View Full Version : Índia
MrChance
23-10-2004, 13:26
E não é que está a ficar cada vez mais interessante? Ganhámos um cronista e peras. :)
Massarico
09-11-2004, 17:35
Para quem vem do lado de Jodhpur (do outro lado só de camelo), a visão de Jaisalmer é absolutamente fantástica: no meio do Deserto do Thar, no cimo de um morro, ergue-se uma fortaleza em pedra, com torreões arredondados, enorme. Parece que mudámos de país e que estamos algures no meio da Turquia ou no Médio Oriente. Agora, às vacas, cães, burros, porcos, juntam-se os camelos.
Na antepenúltima paragem do autocarro, entram uma série de pessoas conhecidas como “touts”, cujo objectivo é levar-nos para os hotéis que promovem. Somos então rodeados por meia dúzia de pessoas a tentar convencer-nos a ir ver hotéis. Na paragem do autocarro, a coisa agrava-se: a polícia não deixa que o magote de gente que está na paragem se aproxime do autocarro, mas eles empunham cartazes com os nomes dos hotéis e vão gritando para que os acompanhemos. Já tínhamos decidido que nos instalaríamos no “Desert Boys”, aconselhado pelo nosso guia “Lonely Planet”, instrumento fundamental que descobri em Marrocos e que desde então (1997) me acompanha em Portugal e no estrangeiro. O problema é que a Índia é um país cheio de esquemas e de espertalhões, como se verá. Quando saímos do autocarro, vi o senhor do Desert Boys e gritei por ele, pelo que os outros se afastaram e lá fomos com ele até à entrada do Forte, já que não é permitida a circulação de automóveis dentro das muralhas: nem a polícia deixa, nem eles cabem. Lá carregamos as mochilas, sempre a subir, durante um quarto de hora. Aquilo é no meio do deserto, por isso podem imaginar a temperatura agradável que estava, muito propícia a estes “desportos”.
O Desert Boys é um hotel muito engraçado, com os quartos bem decorados e, os que se encontram à volta do pátio central, em condições. O problema é que estes já estavam todos ocupados, pelo que eles nos deram um quarto grande, mas não no sítio principal. O quarto só tinha dois problemas: tinha duas divisões, e numa delas, que dava acesso à casa de banho, estava um lavatório, mesmo ao lado de uma cama; a sanita pingava com abundância para fora. Lá lhes dissemos que aquele não podia ser, e que nos arranjasse uma alternativa. Arranjou, mas que alternativa. Levou-nos para um quarto já fora do complexo principal que, apesar de bem decorado, tinha uma casa de banho miserável: em cimento não pintado, sem autoclismo nem lavatório.
Muito cansados e com alguma fome, pousamos as coisas e fomos comer a pior refeição das férias: uma lasanha vegetariana. Durante o almoço, decidimos que não ficaríamos naquele pardieiro, e que iríamos à procura de outro hotel. Ao vaguear pelo forte, encontramos o Suraj Haveli ou, traduzindo, o Palacete Suraj. Este hotel (ou guest house, como por lá se chama a estas pequenas unidades hoteleiras de gestão familiar) é um palacete em pedra, antiga residência de mercadores ricos cujos descendentes, agora pobres, exploram como hotel. As paredes, colunas, janelas e varandas são em pedra trabalhada, a fazer lembrar arquitectura árabe, identificando-se perfeitamente com o resto do forte e com os templos jainistas seus vizinhos. O nosso quarto era enorme, com uma sala grande e um quarto, com uma casa de banho limpa e funcional. O hotel tinha uma certa aura decadente que lhe dava imenso charme.
Lá se repetiu, sem cansar, um deambular sem destino nem objectivo pela cidade (apenas dentro do forte), em que tiramos inúmeras fotos, dirigindo-nos, ao final do dia, para um local previligiado, aconselhado pelo gerente do hotel, para ver o pôr do sol (muito fraquinho) e tirar fotos apanhando a totalidade do forte. Claro que aquilo não poderia deixar de ser um engodo para o otário do turista, e custou-nos tão só 60 rupias por cabeça, mais o auto-riquexó até lá (50 rupias a dividir por três). Tendo o hotel ficado em 200 rupias por cabeça, a proporção é elucidativa. Mas enfim, uma viagem sem levar com uma destas não é viagem não é nada.
À noite jantámos num hotel (de que agora não me recordo do nome) cujo restaurante fica mesmo na muralha do forte, tendo nó ficado numa “mesa” (come-se à japonesa, sentado em almofadas) numa varanda na muralha, com vista para a cidade extra-muros e para o deserto. O jantar foi magnífico e a vista também. Bebi cerveja!!!!
No dia seguinte fomos visitar o depósito de água, um lago artificial com alguns templos, mas sem um interesse especial. Ou melhor, se aquilo fosse numa cidade europeia, talvez fosse especial, mas na Índia a comparação é sempre entre as pessoas e os monumentos, e aquelas saem normalmente vencedoras. À tarde, partimos para o nosso passeio pelo Deserto.
Este passeio foi feito de camelo, o que lhe dá uma perspectiva interessanto, principalmente para quem, como eu, já conhece o Sahara, mas apenas de carro. O camelo, se uma pessoa conseguir encontrar a posição correcta, não é tão mau como isso, e permite um passeio calmo e sem grandes stresses, o que já não pode dizer-se quendo se viaja de carro.
