portucel, PT e BPSM. A Marconi é retirada da Bolsa com uma OPA a 6 contos (tinha atingido 1800$ na fase pior do mercado em 1992) e os vendedores têm a opção de trocar por acções PT a 2700$... Muitos não quiseram, achando a PT cara a 2700$...
1996 - Bons Tempos Voltam Sustentados
1996 é um ano sem grande história, com uma subida gradual e sustentada de 35% do índice. As cotações vão aumentando, uns 0,2% por dia, sem pressas e sem mini-crashes pelo meio. Veja a evolução do BVL 30.
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Há um forte efeito Janeiro em 1996, mas o ano é passado em lenta subida. Mais uma vez, trata-se de uma correcção técnica aos fundamentais muito baixos de fins de 1995. Note a consistência do lanço de subida, sem oscilações de maior. O que se passou foi um lento acumular de papel pelos fundos e grandes casas internacionais, devido aos bons fundamentais, baixas taxas de juro e previsão de entrada da Bolsa nacional no índice Morgan Stanley (que ocorreu em 1997). No fim do ano, parecia evidente que a alta estava para durar devido ao aspecto sustentado da subida e ao facto de ela ter sido menos rápida do que a de 1993.
As estrelas são as principais blue-chips: PT, Cimpor, Sonae, BCP, BPI, BES, Jerónimo Martins, Continente, mas não Portucel, nem BTA nem BPSM.
Nessa altura entra a Telecel na Bolsa. Muitos analistas acharam o preço da OPV (7 contos, menos de um terço do valor equivalente de hoje e menos de um sexto do que atingiram em 2000) muito caro, por ser 7 vezes o valor nominal e o PER ser muito alto... Não tiveram em conta o explosivo crescimento do mercado de telemóveis (na altura ainda no começo) que viria a ser sem paralelo em Portugal.
Note também um dia de correcção no início de Dezembro. Nesse dia, em pânico, alguns investidores venderam tudo (houve uma correcção internacional), antecipando um mau ano seguinte!
1997 - Euforia na Bolsa da Globalização
Começa 1997 com subidas muito fortes em Janeiro, depois mais lentas durante os meses seguintes e um novo acentuar da alta em Abril, Junho e Julho. Logo nos primeiros dias do ano há dias consecutivos de subida de mais de 2%, um grande acontecimento para a época e sinal de compra acentuado. Muita gente pediu imediatamente empréstimos para investir nessa altura e fizeram bem. Outros lançaram-se nos recém-criados futuros do PSI 20 com estratégias de buy and hold, uma coisa já raramente vista hoje. Essas decisões trouxeram a fortuna a muita gente. Veja o gráfico do BVL 30.
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Em Abril a alta acentua-se, com a notícia da entrada de Portugal nos índices da Morgan Stanley (só nesse dia o índice subiu 4%, coisa única nesse ano, embora a notícia já se soubesse de antemão). Note como a Bolsa sobe 66% até Agosto. Nessa fase, toda a gente ganhava e andava eufórica, como já não se via desde 1987. Tal como em 1987, aqueles que utilizaram estratégias de buy and hold com as blue-chips mais bem sucedidas dos meses iniciais foram os que mais ganharam. Os que realizavam mais valias nos lanços de correcção tendiam a perder o forte rebound que se seguia e voltavam a entrar longos a mais alto preço.
Começa a afluir à Bolsa uma nova geração de investidores, uma geração que não tem a experiência dos anos 80 mas que se move bem nas novas realidades da Bolsa de fins dos anos 90: alta volatilidade, altos volumes, alta importância das notícias, quaisquer que elas sejam, alta inter-dependência entre as Bolsas de todo o mundo, a existência de um mercado de futuros.
Para investidores como eu, conhecedores de outros tempos, a adaptação a estas novas realidades demorou algum tempo, mas depressa todos se renderam às maravilhas da Bolsa moderna. Algumas novidades essenciais:
- A volatilidade torna-se sem precedentes, sobretudo a partir de Agosto de 1997, como pode ver no gráfico. Desde 1997 até hoje, já houve mais mini-crashes do que de 1983 a 1997!
- Os Volumes aumentam enormemente, chegando a atingir 50 a 200 milhões de contos por dia. O que se sustenta estes altos volumes são as transacções dos day-traders, quase inexistentes antes.
- Tudo se torna dependente dos mercados internacionais, num grau muito maior, nomeadamente do Dow Jones, Nasdaq (embora este tenha ganho muito mais popularidade em 1999-2000, já se começava a falar muito dele em 1997), Eurotop 100, Ibex, DAX, CAC 40, todos eles influenciam as cotações da nossa Bolsa e as pessoas passam a olhar para eles em tempo real. É a globalização na Bolsa.
