View Full Version : Fontes de memória
À procura do milho-rei
Mais um olhar de relance pelo passado. As gentes nunca param de trabalhar e divertir-se. O ano começa com divertimento. A juventude, a masculina, porque a feminina não tem direito a quase nada, começam logo a diversão com o canto das janeiras, no dia um do mesmo mês. Essa festa já vem detrás, com a passagem do ano.
Pelo Inverno dentro com a escola, e trabalhos diversos, como tratar dos gados, ir buscar lenha para o lume, levar o leite aos amigos, fundamentalmente aos mais velhotes que possam não ter as vacas paridas, ou não ter vacas, etç., cada um faz o que pode. Depois vêm mais uns dias de divertimento com o Carnaval. As pequenas férias, as mascaradas, etç.
De seguida férias da Páscoa, a passagem da Cruz para os crentes, pelas casas de todos, e a dádiva para que a canseira do padre seja recompensada. De seguida vem o tempo da preparação das colheitas, as dores de cabeça de poder vir dos exames com uma raposa, a ajuda nas labutas que se estendem até ao fim da escola, dos exames, e eis o Verão com toda a sua força de calor e entre outros afazeres, é preciso sachar e regar o milho. Por vezes até pela noite fora com uma lanterna de petróleo para alumiar a pessoa que vai ter o cuidado de com a rega não estragar o milho com a enxada.
Pelo verão fora, no topo do calor, vemos crescer as frutas, o milho as uvas as amoras, enfim, a nosso lado, mesmo juntinho connosco, a mãe natureza faz o seu trabalho, mas precisa sempre de uma mãozinha, porque o trabalho de conjunto sempre foi, sempre é e sempre será o aval para maior riqueza e, a natureza, juntamente com o homem, têm mais hipóteses de afastar o espectro da fome que vai grassando pelo Mundo.
Mas agora, depois desta caminhada imaginária dos meus tempos de criança, a saudade continua a perseguir-me. Com a chegada do Outono, imagino as esfolhadas que já não há! E como não as há, não quer dizer que estejam esquecidas. Antes pelo contrário, estão cada vez mais vivas, mas na mente de quem as viveu. Aqueles que não as viveram jamais terão saudades delas, por muito que delas ouçam falar.
Em meses de Setembro que a memória se recusa a perder, um cassapinho, que para vocês, renomeei de Ventor, olhava do alto da sua Montanha, os campos de milho a amarelecer. Do ponto mais alto ao descer com as vacas do alto da serra onde tinham passado o Verão, apontava o seu olhar de falcão sobre a veiga. Era lá que estava a presa. Aquele colorido era sinal de corte e o corte era para o vosso amigo Ventor o início de mais uma festa. Ao lado do amarelecer do milho, notavam-se as cores outonais das latadas de vinhas, e nas bouças, os carvalhos, os vidoeiros e outros tipos de árvores de folhas caducas, já mudavam de cor e as folhas amarelas, castanhas e vermelhas já emprestavam outro colorido à paisagem.
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Bétulas nos prados de feno
Por mais algum tempo os gados ficariam pelas meias encostas. Lá em baixo, a minha gente preparava a foicinha e dava os últimos retoques para as próximas tarefas. Chegaram as noites de luar e S. Pedro prometia ajudar fechando bem os seus cântaros. Aqui o puto reguila, preparado para fazer tudo também tinha uma máquina de corte. Na manhã seguinte, lá estava ele como se nada tivesse acontecido e tivesse dormido o sono dos anjos, a apanhar o milho cortado e a ajudar a fazer os feixes de palha para levantar em forma de medeiros. Os medeiros ficavam de pé a secar ao sol para, no caso de vir chuva a água escorrer pela palha até ao chão. O tempo continuava bom e o luar brilhante. Vinham aí mais noitadas!