O Deserto do Thar é consideravelmente menos agressivo que o Sahara, pelo menos nas partes onde estivemos, possuindo bastante vegetação (para um deserto, evidentemente), sendo o terreno também mais suave e não com aquele aspecto absolutamente desolador das planícies de brita de Marrocos. Pode dizer-se, portanto, que é um deserto relativamente soft. Apesar de o passeio não ter entrado dentro do Deserto em profundidade (de camelo isso é coisa para demorar uma semana), dá para perceber que é diferente do Sahara.
Dormimos ao relento, no deserto, depois de alguns stresses com ratos, que não nos deixaram em paz até ao final do jantar. Nessa noit tivemos uma conversa muito interessante com um dos guias, sobre cultura e religião. Ele tem 22 anos e a vida dele é falar com turistas ocidentais. Mesmo assim, está à espera que os pais combinem o casamento (a noiva já foi escolhida, e ele só a viu em fotografias, e às escondidas). Quando lhe perguntamos porque é que se dispõe a arriscar casar com uma pessoa que nunca viu e que não conhece de todo, dá-nos uma resposta desoncertante: é o karma. Sendo o karma (uma espécie de destino, fado) inevitável e colado à pessoa, dependente das suas vidas passadas, conhecer a pessoa com quem se vai casar é irrelevante. Será feliz se se tiver portado bem nas suas outras vidas. Caso contrário, espera-o a infelicidade, mas por culpa dele, das asneiras que fez no passado.
Outra coisa ainda mais curiosa, sendo ele quase de certeza de uma casta inferior, é o facto de ser o mais favorável possível em relação ao sistema de castas e sua determinação actual (no início, a casta de cada um não era determinada no nascimento, mas só quando se chegava à vida adulta, dependendo da sua ocupação). Apenas se revoltava quanto ao facto de as castas superiores, em especial os Brahmanes (a casta mais elevada, uma espécie de clero) que deixaram de ser vegetarianos, alambazando-se com carninha e álcool às escondidas. Enfim, foi uma conversa interessantíssima.
No dia seguinte, após um sono de inocente, lá seguimos de camelo de volta à cidade, passando por uma vila provisória, cuja visita não correu pelo melhor. Fomos imediatamente rodeados por montes de miúdos a pedir dinheiro, alguns de uma forma até um tanto agressiva. Eu, que não tenho experiência em visitar este tipo de aldeias, fiquei um bocado incomodado. Mas a minha amiga mais experiente, que já passou por meio mundo (incluindo meia África) ficou ainda pior. Diz ela que nunca passou por uma situação daquelas, e que a coisa foi confrangedora. Demos dinheiro ao chefe da aldeia, como é normal, mas a mais ninguém, e fomos embora.
Paramos num oásis (nada tem a ver com os do Sahara, sem palmeiras nem riachos) onde almoçamos e esperamos pelo jipe que nos deveria levar de volta à cidade. Enquanto esperávamos, e com os nossos guias a dormir, apareceram umas senhoras já com alguma idade que tentaram comunicar connosco: perguntaram alhos, ao que respondemos bugalhos, e foi uma confusão de conversas que ninguém se entendeu até um dos guias acordar e fazer a tradução da coisa. Fomos para Jaisalmer, descansámos e jantámos.
Depois do jantar, carregados como mulas (falando por mim, levava a minha mochila de 60 litros com uns 22 Kg e a mochila da fotografias, que inclui os guias, e que pesava aí uns 4 ou 5 Kg.) dirigimo-nos à praça de táxis. Eramos três pessoas com seis mochilas e, como não havia táxis, apanhámos um auto-riquexó, por 50 rupias. Autênticas sardinhas em lata. A meio da viagem, o nosso amigo fica sem caixa de velocidades, pelo que pára o veículo e desaparece a correr. Lá ficámos no meio da estrada, de noite, enquanto ele ia chamar alguém. Lá veio um auto-riquexó em versão natalícia ou carnavalesca (as opiniões dividiram-se quanto ao estilo), profusamente decorado com bonecada e fitas prateadas, e toda a parafernália de “indianada” que se possa imaginar. Felizmente era maior que o outro, pelo que a segunda parte da viagem foi feita com um ligeiro acréscimo de conforto.
Lá chegamos à estação, a mais organizada, calma e limpa de toda a Índia, de acordo com fontes locais. Eu só posso assegurar que era luxuosa face a qualquer outra em que entrei. Mas não deixava de ter uma vaca a passear alegremente pela plataforma.
Desta vez, no combóio para Jodhpur não socializamos com ninguém, porque adormecemos ainda o combóio não tinha arrancado, e só acordamos às 5h30 da manhã, quando chegou à estação de Jodhpur. Nem tínhamos ainda visto o guia para esta cidade, pelo que não tínhamos qualquer noção do hotel para onde queríamos ir.
Mas esta parte da viagem fica para o próximo capítulo, que espero que demore menos que este.
jleandro
10-11-2004, 15:56
só para que saibas que continuo atentamente a ler a tua viagem
darkmoon
14-11-2004, 18:40
Estive a pôr a leitura em dia. 5 estrelas!