- Tudo se torna mais "tempo real", as expectativas e os receios passam a ser mais de curto prazo.
- As notícias guiam a maioria dos investidores mais novos, sobretudo relacionadas com fusões, aquisições e OPAs possíveis, o que só os faz ganhar no mercado altista, mas lhes causa grandes perdas quer nos mercados baixistas, quer até nos mercados laterais (tendem a comprar no pior momento, quando a notícia sai).
- Aparecem mais salas de investidores em Lisboa e Porto. A partir de meados de 1997 elas começam a ficar muito cheias, ao ponto de as pessoas se acotovelarem nelas, devido à afluência de novos investidores atraídos pela alta. Essa realidade de salas muito cheias é descrita nos livros como indicando crash eminente mas, como se vê, às vezes ainda demora cerca de um ano desde essa fase até ao crash).
- Surgem novos equipamentos nas salas de investidores, com capacidades tempo real até então raramente vistas: écrans que mostram gráficos e cotações da nossa Bolsa e índices estrangeiros, écrans com cotações de acções estrangeiras, outros com notícias de canais de TV estrangeiros como a CBS, CNN e Bloomberg.
- A Internet torna-se importante, sobretudo a partir de 1998. Mas poucos ou nenhuns prevêem a bolha nas Internet stocks antes de 1999-2000, já no fim dessa bolha...
- Surgem muitos mais analistas técnicos. Os softwares de Análise Técnica como o MetaStock aumentam as vendas.
- O Mercado de Futuros, começa a ser tão importante como o mercado à vista e, às vezes, mais importante ainda.
Em Junho, a EDP é acrescentada à lista das empresas cotadas, o que aumenta o volume negociado significativamente. A OPV é um grande sucesso, ficando as acções em mais de 3 contos, com preço de subscrição de 2200$. Alguns duvidaram que a emissão esgotasse, pois tratava-se da maior OPV de sempre em termos de encaixe. Mas há uma febre nacional em torno desta emissão e muitos milhares de pessoas subscrevem. A maioria das pessoas subscreve 100 a 200 contos. Alguns investem por intermédio de pedidos de várias pessoas e conseguem apanhar milhares de acções.
Outras excelentes empresas admitidas à cotação: Brisa, Sonae Imobiliária, Ibersol, Inparsa, Semapa. A Inparsa resulta de uma cisão do grupo Sonae pouco clara, já que as acções Inparsa iniciam na Bolsa a cerca de 1500$ e ultrapassam depois os 10 contos. Uma subida tão grande resultou da inclusão (duvidosa) da empresa no PSI 20, e de pouca transparência na divulgação das participações detidas (Optimus, Torralta, Sonae Indústria). É possível que alguns tenham feito fortuna com inside trading e Inparsa neste ano.
Em Agosto há uma forte correcção mas o mercado recupera. Em Outubro há um fortíssimo mini-crash, coincidente com o colapso das bolsas asiáticas, naquela que ficou conhecida como "crise asiática". As cotações estiveram a cair 18% em média nesse dia! Sempre o Outubro! Note-se porém, o contraste com 1987: enquanto, em 1987, as cotações caíam só 5% por dia devido à regra que não as deixava cair mais (o que produziu descidas de 70% nas blue-chips), em 1997 "lançaram-se no espaço em queda livre", caíram, nalguns casos uns 30% num dia, mas recuperaram depois.
O índice recupera logo destes contratempos, numa febre compradora. Os últimos 3 meses de 1997 são passados com medo de novos crashes, até que, lá para o fim do ano, o índice BVL 30 sobe para os 3720, acima dos valores máximos de Julho, antes dos meses turbulentos. Este foi, a meu ver, um sinal técnico de grande importância que preconizou a alta de Janeiro de 1998. O ano de 1997 termina com ganhos de 70%, o melhor ano desde 1986.
1998 - Reaprendemos Sempre que Tudo o que Sobe Desce
1998 começa da melhor maneira com uma subida de mais de 20%, só em Janeiro. Alguns eventos previstos, como a Expo 98, a inauguração da nova ponte sobre o Tejo e a entrada no Euro, são antecipados com euforia pela Bolsa. Os fundos da UE não dão mostras de ir acabar. A inflacção está muito baixa, bem como as taxas de juro. Os lucros das empresas aumentaram uns 40% ou mais, de 1996 para 1997. A crise asiática não afecta Portugal tanto como outros países. Todos os sinais são bons. Sobretudo a euforia e o efeito das baixas taxas de juro levam a Bolsa a subir mais 67% até Abril de 1998.
