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View Full Version : As pobres vidas dos ricos...ou como eu passo os meus tempos livres...


dudu
01-10-2004, 18:46
Parte 1

coitados

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In revista Sábado

[B]A VIDA PRIVADA DOS MUITOS RICOS

Dos portões da herdade de Américo Amorim até à casa principal são três quilómetros de estrada sempre a andar. Embora esteja

bem resguardada por velhos eucaliptos e uma cintura de edifícios térreos, os turistas podem parar e ver-lhe o pátio de calçada portuguesa e o alpendre gigante coberto de madeira maciça. Até nisso se vê a raça do patrão da cortiça portuguesa. Em qualquer canto parece encontrar um bom negócio, mesmo se for no sítio privilegiado e isolado onde passa uma boa parte dos fins-de-semana e das férias com a família e os amigos. A cinco quilómetros e meio da casa, ainda mais para dentro da propriedade, abriu um hotel rural com 12 quartos a 200 euros a noite e uma filosofia igual à sua: o maior prazer na vida é poder acordar de madrugada, no silêncio total da planície alentejana, e sair para caçar.

O Monte do Peral é uma imensidão de terra com 5.500 hectares a 40 quilómetros de Évora, para sul, e é também uma espécie de manual no qual se pode ler com os olhos como é que os multimilionários portugueses gostam de levar a vida: de caçadeira ou carabina ao ombro, longe dos centros financeiros e dos locais da moda onde as estrelas do jet set nacional lutam pelas páginas de abertura das revistas cor-de-rosa.

Não há sinais de riqueza à vista, mas ela existe e está espalhada pelos cantos da propriedade. Além da cortiça e dos campos de cultivo, milhares de veados, gamos, javalis, coelhos e perdizes passeiam-se tranquilamente debaixo dos sobreiros à espera que abra a época de caça e que Américo Amorim, o homem mais rico de Portugal a seguir a Belmiro de Azevedo - com uma fortuna avaliada em mais de mil milhões de euros -, traga consigo os amigos para as batidas de fim-de-semana.

A lista é extensa e impressiona pela quantidade de fortunas: os filhos do recém-falecido patriarca António Champalimaud (que, juntos, têm 1.100 milhões de euros), Vasco Mello (filho de José Manuel de Mello, cujo património ascende a 700 milhões), Patrick Monteiro de Barros (655 milhões), os irmãos António Manuel Gonçalves e Fernando Manuel Gonçalves (mais de 400 milhões juntos), - Ilídio Pinho (mais de 300 milhões), Joaquim Carlos Silveira (200 milhões), Diogo Vaz Guedes (179 milhões), ]osé Manuel Espírito Santo (150 milhões), Adalberto de Oliveira e Jorge Quintas (ambos da família Quintas, com 195 milhões), Fernando Guedes (135 milhões), Ricardo Salgado (130 milhões) e muitos mais. Alguns são bastante mediáticos, como o ex- -presidente do Benfíca Manuel Vilarinho, por exemplo. Mas nem todos são multimilionários. Há também gestores e advogados de topo entre os hóspedes habituais do Peral: o vice-presidente do PSD, Manuel Dias Loureiro; o deputado social-democrata Tavares Moreira; o presidente da PT, Miguel Horta e Costa; o presidente da Companhia das Lezírias, Salter Cid; o ex-presidente executivo da Caixa Geral de Depósitos, Mira Amaral; o agora ministro da Economia, Álvaro Barreto; e os advogados )orge Neto e Proença de Carvalho. "Facilmente se reúnem ali dois terços do PIE português", diz uma pessoa próxima do distinto grupo de caçadores que, também por uma questão de discrição, prefere não ser identificada.

Ao todo, um pequeno universo de dezenas de pesos pesados, donos da banca, da indústria e do imobiliário em Portugal costuma parar no Alentejo entre Outubro e Fevereiro, nos convívios das caçadas. "O normal é juntarem-se 15 a 20 casais, sendo que uns são mais assíduos que outros", diz a mesma fonte. Se não vão para o Monte do Peral, antigo reduto de Jorge de Mello, que o vendeu a Amorim por um milhão de euros, então vão para os 1.200 hectares da herdade da Espargosa, que llídio Pinho possui perto de Castro Verde, ou para a herdade do Belo, dos Champalimaud, ou para uma das outras propriedades do circulo de amigos mais abonado do País. Não faltam escolhas. E todas têm o conforto, sóbrio e sólido, de qualquer hotel rural de cinco estrelas, algumas até com piscina interior. "São casas bonitas e bem cuidadas, com muitos quartos e grandes salões de jantar", diz a mesma fonte,