Ansioso por mais aventuras ;)
MrChance
14-11-2004, 21:49
Está viciante. Que mais irá acontecer?
Massarico
15-11-2004, 18:46
Chegados a Jodhpur pelas 5h30 da manhã, sem a menor ideia de onde íamos ficar instalados, decidimos ficar na plataforma da estação a estudar o guia, de modo a evitar o mar de gente que está no átrio à caça de turistas. Não fomos, contudo, bem sucedidos nesta tarefa – logo veio um mais afoito propor-nos uma estadia num magnífico hotel do tio. Na Índia todos os donos de hotéis têm catrefadas de sobrinhos, e todos os sobrinhos têm catrefadas de tios donos de hotéis. Um observador mais distraído poderia mesmo garantir que metade da população são prósperos tios donos de hotéis e a outra metade são seus sobrinhos. Um sociedade próspera, portanto.
Antes de continuar, devo dizer que nem sempre é mau seguir os conselhos destes sobrinhos, já que estou convencido que provavelmente em alguns locais teríamos ficado mais bem instalados nos hotéis dos tios que nos que escolhemos. Mas aquele assédio é tal que uma pessoa acaba por irritar-se e negar sempre as pretensões dos sobrinhos. Mas é coisa que tem que ser feita com veemência e um tom levemente ameaçador.
Enfim, depois de nos assegurar que nos levava à “Cosy Guest House”, lá seguimos com ele. O hotel fica mesmo no centro da zona velha de Jodhpur, o que significa que só se pode lá chegar a pé, de moto ou, para espíritos mais esforçados (masoquistas, mesmo), de bicicleta. Sendo assim, deixei as senhoras junto do auto-riquexó que nos transportou, e fui até ao hotel verificar o quarto: acordei toda a família e verifiquei o quarto, que a essa hora me pareceu bom. Mais tarde nessa manhã, verifiquei que me tinha enganado. Não era mau de todo, mas claramente pequeno para três pessoas, e com uma janela muito pequena. Mas, tendo em conta o tempo que fazíamos tenções de lá permanecer, dava para o gasto. E o hotel era engraçado, com dois terraços e uma vista fabulosa para o forte e para a pare da cidade que fica do lado de cá.
Bom, lá fiquei a manhã inteira a escrever e a ver as vistas da cidade, que eram realmente fabulosas. Quando as minhas companheiras de viagem acordaram fomos dar uma volta pelas ruelas da cidade velha e dirigimo-nos ao forte. A minha consorte, ou melhor, a senhora de quem sou com sorte (sim, ela costuma vir cá ler as postas), começou a sentir-se ligeiramente mal. Mesmo assim, subimos ao forte e começamos o tour. O Forte de Meheranghar (?) é ainda hoje propriedade do Marajá de Jodhpur / Marwar (literalmente, Terra dos Mortos) e nota-se bem que a coisa está sob gestão privada. O forte encontra-se num excelente estado de conservação, e possui um museu moderno e de excelente qualidade, sendo fornecido um guia electrónico com explicações detalhadas sobre cada parte do forte e sobre aspectos da cultura indiana em geral e do Rajastão em particular. Alguma publicidade a Sua Majestade e algumas mensagens do próprio, mas de forma suave e bem integradas.
Apesar de tudo, o tour ficou a meio, já que o mal estar da minha mulher se agravou bastante, pelo que fomos almoçar e voltamos para o hotel, onde permanecemos o resto do dia. Pensei que era um dia perdido, mas não há mal que não venha por bem: pudemos apreciar o final da tarde do terraço do hotel. Nota importante: se forem a Jodhpur não experimentem a bebida tradicional da cidade – eu que tenho a mania que tenho que viver a cultura local tive essa má ideia, e lá apreciei o final da tarde acompanhado de um Lassi (espécie de batido) de Açafrão. Poucas coisas na vida me souberam pior.
Bom, Jodhpur é uma cidade pequena (para a Índia, evidentemente) que terá umas 800 mil pessoas, sendo constituída essencialmente por casas baixas, quase todas pintadas de azul (em tons que vão do azul céu ao azul eléctrico), invariavelmente com terraços no topo. As casas começaram por ser pintadas de azul devido ao sistema de castas, de modo a distinguir as casas dos Brâmanes (casta superior) das casas das restantes castas. Depois a moda pegou, e a cidade é quase toda azul. Ao final da tarde, os Jodhpurs de todas as idades dedicam-se a um dos mais populares passatempos indianos – lançar papagaios. E é fantástico ficar ali até o sol se pôr a ver o céu cheio de papagaios, a ler, escrever e fotografar. Um fim de tarde muito agradável.
Á noite, devido à má disposição que persistia, lá decidimos ficar a jantar no hotel. Sendo o irmão do dono do hotel um grande cozinheiro, comemos muitíssimo bem – comida de caxemira, onde ele tinha estado a tirar um curso de culinária. Bebi cerveja outra vez, mas nunca consegui encontrar o vinho indiano de que me falaram. Ficará para a próxima.