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Veja como as cotações sobem depressa de Janeiro a Abril. Em Abril, com as salas de investidores muito cheias, os volumes historicamente muitíssimo grandes (200 milhões de contos por dia e mais), os PERs já bastante elevados (embora muito menos do que em 1987) e com uma primeira queda súbita de 6% num dia, tudo aconselhava a vender. Outra coisa que me convenceu de que se estava à beira do crash foi a proximidade da Expo 98: o mercado estava há muito a antecipar optimisticamente os bons efeitos desta exposição na economia, e esta estava marcada para Junho... O crash, pela lógica habitual, deveria vir antes de Junho, e as cotações estavam já caríssimas. Nessa altura alguns venderam tudo e saltaram logo para o imobiliário. Este continuou a subir até 2000, enquanto o mercado de acções se afundou, de facto, como os livros ensinam.
Note a queda persistente do mercado até Outubro de 1998. Aí a Bolsa atingiu mínimos, depois de um Verão horrível, em que as quedas de 4 a 5% se sucediam dia após dia. Foi um sell-off a nível mundial.
Porém, nos mínimos de Outubro, quem comprou fez bem, pois as acções não mais atingiram esses valores (até Abril de 2001, pelo menos). Veja a recuperação de mais de 35% desde esse momento de pânico até ao fim do ano.
Em 1998, acentua-se a importância da Internet como auxiliar do investimento bolsista. Surgem vários sites de informação financeira, surgem serviços de cotações por email, muita gente passa a frequentar foruns online sobre Bolsa.
Admissões à cotação em 1998: Colep, Lisgráfica, Cofina, Finibanco, SAG. Note-se que estas empresas não são como as blue-chips privatizadas admitidas em 1997, são empresas mais pequenas. Todas caíram muitíssimo durante 1998 e 1999 e agora, em 2001, estão, na sua maioria, a metade ou um terço do que atingiram nesse ano. Isto sugere que estas OPVs foram uma nova versão, de menor ordem de grandeza, do fenómeno "Gato por Lebre", tão gritante em 1987.
Resumindo, a alta de 1996 a 1998 apresentou os números seguintes: 35% em 1996, 70% em 1997 e 67% até Abril de 1998, num total de 283%.
Se considerarmos que este movimento começou com a subida de 1993, temos que acrescentar as variações de +40% em 1993, de +14% em 1994 e de -9% em 1995, o que dá 457% em 5,5 anos. Uma média de 36.7% ao ano.
Na década de 80, temos as seguintes variações:
42% em 1983, 14% em 1984, 150% em 1985, 69% em 1986, 280% até Outubro de 1987. O total destes anos é, portanto, 2500%. A média anual é de 100%. Veja como a alta dos anos 80 foi extraordinariamente superior à dos anos 90.
No entanto, temos que descontar a bolha especulativa, que foi muito maior em 1987 do que em qualquer outro ano. Vamos considerar os valores de fins de 1988 para a alta dos anos 80 (já sofrendo os efeitos do crash). Obtemos uma alta total, de 1983 até fins de 1988, de 635%. Média anual de 39.4%.
Agora vamos descontar a bolha especulativa de 1998, considerando as cotações do fim de 1998, em vez das de Abril, como o fim do movimento de alta. Assim, a subida em 1998 fica nuns meros 28%. A subida de 1993 até fins de 1998 fica em 327%, o que dá uma média de 27,4% ao ano.
Assim, descontando as bolhas especulativas, obtemos ainda uma alta maior na década de 80 do que na de 90. No entanto, consideremos que a performance das acções se deve comparar com os rendimentos de aplicações alternativas sem risco, como obrigações. Como as taxas de juro passivas, entre 1983 e 1987, chegaram a estar em 30% e terminaram em 15%, com valor médio de uns 22%, as acções, durante a alta de 1983-88, apenas bateram os juros fixos em 17%.
Entre 1993 e 1998, as taxas de juro passivas estiveram em torno dos 6%, pelo que as acções renderam uns 19% acima dessas taxas.
Logo, a performance das acções na década de 90, por comparação às taxas de juro, e descontando os excessos especulativos, acaba por ser semelhante ou até um pouco superior ao conseguido na década de 80.
Claro que a comparação aqui feita ficaria algo alterada se considerássemos outros momentos a limitar os dois períodos considerados. Mas os momentos escolhidos fazem sentido, por serem, todos os quatro, momentos de relativa baixa e relativamente estáveis.