QUEM VEM DO NORTE usa transporte aéreo. Esta facção inclui llídio Pinho, os Quintas, Fernando Guedes e os irmãos Gonçalves, que por sorte são proprietários da Heliportugal, uma das maiores empresas de helicópteros. Américo Amorim, ele próprio residente no Porto, não chega a ter um aeródromo particular, ao contrário do seu vizinho José Roquette, cuja herdade do Esporão está separada do Peral apenas por um rio. Basta-lhe um heliporto para as necessidades. Não é uma extravagância, mas a única forma de aproveitar bem o tempo. A viagem de carro do Porto demoraria mais de quatro horas e os fins-de-semana são de uma rotina violenta. A maioria das grandes famílias é muito poupada e nem sequer tem avião próprio. Prefere alugar pequenos jactos no aeródromo de Tires e só os usa para fora do País, quando vai de férias para Palma de Maiorca ou para a Sardenha.

Seja sábado, seja domingo, a alvorada dá-se às 7h00 da manhã, para aproveitar a luz do dia. A variante mais popular é a caça a salto, com batedores de matilhas a direccionarem as perdizes e a obrigarem-nas a levantar voo. Fechado o regime geral, em Janeiro e Fevereiro o entusiasmo vira-se para as batidas ao javali. O que nunca muda é o piquenique ao meiodia, em pleno campo, conhecido por "taco" e que tem direito a mesa e lugares sentados.

"Há normalmente uma estrutura preparada para essas refeições, com estrado e telhado", diz um dos frequentadores habituais. A ementa condiz com o programa ao ar livre e se não são peças de caça é cabrito ou feijoada, sendo que o serviço fica todo por conta dos empregados da casa. "Mas não se pense que há qualquer espécie de requinte. É tudo muito simples."

O requinte é uma coisa subtil entre os muito ricos. Está nas entrelinhas. Por mais simples que sejam, os jantares acabam por ter a sua solenidade. Em algumas herdades, como no Peral ou na Espargosa, é possível sentar toda a gente numa única mesa, muito comprida. E mesmo que se queira manter a frugalidade à refeição, é difícil fugir a hábitos caros, como beber os melhores vinhos do mercado. As circunstâncias ajudam: Fernando Guedes, o patrão da Sogrape, é dono do Barca Velha, simplesmente o mais conceituado dos vinhos tintos, e mesmo Américo Amorim, que não tem tradição na produção vinícola, ganhou uma garrafeira cobiçada pelos mais exigentes enólogos, ao ter adquirido há pouco mais de um ano a casa Burmester.

Como as perdizes acordam cedo na manhã seguinte, os serões raramente se prolongam para lá da meia-noite. Mas sobra sempre tempo suficiente para umas partidas de bridge, canasta, sueca ou king. As cartas arrastam invariavelmente para a mesa conversas de política e economia, em que se traça o estado geral da nação. "São inevitáveis", diz quem frequenta as herdades. "E muitas ideias de negócios nascem ali mesmo, à lareira." O espírito empreendedor dos empresários não tira folgas.

Apesar de desconhecidas do grande público, as caçadas são um velho ritual das famílias tradicionais da economia portuguesa. Já antes do 25 de Abril, os Champalimaud corriam atrás de perdizes na herdade do Belo. E os Mello faziam o mesmo no Peral. A diferença é que agora há uma leva de empresários do Norte que, ao comprar propriedades por atacado no Alentejo, se juntou ao grupo de Lisboa. E que interiorizou os mesmos códigos de conduta, cultivando uma postura espartana e uma aura de segredo em redor do modo como desfruta a vida. Nada de ostentação e exibicionismo. Isso é para as Lili Caneças deste mundo.

A generosidade das salas e a qualidade do que se bebe e se come contrasta com a simplicidade do serviço. Os empregados não andam fardados e não respeitam regras rígidas de protocolo e etiqueta. "Ao contrário do que as pessoas possam pensar, estas pessoas apreciam o trato fácil e familiar."

E é assim com tudo e em todo o lado. Ninguém quer cair no mau gosto de ser demasiado burguês. Instalado na Comporta, onde é proprietário de quase todos os terrenos da região, o clã Espírito Santo dá um exemplo da familiaridade com que trata os empregados. Uma familiaridade tão grande que as governantas mais antigas chegam a receber de presente moradias de praia.