O dia seguinte foi, talvez, o pior da viagem. A má disposição persistia, e decidimos (mais por vontade delas que por minha) alterar o resto do percurso da viagem. O cansaço e a incerteza quanto ao mal que afectava a Sara aconselhavam paragens mais calmas e mais próximas: tocámos então Udaipur por Goa. Entretanto, quando fomos comprar os bilhetes de avião houve um corte de energia, e perdemos imenso tempo. Lá comprámos uns presentes numa loja de antiguidades (não comprei todo o recheio por atacado por manifesta falta de fundos), almoçamos e fomos tentar comprar Ulcermin. Evidentemente que o medicamento não tem o mesmo nome na Índia, pelo que foi necessário recorrer à consultoria nacional (através do telemóvel) para saber o princípio activo do medicamento e tentar encontra-lo numa farmácia indiana. Não foi fácil, mas conseguiu-se sair de lá com um frasco que, pelo menos aparentemente, correspondia ao que queríamos.
Se era Ulcermin ou não, não sei. Mas que fez o efeito pretendido é um facto. No dia seguinte à tarde as melhorias eram notórias, e dois dias depois não havia já qualquer reminiscência da má disposição.
Almoçamos razoavelmente num restaurante de aspecto muitíssimo duvidoso em que éramos os únicos clientes e fomos tratar das malas e de arrumar as coisas, porque às 17h00 teríamos que sair para o aeroporto. Enfim, depois de o dono do hotel ter tentado comprar-me o telemóvel e ter ficado atónito com o preço dos telemóveis em Portugal (na Índia são muito mais baratos), lá seguimos para o aeroporto.
Revistadas as mochilas à entrada, feito o primeiro check à bagagem de mão, feito o segundo check à bagagem de mão e identificadas as mochilas (a paranóia securitária é uma realidade muito presente nos aeroportos indianos), lá embarcamos para o meu primeiro voo, utilizando uma expressão da CP, “regional”, ou seja, com paragem em todas as estações e apeadeiros. O avião tinha saído de Dehli e aterrado em Jaipur, onde saíram alguns passageiros e entraram outros, daí seguindo para Jodhpur, onde entramos nós e mais uns quantos, e saíram outros. A mesma coisa em Udaipur e aterramos então em Bombaim.
Enquanto esperávamos pelo voo para Goa (6 ou 7 horas), pudemos assistir à rodagem de uma cena de um filme indiano, daqueles de Bollywood, com estrelas locais. Aquilo é realmente industrial. Filmaram ali a cena “enquanto o diabo esfrega um olho”. Os actores eram fraquitos, e as cenas muito pouco credíveis (para quem nunca viu, um filme de Bollywood é uma mistura entre a novela mexicana e um musical dos anos 50). Enfim, engraçado.
Desta estadia em Jodhpur, não fica muito para escrever, dadas as vicissitudes da altura, mas ficou cá dentro muito que não se consegue contar. A beleza da cidade, o seu pulsar hindu, as inevitáveis comparações com o mundo muçulmano, a simpatia dos habitantes e aquele fim de tarde com muito mais que se lhe diga que ver papagaios no ar. Uma certa atmosfera que não consigo passar para o papel. Talvez lá volte.
Olá, Massarico.
Gostei desse "talvez lá volte". É sinal de que as coisas não foram más, pelo menos espero que não. Más, relativamente ao mal estar da tua companheira de viagem e ainda bem. E depois, quando fica vontade de voltar, é porque as coisas, no computo geral, foram mesmo boas, mesmo que vistas sob uma forma de aventura.
Acho que foi uma bela "aventura" e se poderes voltar, aproveita sempre a tempo. Nunca deixes para muito tarde! Agora, se houver mais não te esqueças de partilhar cá com o amigo Ventor.
Por muito que nos esmeremos, fica sempre algo por dizer. Por exemplo, falar de Goa, Damão e Dio, qualquer delas, nunca será demais!
Espero que a tua bela crónica não tenha fim, pois desta vez não dizes que na próxima 4ª-feira irás falar de ...(?).
Sabes que gosto muito de ler e que gosto mais de ler textos como os teus (estilo crónica), do que um bom livro? Já li muitos bons livros, mas actualmente fujo à rigidez que eles nos apresentam! Aliás, sempre que apanho um livro já não tenho pachorra para ir de A a Z. Vou saltitando por ele fora! Aqui vejo um livro sobre a Índia em que só li uns pequenos capítulos. Estou a gostar muito, espero que não tenhas acabado.
Um abraço.
Massarico
16-11-2004, 09:57
Caro Ventor
Infelizmente ainda não me reformei, pelo que não posso andar em viagem permanente, pelo que só fiquei três semanas na Índia. Muito pouco tempo, como toda a gente me disse (com uma ou outra excepção, os ocidentais que encontrei na Índia pensavam lá ficar pelo menos 6 meses). Mas ainda não acabei, ainda que me tenha esquecido de dizer para onde fui a seguir - Goa.
A posta sobre Goa vai demorar mais algum tempo, porque é um local especial. Pelo menos foi o que senti quando lá estive e ainda sinto. Além disso, quero fazer algumas considerações de carácter politicamente incorrecto e que talvez me façam ganhar alcunhas menos agradáveis.