Outro aviso a fazer é que, se considerarmos épocas baixistas e de mercado lateral do mercado (de 1989 a 1992 inclusive), e de 1999 a 2001, obteremos, é claro, uma rentabilidade média das acções bem inferior aos 17-19% acima das taxas de juro que encontrámos antes.
1999 - O Euro! O Euro! E Depois, o Deslizar
1999 começa com um rally súbito, muito acentuado, devido a expectativas de que a entrada no euro produzisse um novo mercado altista. As cotações passam a ser denominadas em euros. Veja como o PSI 20 dispara nos primeiros dias do ano, para cair imediatamente a seguir, ficando a deslizar até Setembro.
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Durante o Verão, como de costume após meses de descida (ainda que ligeira; parece ser importante a duração também), muita gente se começa a queixar e a sair da Bolsa. Corre o rumor de que a Bolsa portuguesa em breve desaparecerá (como se isso, mesmo que acontecesse, acarretasse uma desvalorização das empresas portuguesas). No entanto prossegue o desenvolvimento do mercado. Os volumes são menores que os da fase febril de 1998, mas maiores do que os de 1997.
A Internet começa a ser mais e mais usada. No Nasdaq, cada vez mais observado mundialmente, as Internet stocks já estão em subida há anos e o movimento acentua-se em 1999. George Soros, cometendo mais um dos seus estonteantes erros, prevê um crash nas dot.coms no Verão de 1999 e vende-as todas, deixando de aproveitar a brutal subida que tiveram entre Setembro de 1999 e Março de 2000.
A partir de Setembro, algumas acções começam a subir consistentemente, mas não são todas. Agora as estrelas são as telecomunicações e pouco mais: PT, Telecel, Sonae. Internet stocks em Portugal até Dezembro, só a Cofina e a Pararede, mas ainda ninguém dá muito por elas, altura em que a PTM se estreia na Bolsa. O facto de abrir logo a 39 euros, bastante acima do preço de subscrição de 27 euros, sugere a continuação da alta. Começa a subir fortemente, num padrão altista consistente, pois nunca corrige, nem os volumes se tornam desmesurados.
Muitos investidores ignoram a importância da alta das TMT - Telecommunications, Media & Technologies durante os primeiros meses, só começam a aperceber-se em 2000.
Admissões à cotação em 1999: Teixeira Duarte, Pararede, PTM.
2000 - A Bolha das Dot.coms
Veja a extraordinária bolha das TMT e dot.coms estampada no índice entre Setembro de 1999 e Março de 2000. É visível um padrão cabeça e ombros, embora a amplitude da subida não seja, afinal de contas, muito grande (50%). Ela é muito maior se nos centrarmos nas estrelas, PT, Telecel, PTM, Sonae.
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Em Janeiro há uma correcção forte, com muita gente a temer o fim da alta logo aí. Mas ela continua, cada vez mais centrada nas mesmas empresas (as quatro citadas antes).
É grotesco considerar qualquer destas empresas "tecnológicas". O que é uma empresa tecnológica? Uma que usa tecnologia? Nesse caso qualquer têxtil ou restaurante o é; nesse caso a TAP e a Carris também são tecnológicas, e a padaria da esquina também. Ou devemos considerar tecnológicas as empresas que produzem tecnologia? Assim já parece mais adequado mas, nesse caso, a PT, a Telecel, a Sonae e a PTM continuam longe de ser tecnológicas, tão longe como a TAP ou a Carris, pois não produzem tecnologia alguma. A Efacec faz tecnologia, ela, a Novabase e a Altitude Software talvez sejam as únicas tecnológicas portuguesas que estão ou estiveram quase a estar cotadas... Das três, só as duas últimas têm a ver com a Internet. A PTM, a Cofina e a Pararede montam sites na Web, mas isso não é "ser tecnológico", é "utilizar tecnologia para produzir conteúdos", uma coisa que os pintores, jornalistas e produtores de telenovelas também fazem.
Na categoria de Média, podemos considerar a PTM, a Lusomundo, a Impresa, a Sonae.com, a Media Capital e a Cofina, pois detêm jornais, revistas, portais na Web ou televisões.