Agora, mais uma, duas, três noites. As pessoas arregimentavam-se para a tarefa. Quando se tratava de família e amigos, o trabalho era a eito. Os outros também tinham a sua gente a fazer as suas esfolhadas. De lavoura em lavoura troavam vozes de cântico e as modas eram mais que muitas. De quando em vez vinha um desafio e de seguida a resposta. Era tu cá, tu lá e a minha gente cantava pelo S. Miguel. Eu juntava as espigas em montes que dariam um cesto de cerca de 25 kgs ou mais. Dependeria dos cestos e da capacidade de quem os carregava. No meio de tantas espigas de vez em quando aparecia uma espiga de milho-rei. Aquela espiga vermelha.
Depois de acarretar as espigas para os caniços ou espigueiros, previamente limpinhos e secos, vinha mais uma carga de trabalhos. Fazer as medas da palha do milho. Era preciso arranjar um pau e para isso seria necessário cortar um vidoeiro novo, uma austrália ou outra árvore adequada. A minha machada iria tratar do assunto e a ajuda de outro era a certeza de colocar o pau no sítio certo. Hoje por mim, amanhã por ele. Nós sabíamos como os mais velhos faziam!
Depois das medas feitas, começavam as vindimas.
Mas Deus não quis que prosseguíssemos. Tal como os israelitas, a gente das nossas aldeias foram espalhadas aos quatro ventos, e tal como o milho foi semeado nos meses de Maio, assim nós fomos semeados por todos os pontos cardeis.
Agora não há espigas rainhas. Que é do meu milho-rei?
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Espiga de milho-rei
Foram posts assim que me trouxeram ao vosso convívio. Já andava a ficar desiludida, porque gosto muito de ler tudo sempre que posso e são posts destes, ventor, que nos alimentam a alma.
Ouve por aqui bons textos dos nossos amigos caídos, talvez de exaustão, mas parece-me que os veios se finaram. Lamento muito que seja assim. Se eu pudesse escrever um pouco e tivesse tempo, gostaria de te acompanhar. Assim limito-me a ler-te. A bolsa para mim já foi despachada e também não foi ela que me fez entrar cá na tasca.
Vou passando e olhando e ás vezes vale a pena.
Nunca esquecerei o cantinho do ventor.
Um beijinho para ti.
Alguém viu o nosso Druida?
Alguém viu o nosso amigo Druida no “quem quer ser milionário”, dia 21, ou 22?
Eu vi e também vi que o Druida é muito bom rapaz, porque quando caminha pelos asfaltos, é tão cuidadoso que só pensa não atropelar cães e gatos, e demais bicharada e não olha para as placas que indicam as localidades. Fica-lhe bem! Mandou hipoteticamente 250.000 às malvas, mas fica-lhe bem!
Nas quatro localidades que entravam na liça e fariam parte de um dos quatro conselhos, ele eliminou dois concelhos e reduziu a aposta a dois – Vizela ou Torres Vedras. Depois, bem depois, faltou ao nosso amigo Druida, a experiência do burro velho. O Jorge Gabriel levou-o de Vizela para Torres Vedras e de Torres Vedras para Vizela e …pimba!
E ainda melhor lhe ficou por, como Druida, não ter utilizado a persuasão dos velhos carvalhos dos nossos avoengos druidas. Ele contentou-se com os 500 eurinhos, e eu comecei, vejam lá, a pensar nos carvalhos!
Há uns anos atrás, num dia 8 de Setembro, subi ao Alto da Pedrada, na serra de Soajo, e tinha marcado uma sardinhada lá pela Senhora da Peneda, pelas 14 horas, na serra com o mesmo nome. Levei uma sobrinha e uma prima comigo conhecer o que nunca tinham visto. Para cima tudo bem e, para baixo, vieram sempre a cair. Quando chegamos cá abaixo, apanhamos o carro na estrada, ainda lá estava à sombra de uma canecipe, e seguimos para a Peneda. Como o telemóvel não tinha rede, só quando chegamos à Peneda, com toda a gente á nossa espera, fomos informados que não podia haver sardinhas, porque era proibido acender o fogo em qualquer lado o que eu achei muito bem. Mas voltamos para trás e fomos para junto duma capela que se chama Senhor da Paz para assar as sardinhas debaixo do Carvalho de Eixão!