Mas com o incentivo que recebi com esta série sobre a Índia estou a entusiasmar-me e provavelmente iniciarei mais algumas sobre outras viagens que fiz e sobre os fins de semana que passo em Portugal.
Abraço
jleandro
16-11-2004, 10:05
Massarico
venham de lá essas crónicas doutros lugares, poder ser que haja por lá algum que eu conheça
darkmoon
16-11-2004, 13:14
... e sobre os fins de semana que passo em Portugal.
Isto é uma bela ideia!
Vamos Massarico, continua com as tuas crónicas, pois são para nós (para mim) uma preciosidade.
Sempre que entro no Fórum já sei para onde me dirigir.
Continuo a esperar mais.
Um abraço e força amigo.
Massarico
19-11-2004, 14:09
Goa nada tem a ver com a Índia. E quando digo nada, quero mesmo dizer nada. As pessoas têm uma tez semelhante, e há muitas que são, de facto, originárias de outros estados indianos, mas de resto, nada.
O aeroporto fica a uns 60 Km de Panjim (ou na nova designação oficial, Panaji), a capital do Estado de Goa, pelo que a viagem inicial dá-nos logo uma ideia diferente deste estado, muito verde e, na altura em que fui, com uma instabilidade climática própria dos trópicos: tanto fazia um sol radioso, como chovia abundantemente. Nem os táxis são da marca Ambassador – são da marca “Maruti” (cá existia um Suzuki Maruti), uma espécie de Toyota Hiace, mas de dimensões consideravelmente menores. Até os auto-riquexós são diferentes, mais fechados (infelizmente, diga-se de passagem).
Eu não gosto muito de utilizar este tipo de conceitos, mas para que se entenda melhor a sensação que se tem quando se entra em Goa vindo da Índia, é que esse minúsculo estado é uma ilha de “civilização” (leia-se, mais próximo da Europa). O trânsito é mais calmo, não há vacas nem a profusão de cães e porcos que se encontram noutros pontos do país, há passeios, jardins e, curiosidade que não via há 15 dias, um ocasional caixote do lixo público. As ruas estão mais limpas e sente-se menos poluição. Não se depreenda daqui que é melhor. Não é. É diferente e com um choque cultural muito menor que no resto da Índia. E agora para algumas considerações mais politicamente incorrectas.
Não conheci Goa antes de ser integrada na União Indiana (ainda nem sequer tinha nascido), mas é com alguma segurança que retiro algumas conclusões meramente empíricas acerca do legado português na Índia. Tendo estado todo o sub-continente sob domínio europeu ao longo de alguns anos, verifica-se que as potências coloniais deixaram, como não poderia deixar de ser, uma marca importante nos locais onde permaneceram. E seria um local bastante interessante para realizar um estudo sobre o impacto e o legado de cada potência colonial que aí ocupou territórios, na medida em que há traços de uniformidade religiosa e cultural, não direi no país inteiro (porque não conheço), mas pelo menos na zona central do losângulo e em Goa. Contudo, Goa é o Estado da União mais rico e que, aos olhos de um estrangeiro, possui melhores serviços públicos – o Konkani Railway é uma referência no caminho de ferro indiano. É também, de todos os locais que visitei, aquele onde as pessoas vivem em melhores condições de salubridade e, curiosamente, o mais organizado.
Nota-se claramente que há ali um legado diferente do que se vê no resto do país que penetrou profundamente na sociedade, não só religioso, mas também cultural. E é por isso que, para um turista não português, Goa é o destino indiano menos interessante, servindo essencialmente o pessoal que procura as loucuras do Goa Trance ou férias empacotadas de sol e mar, em resorts com praias exclusivas.
Bom, ao que interessa. Panjim foi uma desilusão à chegada. A coisa começou logo mal na procura de hotel, debaixo de chuva intensa e que não resultou à primeira. O hotel que classificamos em primeiro lugar que vinha aconselhado no guia era muito manhoso, pelo que decidimos seguir o conselho do taxista e fomos para um edifício incaracterístico onde funcionava um hotel tipo Ibis, na sua versão indiana. Isto foi um erro que se revelou bastante penalizador, não pelas baratas de proporções jurássicas que se passearam pelo quarto, mas porque o segundo hotel que tínhamos na lista tirada do guia era a “Afonso Guest House”. Já perceberão o que isto significa.
Enfim, a cidade está algo degradada, e aquela zona não era a zona portuguesa. Só que o taxista também não sabia onde era, e não tínhamos nenhuma planta em condições que o indicasse. Enfim, quando chegamos ao hotel, a disposição não era a melhor. A Sara até decidiu ficar no quarto de manhã para completar a sua recuperação. Eu e a minha outra companheira de viagem fomos dar uma volta por ali e tentar ver se alguém nos podia ajudar a encontrar os famosos bairros das Fontaínhas e de S. Tomé – os ditos “Bairros Portugueses”. Há que referir que Goa tem sofrido uma imigração maciça de indianos provenientes dos estados vizinhos, muito mais pobres, e cujo nível de instrução é muito baixo, pelo que nada sabem sobre Goa, excepto que é um estado rico, onde podem melhorar o seu nível de vida.