Na categoria de telecomunicações temos a PT, Telecel e Sonae.com, mas nenhuma é tecnológica, como já vimos. Portanto, temos, de facto, em Portugal, muitas TMTs cotadas, mas nenhuma, a não ser a Novabase, é tecnológica. Temos tecnológicas que não são TMT. Finalmente, a própria categoria TMT é absurda, pois Telecomunicações e Média já são dois negócios bem distintos, mas então Tecnologias é uma designação demasiado genérica e distinta das outras duas. Parece evidente que o rótulo TMT foi inventado por razões de pura conveniência do marketing bolsista (ajudou a vender muitas empresas que nada valiam por alto preço na bolha de 2000 por esse mundo fora).
Veja no gráfico abaixo como a Telecel, PT e Sonae sobem cerca de 100% e depois perdem quase todos os seus ganhos e veja as subidas brutais, com cabeça e ombros bem visíveis, da PTM e da Terra Networks.
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Até Fevereiro, florescem os movimentos especulativos com small caps também, alimentados por "bocas" nos foruns da Net, que ganham uma popularidade sem precedentes. Cin, Tertir, Sumolis, são alguns dos alvos dos especuladores. Em Fevereiro também, mais coisas insólitas: alguém descobre, de repente, num dia de inspiração, que a Pararede, a Cofina e a Lusomundo também são TMTs e, vai daí, disparam 200 a 400% cada. Depois mais alguém inspirado se lembra de que, afinal, toda a empresa de informática também é uma TMT ou dot.com (parece justo) e, vai daí, disparam a Reditus e a Compta outro tanto.
Em fins de Fevereiro, muita gente começa a falar de uma correcção no mercado. O índice começa a mostrar constância, mas sem cair a princípio. A minha interpretação desse momento crucial foi errónea. Sabia que as dot.coms estavam caras de mais, mas pensei que o mesmo não se podia dizer das telecoms (PT, Telecel, EDP, Sonae), pois ainda tinham PERs aceitáveis e expectativas de crescimento das receitas muito boas. Puro engano. As telecoms também estavam caras em termos fundamentais, sabemo-lo hoje, porque os crescimentos vão ser menores do que o esperado, e vão competir baixando tarifas. Observei os volumes da Bolsa, estavam muito grandes, as salas de investidores muito cheias, mas não se vira o mesmo em 1997? E a Bolsa, nessa altura, subira mais um ano antes da queda, com as salas constantemente cheias. Os volumes, em Fevereiro de 2000, estavam grandes, ao nível dos de Abril de 1998. Isso, só por si, não preconizava queda, pois os volumes tinham tendido a aumentar constantemente ao longo dos anos, devido ao cada vez maior day-trading.
O maior problema era o Nasdaq que estava no pico de uma bolha que só podia terminar em crash. Mas quantos de nós o previmos antes de acontecer?
Acho que uma caricatura caracteriza bem a situação. Vários investidores estão sentados à volta de uma mesa (forum online?), a discutir a situação da Bolsa. Diz um: "Bom, vai haver uma correcção". Diz outro: "Tens razão, também me parece, as cotações subiram muito". Diz um terceiro: "Sim, mas vai ser só de uns 15%, depois volta tudo a subir, pois há uma procura muito alta". Diz um quarto: "Ok, mas que vai haver correcção, vai". Passam-se horas. O mercado não está a corrigir, embora tenha parado a subida, como uma locomotiva à espera. Então, na mesa, uma voz houve-se: "Esperem aí; acho que afinal não vai haver correcção, pois se fosse haver, já tinha começado". Outro responde: "Sim, acho a análise correcta; até porque o mercado nunca reage como estamos à espera, e nós estávamos, há bocado, a prever uma correcção". Outro junta-se ao mote: "Sim, se se falou de correcção e ela não veio, já não vem".
Então, começou mesmo a correcção! A locomotiva começou a descer o desfiladeiro, e que desfiladeiro... Estão a ver? O pensamento contrário também falha às vezes. Todos previram a correcção, e ela aconteceu mesmo. O problema foi niguém ter vendido logo nos primeiros dias... Todos pensavam que ia ser só uma correcção de 10 a 15%. Isso leva-nos à fase seguinte.
Março de 2000 a Abril de 2001 - A Destruição das Ilusões
Mais uma vez, a história repetiu-se. O padrão cabeça e ombros aconteceu pela centésima vez na história dos mercados. Tanto faz que sejam acções dot.com no fim do milénio, de caminhos de ferro no século XIX, de automóveis no início do século XX, de computadores nos anos 60, de navegação nos séculos XVII e XVII, túlipas holandesas, trigo no Japão medieval... É sempre a mesma coisa, as pessoas perdem a cabeça, e pensam, no pico das subidas, que estas ainda são só o começo... Por isso continuam a comprar. Depois, quando vem uma onda de vendas, "todos querem sair pela mesma porta ao mesmo tempo" (expressão de Kostolany). Veja a amplitude da queda.