Lá estava o carvalho frondoso com a sua grande sombra e mais ao lado, a mina com uma nascente de água que corria pelo rego, bem perto de nós. Como fica em frente da minha velha escolinha, eu aproximei-me dela e só apareci para comer as sardinhas. Assá-las não era comigo! Enquanto as sardinhas assavam, eu via caminhar à minha frente todos os meus velhos companheiros de jornada. Uns mais afinadinhos, outros mais brutos, parecidos comigo, outros ainda com o cabelo rapado devido à tinha … sei lá!
Ao chegar, ao carvalho, encontrei a minha mãe de candeias às avessas com umas lagartas criadas nas folhas do carvalho. Caíam enroladas, com cor verde-amarelada e bem peludinhas que mais pareciam a flor do carvalho. A minha mãe estava com pele de galinha e furiosa com os bichos que a punham pior que um búfalo frente a um leão. Eu disse-lhe que eram flores do carvalho e como não pegou, disse-lhe que eram almas druidas!
“Um bom druida me saíste tu! Como é que tu podes falar assim destes bichos reles”? Eu voltei à carga que nos tempos dos nossos tatara-tataravós, os druidas davam-se bem com os carvalhos e estes passaram a ser o seu mundo. Caiu outro bicho e ela retorquiu: “sai daqui druida”!
Quando vi o nosso amigo Druida, no quem quer ser milionário, lembrei-me da minha mãe e ainda lhe gritei para sair dali, mas ele não me ouvia. Assim, chamei o Quico para conhecer o Druida!
O Quico disse logo: “como não se safa com a Bolsa, quer ser milionário na TV”! Não gostei de ver o Druida cair daquela maneira. O Jorge Gabriel entornou a sopa por cima do Druida e pregou-lhe uma rasteira. Eu fiquei danado porque sabia a resposta que conhecia há 36 anos. Outro Druida de outros tempos, chegou junto de mim e disse-me que se sentia no direito moral de chamar um nome muito feio ao Chefe do Estado-Maior da nossa Força Aérea, na altura.
Quando esse Druida chegou a Nova Freixo, eu perguntei-lhe: “porque só chegas agora”? E ele explicou-me que foi por causa dos Jogos Olímpicos do México. Que passou meses a treinar no Clube do Runa, Torres Vedras e que não foi mobilizado porque o Governo através do Secretário dos Desportos, lhe garantiu que ia aos Jogos Olímpicos e não seria mobilizado para a Guerra de África. Alguns meses depois, foi mobilizado, porque o CEMFA disse que não queria saber da promessa para nada. Já nessa altura, o nosso mundo era feito por aldrabões!
Runa, não me saía da mente, e soprei telepaticamente ao nosso Druida, mas não deu!
As latadas do ti Ribeiro e do ti Cortez!
Logo à entrada da Adrão, de sul para norte ou saída de norte para sul, ficavam duas latadas de vinha nacional, unidas numa só. Uma parte era do ti Ribeiro e outra parte era do ti Cortez! Os cachos de uvas eram exactamente como este. eram apenas duas latadas ou uma grande latada policolorida pelo Outono. Os cachos ficavam como este e as folhas das videiras nos seus diversos tons animavam quem passava.
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Um belo cacho de uvas
Umas ainda com tom verde velho, outras amareladas com diversos tons outras de um castanho suave a castanho escuro e no meio de todas singrava a beleza das vermelhas como a do cacho para aquecer ainda mais o sistema.
O Ti Ribeiro e o ti Cortez, bons vizinhos, estavam mais para lá do que para cá e à sombra das suas latadas falavam do passado, do presente e do futuro. Ambos tinham corrido mundo e agora, enquanto a fonte que lhes matava a sede cantarolava o entornar da ágia que brotava por debaixo do casario, eles olhavam as pedras corridas que seus avós já ali tinham colocado para servirem de assento.