Entramos numa loja onde, já munidos de uma planta, perguntamos à rapariga se conhecia os bairros. Não sabia. Mais, não tinha a menor ideia de que houvessem bairros com aqueles nomes ou bairros portugueses em Panjim. Aqui é que ficamos mesmo cabisbaixos. Felizmente, decidimos parar cinco minutos e estudar a planta por nós próprios. O Bairro de S. Tomé começava nas traseiras da loja. Não contribuiu muito para nos animar, mesmo apesar de termos sido avisados de que pouca gente saberia o que era Portugal, e menos ainda se lembraria de falar português.
Vagueávamos já pelo Bairro das Fontaínhas, vendo placas com nomes portugueses, placas comemorativas em determinadas casas, escritas em Português, mas muito pouca gente na rua. Lá seguimos e, quando viramos numa rua para fotografar uma igreja, eis que ouvimos: “Bom dia, amigos”. Quase sem sotaque. Foi dos melhores bons dias que já recebi.
Quem nos deu estes bons dias foi o Sr. Afonso, o dono da “Afonso Guest House” que, diga-se de passagem, tem muito melhor aspecto que o buraco onde ficamos hospedados. E lá estivemos à conversa sobre Goa, restaurantes, hotéis, sobre produtos portugueses e as saudades que o Sr. Afonso tem de umas azeitonas e de um bacalhau. Aconselhou-nos restaurantes (o do jantar estava fechado, infelizmente) e pediu para lhe enviarmos cd’s com fados, que os dele já estão quase gastos. Ainda não enviei, mas vou mandar-lhe agora uns fados no Natal e, se conseguir, um frasco de azeitonas. E foi uma conversa num português perfeito, quase sem sotaque e com um grande domínio da língua.
Não sei bem porquê, mas ouvir falar assim Português no estrangeiro, num local tão longínquo, transmite-me um sentimento de alegria que não imaginam. E mais ainda quando se houve falar de coisas portuguesas, que cá são banais, com tanta saudade. Enfim, depois desta conversa o ânimo voltou, e depois de mais umas voltas pelo bairro, decidimos ir chamar a Sara para o almoço. Quisemos apanhar um auto-riquexó, mas a comunicação com o condutor foi impossível, já que este não falava inglês. Enquanto estamos a falar com o condutor do auto-riquexó, aparece uma miúda com uns 13 anos, meio indiana meio chinesa (ou japonesa, ou coreana, ou etc...) que nos diz para esperarmos porque o pai falava hindi e já comunicava com o senhor. Enquanto o pai não vinha meteu conversa e perguntou de onde éramos: “Portugal”. Quando ouviu a palavra mágica, desatou aos gritos: “Daddy, daddy, there are some portugese here! Come on, quick!” [Papá, papá, estão aqui uns portugueses! Vem, depressa!”.
Bom, o pai era o oriental que lhe dava o meio chinês, e conhecia Lisboa. Falava português. Mal mas falava. Lá conversou com o homem do auto-riquexó e disse-nos que o homem estava ali em serviço, à espera de uma pessoa. Mas imediatamente nos “obrigou” a ir com o seu motorista até ao hotel. E assim, lá fomos, num jipe com ar condicionado, em vez de num auto-riquexó aos saltos. Foi agradável.
Seguimos então para um restaurantezinho nas traseiras da “Afonso Guest House” onde comi um magnífico balchão, cozinhado por uma senhora goesa cujo marido falava português (a Sara falou mesmo com ele). Daí seguimos para Velha Goa (de táxi, e o cansaço acumulado era tanto que adormeci várias vezes pelo caminho de 9 Km, caindo algumas vezes para cima do motorista), uma cidade abandonada no Séc. XVIII, antiga capital do Estado Português de Goa, onde apenas permanecem de pé uma série de igrejas, um seminário e o Arco do Governador, encimado por uma estátua de Afonso de Albuquerque, segundo Vice-Rei da Índia. É um local um tanto estranho, precisamente pelo facto de não ter qualquer vida própria, sendo as únicas pessoas que por lá andam turistas ou comerciantes para fornecer os turistas. Uma das igrejas guarda os restos mortais de S. Francisco Xavier, que deverão sair em procissão pela última vez este ano, perto do Natal.
Depois de darmos uma volta e de visitarmos algumas igrejas (em bom estado de conservação, algumas delas com recurso a capitais da Fundação Gulbenkian e da Fundação Oriente) lá apanhamos um auto-riquexó (onde adormeci novamente por diversas vezes) até D. Paula, uma vilória piscatória a Sul de Panjim, com um miradouro para ver o pôr do sol no Oceano. Devo dizer que estes pores do sol na Índia são fraquinhos, ao contrário do anunciado. E este nem foi dos piores.
Como não havia outro meio de transporte disponível, apanhamos o autocarro com destino a Panjim. Enfim, todo o conforto que se pode esperar de um autocarro indiano. Curiosamente, apesar de me parecer que o legado cultural português foi forte, não pude deixar de constatar que mesmo em Goa se mantém uma feroz estratificação social, com as castas mais elevadas a marimbarem-se completamente nas castas inferiores. Quando viajávamos no autocarro, a certa altura entrou uma família não goesa, originária de Kernataka – sei-o porque as mulheres desta região se distinguem bem devido à profusão de bijutaria que carregam e a uma espécie de ganchos que utilizam para prender o cabelo de uma forma peculiar – constituída pelo marido, mulher e três filhos pequenos, um dos quais de colo. O autocarro estava cheio e ninguém se levantou, excepto eu, que lancei um olhar reprovador ao meu companheiro de banco, que lá acabou por se levantar quando chamei as pessoas para se sentarem. Os seus efusivos agradecimentos e o olhar espantado disseram-me que estavam habituados a viajar de pé.