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Um primeiro lanço de descida destrói 20% do valor do índice. Depois um rebound. Depois cai mais. Continuará assim, sem tendência definida, até Outubro. Aí começa o segundo sell-off a nível mundial. A queda do Nasdaq faz antever tempos difíceis à economia americana e às Bolsas europeias, muito dependentes das telecoms, também.
Durante a queda, que não mostra sinais de inversão sustentada em 6 de Abril de 2001, vão-se sucedendo os rebounds e subsequentes quedas, sempre a níveis mais baixos. Estas oscilações transformam-se num massacre dos capitais dos pequenos investidores, sobretudo dos com menos experiência, pois eles compram nos rebounds e vendem nas quedas, em pânico. Quase toda a Análise Técnica mais tradicional começa a sair furada. Os analistas técnicos que tinham feito furor nos foruns da Net durante a fase altista (o seu sucesso era grande nessa fase, mas igualmente o era o de um investidor conservador, que comprasse para guardar) começam a falhar 70% das previsões. Em cada rebound prevêem "Agora é desta, agora vai tudo subir".
Estes movimentos, que poderíamos chamar de "dialéctica da esperança e do desespero" são típicos das quedas das bolhas especulativas. O primeiro rebound, pouco depois de início da queda, que é curto em duração e grande em amplitude, é reconhecido como o 2º ombro da formação cabeça e ombros.
Veja as semelhanças entre as bolhas seguintes:
1) Portugal, 1986 a 1988.
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2) Portugal, 1996 a 1999.
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3) PT Multimédia, 1999 e 2000.
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4) Dow Jones, 1926 a 1933.
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No ano 2000, aparecem na Bolsa a PTM.com, a Sonae.com, a Novabase, a Impresa. Em todos os casos, houve um marketing enganoso sem precedentes a promover estes papéis. Você sabia que:
a) A Sonae.com anunciou que um grande fundo estrangeiro, o Fidelity, subscreveu na OPV a 10 euros? Quase de certeza o mesmo fundo vendeu tudo logo a seguir entre os 10 e os 11 e, muito provavelmente, tinha acordos informais com a Sonae SGPS ou com o BPI (líder da operação) para nunca perder, podendo estes garantir-lhe isso graças ao afluxo comprador de pequenos investidores nos dias após a admissão à cotação.
b) Para a PTM.com elaboraram-se cenários mirabolantes sobre o crescimento da publicidade online e e-commerce (recorrendo às famigeradas Forrester Research e IDC), permitindo a certos fundos vender na Bolsa milhões de acções, entre os 8 e os 10 euros, quando o real valor da acção talvez nem chegue a 1.5 euros?
c) Que houve um brutal aumento de capital da PTM.com antes da admissão, que diluiu este em 338 milhões de acções, sem que os pequenos investidores ligassem a isso, continuando estes a comprar alegremente a 9, depois a 8, depois a 7, etc?
d) Que a OPT de acções PTM.com por acções PTM congelou a descida da primeira num momento crítico, em que já ia em 5 euros, numa queda vertiginosa, e que a queda do momento do Nasdaq prometia continuação do colapso da PTM.com, provavelmente até 2 euros ou menos? Assim impediu-se um escândalo ainda maior...
e) Que agora, segundo o último grito da moda do marketing bolsista, quando se faz uma OPV, um ingrediente importante é anunciar que algumas instituições importantes também vão comprar as acções, numa óptica de longo prazo, mas que essas instituições têm, muito provavelmente, a sua posição salvaguardada por acordos paralelos?
f) Que outro ingrediente, aquando de uma moderna OPV, é anunciar que está próxima uma parceria para entrada no Brasil, mas que, pouco depois do momento crítico, em que há milhões de acções para vender, essa parceria afinal não se faz, ou faz-se uma coisa simbólica com um portal que nada vale, ou coisa assim?
g) Que, no ano 2000, para uma empresa ser considerada dot.com (ou "tech", ou "TMT"), bastava montar um site na Web?
h) Que a Impresa foi vendida na Bolsa no ano em que as suas vendas de publicidade atingiram o máximo histórico, quando uma contracção das mesmas já se avizinhava, depois de 10 anos em que a SIC foi realmente uma estação de televisão de sucesso crescente? Pelos vistos não houve vontade de partilhar esse crescimento com os pequenos investidores, só houve vontade de vender no máximo...
i) Que tanto a Sonae.com como a PTM.com foram admitidas no PSI 20, sem que essas empresas sequer existissem um ano antes?