O vosso amigo Ventor, vindo da torreira do calor, de um sítio chamado Assureira, dos inícios de um Outono quente, deparava com aqueles dois velhos postes, por onde subiam duas videiras, na base dos quais se sentavam outros dois postes - os velhotes.
Bebe um pouco de água fresca Ventor, mas devagar ou então come um cacho de uvas! Eu olhava as uvas lindas, mas do meio delas vinha eu e com a barriga cheia. No entanto sentava-me a ouvir a conversa dos meus amigos velhotes. Cansado e com o cantarolar da água, eu só os ouvia a eles e mais à frente a minha mãe chamava. Ventor! ventor!
Uma voz ao lado dizia-me: "a tua mãe chama-te Ventor, já sabe que estás aqui e tens o almoço pronto. É melhor que te despaches"!
Eu sabia que era melhor, antes que ela se assanhasse, mas não me importava, pois tanto eu como os meus amigos queríamos sempre mais um bocadinho de convívio. Tal como os dois postes eram sustentáculo da latada, também eles era dois postes que começavam a sustentar a construção dos meus alicerces como homem!
Olá ventor.
O Druida é o Ulisses do Caldeirão? Não o vi e também não o conheço.
Mas vejo é mais uma bela observação tantos anos depois. E também vejo em imaginação as belas latadas da tua aldeia, com os dois velhotes sentados na pedra.
Que belas descrições. Eu gosto! Gosto muito, porque me fazes entrar no texto e olhar tudo em redor. As imagens que faço até poderão andar longe da realidade, mas não andarão muito. Vou esperar por mais.
E mais um beijinho, par ti.
A capela e a latada.
Mais à frente, ao lado da capelinha da aldeia, havia mais duas latadas. Uma era do tio António da Bondeira e a outra do tio Gonçalo de Outeiros. Uma à frente e à direita e outra ao comprimento da capela, do lado direito. Numa e noutra, eram notáveis as videiras cavernosas, esboracadas pela erosão do tempo que caminhou sobre elas. As suas uvas eram semelhantes às outras que davam as boas vindas ou diziam até à próxima!
Mas estas eram s videiras do Adro! Debaixo das suas folhagens, ouvia-se a caixa de percussão do João Casanova, as gaitas de foles que vindas da Galiza nos visitavam nos dias da festa de nossa Senhora da Conceição, e por entre as suas ramagens potentes e viçosas, junto aos futuros cachos da bela uva, se instalavam, durante as festas, os alto-falantes de Santa Marta de Portozelo. Ali, a música era sinónimo de rampas de lançamento de virilidade. As moças enfeitavam-se nos seus melhores trajes, com os seus aventais festeiros, blusas coloridas e saias de serguilha. Ali apareciam com os cabelos ondulados pelo calor dos garfos quentes em cabeleireiros improvisados nas casas umas das outras e eu, um puto em crescimento lhe pregava as minhas partidas. Ou tirava os garfos das brasas, afastando-os, não permitindo o seu aquecimento, ou arranjava ovos podres para animar a festa que se tornava demasiado sonolenta com a preparação de tão belos penteados.
As músicas tocavam, mas os meu som favorito foi e será sempre a concertina. A chula, a cana verde, o vira, o “S” do Soajo, de que o grande poeta, Homem de Melo, tanto falava, e outras, eram as danças da moda, lá pelos meus lados. Havia também a dança entre o religioso e o profano. O Padre de Soajo corria com as moças para o lado de lá da ponte e para onde as moças iam, os rapazes iriam também! Mas antes de obedecer, havia já uma certa luta pelo direito à liberdade de diversão. Também não se percebia porque às vezes o Padre permitia o baile junto à capela e outras vezes não. O mesmo Padre, as mesmas gentes e a mesma festa! Com isso, entendia-se que Deus era uma força sagrada com costados opulentos, mas que os homens não compreendiam!