À saída do hotel, a caminho do restaurante, passamos por um senhor que nos perguntou em inglês se queríamos um táxi e, quando nos ouviu a falar, fez-nos prometer, em bom português que recorreríamos aos seus serviços: derretidos, comprometemo-nos. Entre esta cena e o restaurante, passamos por mais três ou quatro lojas onde pudemos praticar abundantemente o nosso português. Ao verificarmos que o restaurante aconselhado pelo Sr. Afonso, o Horse Shoe ou, como ele lhe chamou, o Ferradura, estava fechado, dirigimo-nos ao restaurante mais famoso de Panjim, a caminho do qual, quando íamos em silêncio, ouvimos dois goeses a falar português entre si. Foi um momento bonito e, depois de nos metermos com eles, lá fomos jantar.
O Hotel Venite (que de hotel nada tem) é um restaurante que tem tanto de engraçado como de mau. Tivemos um jantar de merda 8têm a lata de chamar camarão tigre a uma vulgarzita gamba de Moçambique e o resto da culinária era bastante fraquinha. Mas enfim, lá tive mais uma conversa, desta vez de alguma meia hora, com um senhor que falava português. Bem sei que provavelmente me torno maçador com esta conversa de que falei em português com este e com aquele, mas de facto foi algo que me marcou bastante.
No dia seguinte, infelizmente mas, de certa forma, obrigatoriamente, fomos para a praia, que o cansaço não permitia outra coisa. Instalámo-nos num pequeno hotel familiar, em cima da praia (cá iria abaixo de certeza) em clara violação dos mais básicos princípios ambientais, mas relativamente familiar e muito calmo, com quartos a 8, sim oito, euros por dia, e com um excelente restaurante, onde comemos sempre muito bem.
Este hotel situava-se a meio caminho entre Colva e Benaulim, duas vilas piscatórias que, curiosamente, não ficam tão perto do mar como isso, ficam a uns bons 20 minutos a pé, o meio de transporte da maioria da população. Fizemos algumas compras nestas vilórias a preços indescritíveis.
A praia era quase tudo aquilo que eu gosto numa praia: quilómetros de areal sem quase nada (apenas alguns hotéis pequenos e ligeiramente recuados, sem chocar), mar ligeiramente batido e quente. Mas... mal uma pessoa chegava ao areal era rodeada de bandos de mulheres de Kernataka a vender toda a sorte de coisas: bijutarias, panos, roupa, etc.... Se não se comprar nada, estou convencido que depois de uma hora ou duas deixam de chatear, mas se se comprar alguma coisa, é esperar pelo pesadelo. Eu arranjei um subterfúgio: eu não faço compras nem tenho dinheiro (e não lhes comprei nada, realmente) por isso falem com a minha mulher que, se quiser e tiver dinheiro vos compra alguma coisa. Enfim, ela é que começou as compras contra o meu conselho, por isso que pague as favas.
No segundo dia levantei-me às 5h30 da manhã para ir assistir à pesca. Nunca tinha assistido a esta forma de pescar, mas já tinha lido sobre ela. Eles têm uns barcos de madeira que vão lançar as redes, trazendo duas pontas para terra. Em terra, os homens puxam as redes à força de braços. É incrível que eles fazem um esforço tremendo para tão reduzida captura, porque apesar do tamanho das redes vem muito pouco peixe. E o que é assustador é quantidade de cobras marinhas que lá vêm.
Uma cena curiosa, cuja finalidade nunca percebemos, foi o banho do búfalo. Pelas quatro e meia, cinco da tarde, apareciam sempre dois homens com um búfalo sempre a correr pela praia fora, para um lado e para o outro, sempre perseguidos por um cãozito, mas que ficava sempre para trás. O búfalo ia preso pelo nariz, com um dos homens a segurar num cordel e outro a incitar o búfalo com uma vara. Corriam para um lado. Depois para o outro. No fim, iam dar um banho de mar ao bicho. Todos os dias que lá estivemos assistimos a esta cena. Incompreensível.
Para terminar, outro pormenor curioso. Quando fomos comprar o bilhete do combóio à estação, verificamos que se formavam filas. Imaginem bem: filas. Coisa que não se via desde que tínhamos saído de Portugal. Mais uma herança cultural. Daqui, foi a viagem até Bombaim, e daí para Londres e Lisboa.
Massarico
19-11-2004, 14:15
Quero agradecer a todos o enorme icentivo que me deram para ir aqui colocando estas postas sobre a Índia. Sem ele, provavelmente teria ficado a meio.