NA REGIÃO DO PORTO, a única casa que se destaca é a de Américo Amorim, que vive com a mulher num palacete do século XIX, outrora propriedade do industrial Miguel Quina. Ilídio Pinho, que tem os seus activos espalhados pelo BES, pela Electricidade de Macau e por um punhado de outras empresas, ocupa uma moradia que, apesar de rodeada por um grande jardim, não destoa dos seus vizinhos de Vale de Cambra. E com os Viola, senhores todo-poderosos de Espinho, onde controlam o casino e a maioria dos negócios imobiliários da cidade, passa-se a mesma coisa. Ninguém diria, ao passar à porta, que aquela família não é apenas rica, é multimilionária.

Há casos extremos de humildade: accionista, em conjunto com a família, da Têxtil Riopele e representante da Jaguar em Portugal, com um património estimado em 300 milhões de euros, José Alexandre Oliveira sente-se perfeitamente no paraíso num simples apartamento do Porto. Aliás, não é um sentimento inédito. Belmiro de Azevedo, o número um absoluto da economia portuguesa, segue-lhe o exemplo. E Soares dos Santos, o patrão da Jerónimo Martins, idem: mora num andar na Estrela, em Lisboa, e mesmo para fazer férias costuma alugar casas na Ericeira e na Quinta do Lago. Não as comprou. Para quê ter mais se o que se tem chega para os gastos?

No fundo, existe uma escola de valores partilhada pela classe. "São homens educados para não se deslumbrarem pelo dinheiro e que incutem isso aos filhos", diz uma fonte ligada a algumas das famílias mais importantes do País. "No Vale do Ave, existem indivíduos com as garagens cheias de Ferraris, mas que em contrapartida devem dinheiro ao fisco e à segurança social.

A maioria dos grandes empresários abomina a ostentação. Quase todos dispensam motorista nas suas voltas privadas e andam normalmente de BMW e Mercedes." São modelos topo de gama - BMW série 7 e Mercedes série F -, mas tudo levaria a crer que, para um cidadão com mais de 100 milhões de euros, qualquer coisa abaixo de Maseratti fosse carro de pobre. Há como que uma profissão de fé franciscana entre os muito ricos portugueses.

Se há um sentimento de elitismo, é na cultura e nos pormenores que ele se revela e não em bólides encarnados, mansões sumptuosas ou etiquetas da Prada, da Yves Saint Laurent ou de outras grifes das revistas. Os senhores do PIB distinguem-se pela tradição e por essa espécie de segredo que parece rodear tudo o que fazem e em que tam

bém estão mergulhados, por solidariedade e decoro, os sítios onde vão às compras. Nenhum dos estabelecimentos que frequentam investe um tostão em publicidade. E essa é a melhor das etiquetas.

Na roupa e no calçado, quer em Lisboa, quer no Porto, a Rosa & Teixeira é um templo incontestado. Os homens da alta roda económica vão lá todos vestir-se dos pés à cabeça. "Vinham cá de calções, acompanhados pelos pais, e nunca deixaram de vir", conta um funcionário. Não há paralelo em Portugal. Excepto a Façonnable, que foi lançada por cá pela Rosa & Teixeira mas que tem agora uma rede de lojas própria, as marcas à venda em exclusivo pelo estabelecimento da Avenida da Liberdade contornam a lógica dos nomes sonantes da moda internacional, sendo as peças escolhidas a dedo em Itália, França e Inglaterra, nas feiras da especialidade. Os clientes habituais preferem o design contido dos sapatos da Todd's ou os fatos elegantes e discretos da Canali.

O PRONTO-A-VESTIR da Rosa & Teixeira não é mais caro do que um Hugo Boss ou um Giorgio Armani: consegue-se comprar um fato por 750 euros e um par de sapatos por 150. No entanto, os tecidos e o corte são irrepreensíveis. Além do mais, toda a elite põe o pé fora do esquema do pronto-a-vestir, encomendando fatos e camisas por medida ao mestre Gomes, o mais reputado alfaiate de Lisboa. Os Espírito Santo têm ainda um conforto acrescido: basta-lhes atravessar a rua para saírem do escritório e reabastecerem o guarda-roupa.