Isto originava o apressar da ida do Padre para Soajo, logo a seguir aos festejos religiosos e o retorno do baile ao espaço junto à capela, à sombra das latadas, nos abrasadores dias calorentos de Julho! Ali, estabelecida a paz entre Deus e os homens, o divertimento tornava-se completo. Ao centro, debaixo da latada, dançava-se, e mais peos arredores, se cantava a Soajeira, cantares ao desafio que, creio, a sua tristeza consegue ultrapassar o nosso fado.
Depois da festa, vinham os dias de trabalho, e sob essas latadas, continuavam a passar os rostos cansados e transpirados da minha gente que vinham da rega dos milhos, das sachadas e da sementeira das ervas que iriam, pelo Inverno fora, alimentar os gados. Os cachos das uvas já formados, no meio da folhagem viçosa e verde das videiras, eram testemunho do futuro que se aproximava e que, no fim do ciclo, pelo meio das folhas amareladas e vermelhas das videiras, os cachos maduros fariam um louvor aos deuses e às gentes, pois as coisas belas também têm um ciclo e este terminava pelo Outono fora.
FMoreira
28-09-2004, 17:24
Pois é Ventor...vendo bem as coisas é difícil acreditar que estejamos vivos hoje!
Quando éramos pequenos, viajávamos de carro (aqueles que tinham a sorte de ter um) sem cintos de segurança, sem ABS e sem air-bag!
Bebíamos água dos poços e nem se conhecia água engarrafada! Que horror!!!
Andávamos de bicicleta sem usar nenhum tipo de protecção e passávamos as tardes a construir carrinhos de rolamentos.Atirávamo-nos ladeira abaixo e esquecíamo-nos que não tínhamos travões até que uma qualquer calçada ou árvore nos deparasse no trajecto...
Depois de muitos acidentes de percurso, aprendíamos a resolver o problema...e sózinhos....!!!
Nas férias, saíamos de casa de manhã e bricávamos o dia todo; os nossos pais ás vezes não sabiam exactamente onde estávamos, mas sabiam que não estávamos em perigo.
Não existia telemóveis! Incrível!!!!
Quantas nódoas negras, braços pertidos, dentes arrancados com o embate das quedas....
Lembram-se destes acidentes? Janelas quebradas jardins destruídos, as bolas que caíam no terreno do vizinho...
Haviam brigas e ás vezes, muitos olhos negros. E mesmo feridos e chorosos tudo passava depressa; na maioria das vezes, nem os nossos pais descobriam...
Comíamos doces, pão com muita manteiga ...e ninguém era obeso...no máximo, era-se um "gordinho saudável"...dividia-se uma garrafa de sumo, refrigerante ou até uma cerveja á escondidas, entra tres ou quatro petizes e ninguem morreu por causa de doenças infecciosas!
Não existia a Playstation, nem a Nintendo...não havia TV por cabo, nem video, nem computador, nem internet...Tinhamos simplesmente amigos!
Andava-se de bicicleta ou a pé. Ìamos a casa de amigos, tocávamos a campainha, entrávamos e conversávamos...sózinhos, num mundo frio e cruel!!!Sem nenhum control! Como sobrevivemos???
Inventávamos jogos...com pedras, feijões ou cartas...bricávamos com pequenos monstros: lesmas, caramujos e outros animaizinhos, mesmo se os nossos pais nos dissessem para não fazermos isso!
Alguns estudantes não eram tão inteligentes quanto os outros e tiveram que refazer parte do liceu. Que horror!Não se mudavam as notas e ninguém passava de ano, mesmo não passando...os professores eram insuportáveis...não davam abébias.
Os maiores problemas na escola eram: chegar atrasado, mastigar pastilhas na aula ou mandar bilhetinhos gozando com a professora.
Ninguém se escondia atrás do outro...os nossos pais estavam sempre do lado da lei quando transgredíamos as regras!