j) Que a Sonae SGPS fez uma pressão desesperada, nos primeiros meses do ano, para fazer a OPV da Sonae.com ainda a tempo de vender alto e que isso era crucial para capitalizar um grupo cheio de problemas? E que o conseguiu, à custa do atraso das OPVs de outros grupos económicos, que "também queriam"?
k) Que, desde o início de 2000, já várias blue-chips nacionais estavam admitidas no mercado de futuros mas, curiosamente, a PTM não o foi antes de 2001? E que isso permitiu, durante algum tempo, retardar o colapso da PTM, pois este acelerar-se-ia se o mercado notasse muita pressão "short" nos futuros?
jleandro
07-05-2003, 11:52
eheheh, que tratado....
mas se pensas que alguém vai ler tudo, estás enganado, eheheh
nem em noites de insónia.
trabalho notável, que vou procurar ler amanhã, porque hoje já sei que não tenho tempo.
explendido.
não li quase nada.
aconselho a impressão e leitura cuidada.
este fórum está do melhor...
Bom mesmo, li um terço e depois decidi imprimir, pois o conforto da leitura é maior!!!
Um muito obrigado pelo esforço ao RED
MrChance
07-05-2003, 19:39
Caramba, Red. Onde descobriste o meu álbum de fotografias? Está lá minha vida quase toda. Olha para aquela subidinha brutal em 87, mesmo antes do abismo de Outubro e vês-me lá a dizer adeus para a câmara. Creio que foi aí que nasceu aquela frase "estava à beira do abismo e dei um passo em frente". Foi aí que ganhei os galões de "pato". Com penas...
O João Dinis Sousa da Finbolsa.com é um excelente cronista. E fundamentalista, também. Tem junto com ele o Vasco Soares (já cá veio) mas não se segurou.
li tudo. Demorou mas foi muito giro. E a minha história tambem lá está, mas apenas na decada de 90.
Parabens ao autor pelo excelente trabalho e um grande obrigado ao RED pela iniciativa !
E quem não ler, especialmente a malta nova na Bolsa, não vai aprender muita coisa !
zé povinho
08-05-2003, 21:21
imprimi para ler um dia próximo
aqui está muita da história da nossa bolsa,
foi uma muito boa ideia.
obrigado a quem teve o trabalho.
Evangelian
30-07-2003, 20:59
Acabei agora mesmo de ler :D ... e não posso deixar de comentar
Um trabalho fantástico!! Parabéns e obrigado :o :o
Tenho lembranças que remontam à fase de 1996, quando comecei a acompanhar por fora...
Mas a minha história ainda não esta registada:rolleyes: :rolleyes:
Eu ainda não apareço na fotografia:p :p
Bons Negócios,
Evangelian
Maravilhoso, Red.
Notável Trabalho :)
Para Ler e recordar e aprender.
Mohandas
14-08-2003, 16:48
... com o nome em todos, eheheh...
Já não fazia isto há muito tempo... :D
Sobre a Euronext Lisbon
História
2 DE DEZEMBRO DE 2002
Euronext Lisbon muda as suas instalações para a Praça Duque de Saldanha, n.º 1, 5º A, 1050-094 Lisboa.
2 DE SETEMBRO DE 2002
Membros da Euronext Lisbon têm a possibilidade de negociar todos os produtos do mercado a contado admitidos à negociação nos mercados da Euronext Paris, Amsterdão e Bruxelas.
18 DE JUNHO DE 2002
A Euronext Lisbon lança novos segmentos de mercado de forma a permitir transacções de um dos novos instrumentos financeiros - os certificados.
6 DE FEVEREIRO DE 2002
BVLP altera a sua denominação social para Euronext Lisbon.
30 DE JANEIRO DE 2002
Accionistas da BVLP aceitam, por unanimidade, as condições da "fusão" entre a Euronext N.V. e a BVLP.
13 DE DEZEMBRO DE 2001
Euronext N.V. e BVLP chegam a acordo relativamente às condições financeiras da "fusão".
13 DE JUNHO DE 2001
Assinatura do Memorandum of Understanding entre a BVLP e a Euronext.
30 DE MARÇO DE 2001
Início da colaboração entre a BVLP e o MEFF para o mercado derivados.
2 DE OUTUBRO DE 2000
Início da negociação de warrants autónomos na BVLP.