Enquanto os homens provam calças e escolhem gravatas na Rosa & Teixeira, as mulheres dobram a esquina do teatro Tivoli e passam horas no salão de cabeleireiro ou nos gabinetes privados da Ayer, o instituto de beleza mais clássico de Lisboa, onde nem sequer há um letreiro à porta.

Nem seria preciso. Ir à Ayer é uma herança que passa de mãe para filha. Só quem lá vai sabe que ele existe.

Não é que faltem centros de estética ultra-sofisticados em Lisboa, porque não faltam. Mas nunca seria a mesma coisa. No recato da Ayer, sem alarido, quase sem se dar conta, qualquer senhora pode reafirmar as linhas dos lábios com uma tatuagem definitiva como se fosse o mais ancestral e rotineiro dos tratamentos. São preciosidades, um modo de estar que tem que ver com a forma como as funcionárias sabem misturar a eficiência e a naturalidade refinada. Desde os anos 50, quando abriu as portas, que a casa de Jacqueline Arié foi acumulando camadas de charme e de verniz, mantendo intactos os interiores parisienses e a exclusividade do serviço de bar e das vitrinas de roupa bem ao gosto da nossa alta sociedade.

O mundo dos muito ricos é tão pequeno que, no microcosmos multimilionário de Lisboa, dá para percorrê-lo a pé em minutos. No eixo da Avenida da Liberdade, os almoços informais durante a semana encalham muitas vezes no Gambrinus, que, sendo um dos restaurantes mais reputados da capital, tem uma freguesia tão vasta e tão diversa que os banqueiros se confundem no meio de estrangeiros e artistas. "Não fazemos distinções dos nossos clientes. Tentamos tratá-los de forma igual, dos mais pobres aos mais ricos", diz o gerente Afonso Dário.

dudu
01-10-2004, 18:49
Parte 2

O que interessa aos comensais, no fim de contas, é o nível aprimorado da comida e o atendimento sem mácula. "Não olhamos a preços. Compramos os melhores ingredientes que houver no mercado. Mesmo que custem dez vezes mais do que os produtos ao lado, não queremos saber."

Às horas de refeição, um batalhão de 17 empregados está em permanência na sala, incluindo quatro chefes de mesa e um escanção oficial. A média é ambiciosa: um empregado para cada três mesas. E, nos bastidores, 12 cozinheiros em estado de prontidão. "Somos 60 pessoas a trabalhar neste restaurante. Qualquer gestor diria que é uma loucura, um excesso, mas nós não pensamos em vender refeições, pensamos em servir bem."

Quando as circunstâncias o exigem, as idas ao Gambrinus são trocadas pelo desafogo da enorme sala de refeições do Hotel Ritz Four Seasons, não muito longe dali. O restaurante Varanda concilia o cenário luminoso sobre as copas do Parque Eduardo VII e a torre ao longe do Sheraton com a privacidade oferecida pela distância entre mesas, o ideal para almoços de negócios. "Costumam demorar-se", revela um funcionário. "Às vezes podem estar três horas à mesa." Se bem que ao jantar o Ritz exija o uso de casaco, ao almoço isso não acontece. Há, inclusive, um regime de bufete, em que são os clientes a servir-se. É, de qualquer forma, um bufete diferente dos outros, mais distinto. "A comida é apresentada em doses individualizadas", diz Joana Jeunehomme, relações-públicas do hotel que agora faz parte da prestigiada cadeia Four Seasons.

Lisboa esgota-se depressa para os muito ricos. Não há um circuito que os retenha, que os leve a fazer sala depois do expediente diário nos escritórios, ao

contrário do Porto, onde os clubes de elite ainda vão tendo alguma vida própria. Dois deles conservam as mesmas regras de admissão que tinham há meio século: o Oporto Cricket and Lawn Tennis Club e o Clube Portuense, onde uma conta bancária com muitos dígitos não é critério suficiente para passar da porta de entrada.

Misto de intelectuais e burgueses, onde pontuam famílias como os Nicolau de Almeida e os Sousa Guedes, o Clube Portuense é o único que ainda organiza bailes de debutantes, com as filhas a serem oficialmente apresentadas à sociedade rodo

piando em trajes de gala. É também o único que ainda respeita a soberania implacável da bola preta: qualquer candidato a membro é sujeito a votação secreta e se no final sobrar uma bola que não seja branca a tentativa de ascensão social termina ali, sem honra nem glória. Embora pouco lá vá, Artur Santos Silva, o patrão do BPI, é membro. A sua ausência é justificável: a família Santos Silva está em todas as listas de clubes da cidade, incluindo o Ateneu Comercial do Porto. Para que fosse a todos, o banqueiro teria de antecipar a reforma.