Se nos portávamos mal, os nossos pais colocavam-nos de castigo e incrivelmente, nenhum deles foi preso por isso! Sabíamos que quando os pais diziam "Não", era memmo "Não".
Recebíamos brinquedos no Natal ou no aniversário e não de todas as vezes que íamos ao supermercado...os nossos pais davam presentes por amor, nunca por culpa...por incrível que pareça , as nossas vidas não se arruinaram por não ganharmos tudo o que gostaríamos...e que queríamos...
Essa geração produziu muitos inventores, artistas, amantes do risco e óptimos inventores de soluções. Nos últimos 50 anos, houve uma desmedida explosão de inovações e tendencias...
Tinhamos liberdade, sucessos, algumas vezes problemas e desilusões, mas tinhamos muita responsabilidade...e não é que aprendemos a resolver tudo? E sózinhos?
Se é um destes sobreviventes...PARABÈNS!!!!!!
No que me diz respeito, estás muito frio, FMoreira!
Quando era pequeno, viajava de carro de bois!
Quando era pequeno, nunca viajei de bicileta!
Nunca bebi água de poços!
Para além da água, das nascentes, a nossa boa água do Norte, bebi alguns pirolitos, lembas-te?
Nas minhas ladeiras e era cada uma, eram as ossadas que rolavam!
Os meus telemóveis eram os assobios. Toda agente sabia que era eu!
Tive muitas nódoas negras, mas nunca parti nada! Caí dos cavalos semi-selvagens, ou selvagens, os garranos, sobre moitas de tojo e urze, quando não era sobre rochas de granito e resisti a tudo. Eu fiz parte do grupo daqueles que Deus pôs a mão por baixo.
Nas portas das minhas gentes não havia campainhas. Abríamos as portas e entrávamos! Nem batíamos palmas como os brasileiros.
Nunca masquei pastilhas nas aulas. Não havia!
Os meus presentes de Natal eram o arroz doce e as rabandas! Não havia onde comprar os presentes! Tive umas camisolas de França que o meu padrinho mandava ou trazia, mas acho que nem era por ser Natal. Era porque sim! A minha festa de anos era um valente cozido à portuguesa. Uma tia nunca se esquecia. Sempre que foi possível, até ela morrer, comemos sempre um cozido. Quando era miúdo, porque fazia anos e, já grande, nem que fosse em Agosto, porque era a saudade que matávamos.
Quanto ao resto, tudo certo!
Tu tinhas supermercados, eu tinha apenas a liberdade do mundo protagonizada nas minhas montanhas e a taberna do Carrasco!
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A Tasca do Carrasco
Uma tasca, onde, pensava eu, era representado o Mundo. Sabia que não era assim, porque as pessoas que corriam mundo, vinham, iam e levavam novidades.
Ali, vendia-se pão de trigo quando o Rei fazia anos. Vendiam-se quilos de arroz, bacalhau, vinho na malguinha, cervejas, pirolitos e pouco mais. Servia também de centro de circulação de alguns produtos lá da terra, como ovos e pouco mais. Uma espécie de Entreposto local. Para além disso, aparecia uma concertina, tocava-se e cantava-se ao desafio. Na minha aldeia, só havia trabalho, bailes, cantorias e bailaricos. Missa, só nos dias das festas, casamentos, baptizados e funerais. Nunca percebi muito bem o apego à religião. Mas havia a liberdade para tudo menos para fazer o contrabando. Havia gente que ia a Espanha a pé, às escondidas e trazía de lá as coisas que faltavam cá! Era um Mundo muito curto, por isso muito limitado até ao dia do arranque para outro Mundo, aqueles mundos de que ouvíamos falar!
Eu arranquei de lá com 15 anos e a coisa que sempre mais presei foi a liberdade! Aquela que me permitiam e a que eu inventava. Hoje tenho isso tudo, mais a saudade!
Um abraço.
Continuas a tua bela caminhada Ventor. E eu continuo atrás a apanhar tudo.
Também continuo, nos teus caminhos, mas sempre atrasada.