A viagem à Índia acabou aqui. Mas, como me entusiasmaram, decidi escrever sobre mais duas viagens que fiz e que, por serem deste tipo, e também sobre culturas consideravelmente mais distintas da nossa, julgo que merecem umas notas. Já as fiz há algum tempo, principalmente a de Marrocos, mas são viagens que me deixaram uma tal impressão que me parece poder ser capaz de dizer qualquer coisa. Se calhar alguns pormenores escaparão, e outros provavelmente passaram-se de modo diferente daquele que vou contar, já que a memória não é capaz de guardar tudo, e muitas nos atraiçoa em pequenos pormenores.
Abraços
jleandro
19-11-2004, 15:58
obrigado pelo teu trabalhoso relato.
sobre Goa, algumas coisas do que sei derivam um bocado das obrigações profissionais.
sei que a Fundação Oriente tem lá uma Delegação, com muitos livros em Português e que bastante dinheiro têem gasto em promoções de carácter cultural (durante anos fui eu que organizei esses transportes).
e já agora, uma história: a certa altura quieriam enviar para Damão uma remessa de livros (o que era novidade) e eu contactei o meu agente em Bombaím para me tratar do transporte de Bombaím até ao destino e dar preço.
os homens não sabiam onde ficava Damão até que lhes mandei um faz dum mapa Indiano ( o serviço acabou por não se fazer)
há uma comunidade importante em Goa de gente descendente de Portugueses e muito saudosistas, como podeste constactar, e há muita gente que quer preservar o Português como lingua viva ( e não só ali, também na Malásiam há uma cidade com alguns restos de língua portuguesa, e do outro lado do mundo em Curaçao, aqui levada pelos escravos que os holandeses capturavam no Brasil).
bem, e a seguir vamos a Marrocos ;) , onde também nunca fui.
darkmoon
19-11-2004, 17:28
Fizeste um relato absorvente e muito "real". Senti-me lá!
Massarico, só para te dizer que gostei muito do teu relato sobre a Índia, e claro que não foi por acaso que te recordei Goa, Damão e Dio. Bem me parecia que terias passado por uma dessas localidades. Goa, é para mim, a mais conhecida indirectamente, pois pelos anos fora, foi-me relatada como terra da saudade! Saudade daqueles que tiveram de a deixar por múltiplas razões, entre as quais, fugir às trapaças do destino.
Em Goa, haverá certamente mais alguns Afonsos, como esse e, se não estão lá, andarão, certamente, a vaguear pelo mundo, pelo seu mundo e pelo nosso. Conheço pessoas que vão lá algumas vezes matar saudades e quando eu lhes pergunto: "por onde andaste"', a resposta era: "fui a Goa com uns tios, com uns primos", ou com alguém.
O ano passado assisti a uma reunião de ex-prisioneiros dos tempos da invasão da Índia portuguesa. Podes crer que foi fenomenal! Provàvelmente, de hoje a um Mês, estarei lá, numa reunião semelhante!
O amor como aquela gente, a nossa gente, discute esses problemas, os seus problemas passados, sem ódios, com alegria e saudade dos que já partiram, faz-me sentir orgulhoso de pertencer a esta Nação, que nada deve temer e nada se deve sentir envergonhada do seu passado. Como podes verificar, Goa é apenas um exemplo, mesmo que minúsculo, da grandeza que foi o Portugal Lusotropicalista.
Um grande abraço.
Li de um fôlego o relato final da tua viagem e já nada tenho a acrescentar ao que ficou dito, a não ser falar por mim e dizer que gostei muito. Tens uma escrita extremamente cativante e muito visual. :)
A propósito do que observaste sobre Goa e o resto da Índia (que não me parece minimamente politicamente incorrecto), os muitos Mascarenhas, Noronhas, Braganças de origem goesa falam por si sobre as diferenças entre as colonizações portuguesa e inglesa.
Se gostares de ler e ainda não o leste, há um romance do Salman Rushdie de que gostei muito, “O Último Suspiro do Mouro”, sobre a saga familiar dos Da Gama e dos Camões, brâmanes católicos de Cochim que se cruzam com judeus ibéricos. No fundo é quase uma parábola da herança cultural portuguesa no oriente.
Acho que ias gostar.
http://www2.correioweb.com.br/hotsites/500anos/portugal-brasil/dia12/dia12-2.htm
http://members.tripod.com/~muna/1.html
Se continuares a cronicar, cá estarei sempre para ler. :) :) :p :D
Massarico
23-11-2004, 16:50
Mystic, obrigado. Pelo elogio e pelo livro. Que por acaso me lembra uma coisa curiosa que não contei: a Índia é o maior editor mundial de livros em língua inglesa (sim, maior que os EUA, ao que me dizem) e não consegui encontrar lá nenhum dos livros que queria comprar: um de Salman Rushdie e outro de Vikram Seth. Não era pedir muito.
Já há muito tempo que me aconselham a ler Rushdie, mas confesso que tenho alguma resistência a livros de autores que se tornaram famosos devido a uma polémica. Mas agora, perante essa descrição, vou compra-lo.
Não era pedir muito.
Sei não ...
Talvez a fatwa dos aiatolas não seja de desconsiderar ainda num país com tantos muçulmanos por perto ...
:eek: :eek: :eek:
vBulletin® v3.8.4, Copyright ©2000-2012, Jelsoft Enterprises Ltd.