Artur Santos Silva prefere gastar o seu tempo a percorrer a Foz de bicicleta e dá-se ao luxo de nem sequer frequentar o cobiçadíssimo Oporto Cricket and Lawn Tennis Club, fundado em : 1855 pelos produtores de vinho ingleses e tão ou mais impenetrável que o Portuense. Há quatro anos que as portas estão fechadas a novos membros. A lista de espera já ultrapassou os 40 nomes. Para se ter uma ideia: só para atingir a categoria de candidato é preciso ser-se proposto por dois sócios portugueses e dois sócios ingleses.

Quatro sponsors no total. Mas nem isso chega, porque não pode haver mais portugueses do que ingleses entre os membros e a quota nacional está esgotada. Neste momento, há 180 famílias portuguesas com o privilégio de poder usar o relvado de críquete, a piscina e os quatro campos de ténis em terra batida que o clube possui em pleno Campo Alegre. E com o privilégio de

se poder cruzar com os Symington, da Warre e da Graham, e os Robertson, da Taylor's, os últimos representantes da dinastia de vinicultores ingleses do Porto, no restaurante forrado a madeira e a retratos a sépia, onde durante a semana é exigido fato e gravata e onde as crianças estão proibidas de entrar.

O problema das vagas não se colocou com Américo Amorim, que fez uma entrada de leão no clube inglês, juntamente com duas das suas três filhas, Marta e Luísa, mais o sobrinho António, servindo-se dos lugares disponíveis para a casa Burmester, de que agora é dono. "Temos sócios corporate, que estão associados a empresas", esclarece Anabela Marques, administradora do clube. Foi desse modo que Belmiro de Azevedo também entrou, embora tenha acabado por entregar o cartão há um ano, depois de descobrir que nunca lá ia. Já o filho Paulo Azevedo, presidente da Sonae.com, e a sua mulher, alemã, são frequentadores assíduos. Moram perto, aproveitando para levar as crianças e jogar ténis. Qualquer um desses novos health clubs que andam a abrir em todo lado tem mais conforto e sofisticação na arquitectura e nos equipamentos que a sede do clube inglês. Mas nenhum deles tem uma mesa de bilhar gigante na cave, ao lado do recinto de squash, para se jogar a sério. O que conta são pormenores como este. E os nomes de família, claro.

EM ESPINHO, encostado à pobreza visível do bairro de pescadores de Silvade, o Oporto Golf Club prova que o princípio da simplicidade é universal entre os multimilionários. O mais antigo campo de golfe da Península Ibérica, e um dos cinco mais antigos da Europa, aberto em 1890, é bem capaz de ter o club house mais modesto de Portugal inteiro. É uma moradia térrea de madeira, com uma pequena esplanada virada para o green e duas salas members only, de maples axadrezados e pequenas mesas de apoio. Só que, a par do Lisbon Sports Club, em Belas, é o último dos clubes de golfe só para membros. E onde, mais uma vez, Artur Santos Silva é sócio. Não joga, mas de vez em quando aparece para jantar.

A linha dura do Oporto concentra-se em Ilídio Pinho e sobretudo na família Violas, que mora ali a dois passos. O pai e administrador do grupo Solverde, sócio número 30, não larga os tacos e desde muito cedo que levou o filho Manuel Violas júnior pelo mesmo caminho.

Hoje com 16 anos, o rapaz tomou tanto gosto às tacadas que se sagrou campeão nacional em 2003 na sua categoria e vai estudar para uma universidade nos Estados Unidos onde o golfe tem o mesmo papel que o basquetebol noutras escolas americanas, num regime já de semiprofissionalização. Curiosamente, o título de campeão foi-lhe roubado este ano por um descendente da família Manuel Gonçalves, que irá também para os Estados Unidos no mesmo esquema.

Normalmente, os Gonçalves costumam parar mais na Póvoa de Varzim, no Esteia Golf Club, bastião da família Quintas, que fundou o campo em 1989 e que recebe lá os amigos. No círculo íntimo contam-se os Oliveira, da Riopele, em mais uma natural concentração de fortunas ao fim-de-semana.