Espero auscultar mais dessa vida tão difícil por terras de Santa Maria.
O Bicho da Peçonha
Maria, descalça, desce o caminho da veiga, juntamente com a água da rega que vai saindo do rego, num ou outro buraco aberto pelas toupeiras, ou pelos danos das passagens das pessoas, aqui ou ali, para ir cortar erva para o vitelo. Nesse tempo, o calçado era utilizado conforme os caminhos. Em zona de cobras, de tojo, de silvas, isto é, caminhar nos matos ou nas bouças, era necessário calçar qualquer coisa, nem que fossem umas alpergatas espanholas.
Havia umas alpergatas todas de borracha adequadas para esses caminhos molhados mas não tinha importância, porque era moda as mulheres andarem descalças. Era moda e era poupança, porque era difícil ir buscar o calçado onde quer que fosse, quer dentro de Portugal quer a Espanha e isso obrigava a grande zelo para que esses bens se tornassem muito duradoiros.
Para ir a Espanha, onde havia tudo, os riscos era enormes, pois a guarda-fiscal podia apreender as mercadorias, depois de um carrego por carreiros de montanhas e cá dentro, a camioneta para os Arcos ou para a Barca, em dia de feira, apanhava-se em Soajo, hora e meia a pé a andar bem. Depois, nos Arcos, comprar as coisas e guardá-las em sítios de confiança, normalmente as lojas ou alguma casa de gente amiga. Depois juntar tudo e ala que se faz tarde.
Retornados a Soajo, agora é hora de alombar! Carga às costas, ou à cabeça, sempre a subir, em hora e meia de retorno, desta vez muito mais cumprida e mais custosa, devido ao carrego e ao cansaço do dia, numa azáfama física e intelectual, pois era necessário guardar na memória o que não era possível colocar no papel, devido ao analfabetismo.
Maria tal como outras Marias lá da aldeia, faziam tudo para não passarem por isto, e só o mínimo de vezes possível por grande necessidade, e daí, o caminhar descalças em sítios que hoje me faz estarrecer o físico, o espírito e a alma, quando encaro como sítios tão belos instigaram tanto sofrimento.
Mas eu ia falar do Bicho da Peçonha! Como puderam ver atrás, este bicho é de estaleca, pois a peçonha estava sempre presente em todos os momentos da vida da nossa aldeia. No entanto, eu queria falar mesmo do bicho! O bicho da peçonha era um bicho peludo, muito grande, algumas vezes maior que o meu dedo do meio hoje e eu julgo que poderá ser o “catarpilar” de uma mariposa. Era feio, feio a valer, e dava-se bem no meio das ervas pelo mês de Julho.
Maria apanhou a erva à pressa e enfeixou-a numa corda, carregou-a à cabeça e subiu pelo caminho, até casa, a ouvir cantarolar a água da rega que corria pelo rego e escorria pelos caminhos Ao chegar debaixo da latada do Ti Cortez, atirou o molho de erva para o chão e gritou profusamente! Sentiu uma picada na testa que ficou com uma bolha e começou a vermelhar. Os velhotes gritaram:
- “que tens Maria”?
- “Tenho uma dor na testa, algum bicho me mordeu”!
Todos acorreram a ajudar e no meio da erva toda, apenas apareceu o grande bicho peludo! Dizem que os bichos de onde provêm as borboletas não têm apetite por carnes e eu lembrei-me de muita coisa e dessa pequena história dessa Maria da minha aldeia que é mesmo Maria. Na verdade eu fugia desses bichos a sete pés e todos que via matava. Hoje gostava de ver um e não consigo! E tenho a certeza que não mataria!
Ainda sobre as latadas
Para além das latadas já focadas, existiam ainda outras no meio da minha aldeia. A latada do ti Bento Perricho a caminho da Barreira, as latadas também juntas do ti Gonçalo, do ti João Perricho e do Ti Ginja, em Outeiros, a latada do ti da Gave, à direita, logo a seguir à ponte e a latada da tia Saloia na saída da aldeia para Norte ou entrada vindo do Norte.