1 DE MARÇO DE 2000
Alteração do regulamento da negociação a contado, com a introdução de novas regras de negociação, mais adequadas às exigências do mercado. O DL n.º 486/99 veio revogar, entre outras normas legais, o diploma basilar de organização e funcionamento do Mercado de Valores Mobiliários (Código de Mercados de Valores Mobiliários, vulgarmente conhecido como "Lei Sapateiro").
28 DE FEVEREIRO DE 2000
Inscrição da BVLP e dos respectivos titulares dos órgãos sociais na Comissão de Mercados de Valores Mobiliários (CMVM).
10 DE FEVEREIRO DE 2000
Constituição da BVLP por escritura pública, passando esta a ser responsável pela gestão dos mercados regulamentados à vista e a prazo, bem como pela gestão de outros mercados não regulamentados, desde que devidamente autorizada para o efeito.
20 DE DEZEMBRO DE 1999
Realização, em simultâneo, das Assembleias Gerais das duas Associações de Bolsa até aí existentes - Associação da Bolsa de Valores de Lisboa e Associação da Bolsa de Derivados do Porto. Nestas Assembleias foi deliberada a fusão das duas associações de bolsa e a transformação desta nova entidade em sociedade anónima. A nova sociedade, resultante da fusão, alterou a sua designação social para BVLP (Bolsa de Valores de Lisboa e Porto) - Sociedade Gestora de Mercados Regulamentados, S.A.
1 DE OUTUBRO DE 1999
Criação do Sistema de Empréstimo Automático (SEA) de valores mobiliários.
19 DE MARÇO DE 1999
Lançamento do primeiro contrato de opções.
4 DE JANEIRO DE 1999
Início da transacção de acções e unidades de participação em Euros. Consequentemente, toda a negociação, cotações, difusão de preços e liquidação de operações de bolsa passam a ser efectuadas em Euros.
2 DE NOVEMBRO DE 1998
Obrigações e títulos de participação passam a ser negociados em percentagem do valor nominal, encontrando-se o montante nominal na moeda em que a emissão estiver denominada.
21 DE SETEMBRO DE 1998
Início da prestação de serviços no âmbito das operações de empréstimo de valores.
14 DE ABRIL DE 1997
Início da prestação de serviços no âmbito de operações de reporte.
20 DE JUNHO DE 1996
Inauguração Oficial, pelo Senhor Ministro das Finanças, da nova Bolsa de Derivados do Porto, iniciando-se, nesta data, a negociação de contratos de futuros.
1 DE JUNHO DE 1994
Concentração das operações a contado sobre valores mobiliários na Bolsa de Valores de Lisboa, na sequência de um acordo de especialização assinado entre as Associações das Bolsas de Valores de Lisboa e Porto.
25 DE MARÇO DE 1992
Constituição da Associação da BVL, associação privada sem fins lucrativos, constituída pelos membros da BVL.
22 DE JANEIRO DE 1992
Constituição da Associação da BVP, associação privada sem fins lucrativos, constituída pelos membros da BVP.
10 DE ABRIL DE 1991
Publicação do Código do Mercado de Valores Mobiliários ("Lei Sapateiro"), operando-se a transferência da gestão da Bolsa de Valores de Lisboa e da Bolsa de Valores do Porto e seus patrimónios para as respectivas Associações de Bolsa.
26 DE ABRIL DE 1989
Realização, na Bolsa de Valores do Porto, da primeira Operação de Privatização efectuada em Portugal.
27 DE FEVEREIRO DE 1989
Tem lugar, na Bolsa de Valores de Lisboa, a primeira Oferta Pública de Aquisição.
7 DE NOVEMBRO DE 1986
Realização da primeira Oferta Pública de Venda em Portugal, na Bolsa de Valores do Porto.
2 DE JANEIRO DE 1981
Reabertura das sessões da Bolsa de Valores do Porto.
28 DE FEVEREIRO DE 1977
Reinício das sessões na Bolsa de Valores de Lisboa para transacções de todos os valores mobiliários admitidos à cotação.
12 DE JANEIRO DE 1976
Reinício das sessões na Bolsa de Valores de Lisboa para transacções de obrigações.
29 DE ABRIL DE 1974
Suspensão de todas as transacções sobre valores mobiliários, incluindo as realizadas em bolsa, por determinação da Junta de Salvação Nacional.
29 DE JANEIRO DE 1891
Criação da Bolsa de Valores do Porto.
1 DE JANEIRO DE 1769
Instalação da Bolsa de Lisboa, ou mais precisamente, da Assembleia dos Homens de Negócio, a horas de praça, no torreão do lado nascente da Praça do Comércio, juntamente com as mais importantes organizações ligadas ao comércio da Capital.
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