A DISPERSÃO é muito maior na zona de Lisboa, e especialmente em Cascais, numa relação proporcional ao número de campos. Com excepções. No caso de Miguel Champalimaud, sobrinho do patriarca António, e de todo esse ramo da família, a escolha é óbvia: como são donos do seu próprio clube, é lá que vão. Inaugurado em 2001, o Oitavos Golf fica na fronteira da Quinta da Marinha com o Guincho e tem uma arrojada sede de poltronas largas e paredes transparentes sobre as dunas.

Os mais tradicionalistas, no entanto, mantêm-se fiéis aos velhos campos. Jorge Jardim Gonçalves, o presidente do Millennium BCP, preocupa-se tanto com a segurança pessoal - tem guardas de plantão na sua casa de Galamares - que é natural que prefira o sossego do Lisbon Sports Club, entre Belas e Pêro Pinheiro, o único green onde não há casas nem curiosos por perto. Só pi

nhal e 18 buracos.

E depois há os irredutíveis. Para Francisco Pinto Balsemão, a questão de se decidir por um sítio nem se põe porque foi o sítio que decidiu por ele. Branca, clássica e igual a milhares de casas da classe média alta, a moradia que o patrão da SIC construiu nos anos 70 está plantada no meio do golfe do Hotel da Quinta da Marinha. Aliás, em frente ao buraco 1. Há mais de 20 anos que para si o domingo começa quando desce a rampa da garagem guiando o seu carrinho privado e, alguns metros depois, tira o taco do saco. Nem motorista, nem helicóptero. Vidas simples.

AS FÉRIAS
O hotel flutuante de Monteiro de Barros

- "Passo dois meses e meio por ano no mar alto", admite Patrick Monteiro de Barros à SÁBADO. Seguramente um dos seis homens mais ricos do País, com uma fortuna pessoal de mais de 650 milhões de euros, o accionista da PT e do Grupo Espírito Santo representa a verdadeira vida de sonho que os remediados imaginam que os ricos têm.

O veleiro, onde esteve de férias a assistir com a mulher, durante duas semanas, à última edição dos Jogos Olímpicos, na Grécia, não fica a dever nada aos melhores hotéis de Atenas. Com 37 metros de comprimento e uma tripulação de seis elementos, o Selim é uma casa flutuante que o empresário equipou com computador, telefone e fax, de onde consegue acompanhar os negócios do seu império económico. "Se pudesse estava o ano inteiro no mar, mas não posso. Por isso acabo por fazer alguns cruzeiros." Ou seja: sempre que lhe apetece, mete-se num avião e vai ter com o barco onde quer que ele esteja atracado.

E quando não está a navegar no Selim, é como se estivesse. "Em Janeiro estávamos pelo Cabo Horn, depois passámos pela Punta del Este, no Uruguai, dai fomos para as Canárias, seguimos para o Mediterrâneo e fizemos a manutenção em Palma de Maiorca, onde há bons estaleiros."

Monteiro de Barros faz vela desde os 8 anos e teve o seu primeiro barco com 13, um Moph de três metros e meio. Actualmente, além do Selim, tem outra embarcação com um nome original: Etecétera. "Comprei-o há 12 anos. É um barco de quilha de três tripulantes, da classe Dragão, que foi série olímpica até 1972 e que agora está outra vez na moda."

O empresário partilha a paixão pela vela com outros multimilionários portugueses. Um deles, que o acompanha desde a infância e que também costuma navegar todos os Verões pelo mar Mediterrâneo é Ricardo Espírito Santo Salgado, o homem que está à frente da par

te financeira do Grupo Espirito Santo.

O RESTAURANTE

26 euros por um robalo

O restaurante do Hotel Ritz é uma conjugação absolutamente irresistível para a alta finança, que o frequenta no dia-a-dia, em almoços de negócios. O salão é comprido e alto, com muito espaço entre as mesas, e antes de se chegar lá passa-se por um outro grande salão, onde ha um pianista a tocar.

Tudo isto está mergulhado numa luz quase excessiva. As janelas são gigantes. A ementa é cuidada e os preços não vão além do que se pede num restaurante médio em Londres: 26 euros por um robalo marinado com legumes provençal, parfait de gaspacho e óleo de camarões ou por uma cataplana de camarões e amêijoas. Os empregados são atenciosos sem chegarem a ser intrusivos. "Há uma simpatia natural no serviço. Tudo é feito com naturalidade", diz Joana Jeunehomme, relaçõespúblicas do hotel.

Brinquedo de rico BUGATTI EB-110

Proprietário: Hipólito Pires.

É um luxo italiano. O carro vale 500 mil euros e é a mais valiosa das peças de colecção do patrão da Hertz Portugal.

Tem 560 cavalos de potência, 3.500 cm3 de cilindrada e consegue atingir, em pista, os 340 qui

lómetros por hora.

O CLUBE

Mulheres só à hora do lanche

- Por mais que vá acima e volte abaixo, quem corre a Rua do Campo Alegre, no Porto, não dá conta de que existe alio clube mais elitista da cidade. Só passando debaixo de um prédio e indo ao fundo de uma rua sem saída se descobre a entrada do Oporto Cricket and Lawn Tennis Club, fundado em 1855 e instaladoalidesde1968, quando se deu a fusão entre o Oporto Cricket e o Oporto British Club.

Nos dias úteis, são sobretudo os ingleses que frequentam as instalações: os reformados vão ler os jornais para a biblioteca e as jovens mães, casadas com gestores a trabalhar na cidade, brincam com os filhos na piscina. Os portugueses dedicam-se mais ao ténis. A procura tem sido intensa. "Há cada vez mais pais a pôr cá os filhos nas aulas", diz a administradora Anabela Marques.

Mas a maior atracção no clube inglês ainda são as partidas de críquete. A equipa da casa tem apenas um português entre os seus elementos e recebe regularmente equipas de fora, vindas de Inglaterra. Quando isso acontece, as mulheres ficam a assistir à distância, da esplanada, e só se juntam aos homens depois, à hora do lanche, como mandam as boas regras de etiqueta britânica.

Ao longo do ano, há encontros tradicionais em que os membros se reúnem. Normalmente, os portugueses limitam-se a comparecer no almoço de Natal. Em Abril os ingleses comemoram o dia de St. George, o seu padroeiro, e em Novembro é a vez de os escoceses celebrarem o dia de St. Andrew. Vestem kilts e há um gaiteiro vindo expressamente da Escócia.

dudu
01-10-2004, 18:50
Parte 3

O ALFAIATE O mestre da Rosa & Teixeira

É a boutique dos banqueiros, dos industriais e dos políticos. Nas vitrinas de vidro e madeira, o pronto-a-vestir de marcas exclusivas italianas e francesas, importadas apenas pela Rosa & Teixeira, é arranjado por um vitrinista francês. Mas se o rés-do-chão impressiona, na cave o requinte sobe alguns degraus. Aí funciona a alfaiataria, controlada ao milímetro pelo senhor Castro, o dono da loja. É ele quem desempacota os tecidos comprados lá fora, das melhores colheitas, e os dobra ao seu jeito. São como um corpo vivo, não podem ser dobrados de qualquer forma." Na cave da Rosa & Teixeira existe aquele que deve ser o maior gabinete de prova no País: uma sala oval com 10 metros quadrados, uma poltrona e espelhos colossais, que se movem com um dedo, ao jeito do cliente. É nesse espaço que é tirado o molde pelo mestre Gomes, considerado o melhor alfaiate da capital, que abandonou o seu próprio estabelecimento para servir a Rosa & Teixeira. Para o ajudar, o mestre tem três alfaiates consigo.

Além dos fatos por medida, feitos ali mesmo numa verdadeira fábrica artesanal de roupa, com um pequeno exército de costureiras, fazem-se também camisas por medida. E, para isso, há um camiseiro especializado. O preço é a última coisa que os clientes querem ouvir. O que mais os preocupa é saber como podem eventualmente passar à frente na lista de espera. Alguns empresários, que convivem com o senhor Castro desde crianças, telefonam-lhe directamente a encomendar roupa. "Escolha por mim", costumam dizer. A confiança é total.

O champanhe da Hermes

A Hermes é um símbolo de elite e bom gosto em Lisboa. E um baluarte também do poder económico, onde umas sandálias custam facilmente 500 euros e um saco de praia 400.0 atendimento ao público condiz com a imagem de topo da loja: oferecem chocolate e champanhe. "Os nossos clientes são como se fossem da família", diz a directora, Mónica Guimarães. Uma outra cortesia da Hermès é fazer a entrega das compras em casa dos clientes, para que eles possam continuara passear pelo Chiado sem sacos nas mãos.