Todas as latadas teriam diversas funções, entre as quais o aproveitamento das uvas para comer, para fazer vinho e também como ocupação dos tempos livres daqueles que atempadamente as souberem conceber. Elas, pelo verão fora tornavam estes locais aprazíveis. Eu recordo-me, que, embora dependendo dos anos, em Setembro de 1 a 8, pela Romaria da Senhora da Peneda, os romeiros passavam de dia e de noite, nos dois sentidos e lá iam retirando um ou outro cacho de uvas para tornar as gargantas operacionais, pois eles caminhavam cantando e tocando a concertina, os bombos, as caixas, as pandeiretas, os cavaquinhos, os ferrinhos e, alguns derreados com foguetes para animar a festa, cumprindo as suas promessas.
Os foguetes eram lançados na Portela o monte mais alto que dividia as águas entre a minha aldeia e a área da Srª da Peneda. Para mim, além de serem oito dias de festa, eram oito dias terríveis. Apesar de tanto trabalho, pensava eu, aquela gente ainda tinha folgasia para, durante muitos Kms, animar as romarias. Mas essa gente vinha de centros onde tinham tudo à mão! Eles atravessavam as aldeias de noite e de dia, sempre a cantar e a tocar concertina, originando autênticos folclores em movimento. No alto do monte eram lançadas todas as noites, centenas de canas onde estavam ligados os petardos ruidosos, mas uma coisa eu consegui fixar! Nunca houve fogos florestai ou matos, com tanta pólvora queimada, talvez devido ao facto de os gados fazerem as suas limpezas na montanha e raparem os matos e as ervas.
Isto porque, muitos anos depois, já sem gados para raparem os matos e as ervas, da primeira vez que fui à festa da Madalena, na fronteira espanhola, logo a seguir a Lindoso, o fogo e o fumo correu connosco para os lados de Soajo, onde vi pela última vez o meu amigo Américo do Sistelo que veio da América despedir-se das suas gentes, e voltou para morrer junto da mulher e dos filhos. Disse-me a bebermos uns copos que nunca mais nos veríamos! Tinha o cancro no pulmão e sem hipótese de se salvar com os melhores médicos do mundo, na época.
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A beleza única da videira e do cacho
Mas as latadas da aldeia eram parte integrante do nosso mundo. Eu via os donos podarem as videiras, cortar a ráfia por sinal cedida pelo meu pai, e com as fitinhas atarem as videiras aos arames que se entrecruzavam. Esse aparato era para mim uma autêntica beleza, e depois a beleza continuava. Com o correr do tempo, os gominhos começavam a inchar, depois brotavam em força, começavam a crescer e a distender-se de arame para arame, onde as gavinhas se agarravam até transformar a latada num corpo único, todo verde que, pelo verão fora, dava a bela sombra! Apareciam os cachinhos quase micros, depois a sua pujança e depois, mais tarde, a beleza total acompanhada da respectiva vindima e o fervilhar dos vinhos! Essa beleza nunca mais verei, na minha aldeia!
Com a chegada do Outono as folhas das árvores, começaram a empalidecer e, a meus olhos, essa atitude, faz-me avivar a memória de outros tempos, outros Outonos. Umas já estão mortas e caiem, outras estão pálidas ou começam a acastanhar.
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O amarelecimento, a dor e, de sguida a morte
Os fetos dos nossos montes terminaram o seu ciclo, e ao longe vêm-se clusters castanhos, da sua existência que tanta esperança nos mostraram desde a Primavera.
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Os fetos já morrem
Os carvalhos já estão a ficar amarelos e as suas folhas sem aquele cheiro característico com que nos brindaram pelo verão fora, preparam-se para enfeitar a paisagem em moldes diferentes até à sua queda final. Os castanheiros já estão a empalidecer e os ouriços abrem-se no seu sorriso habitual mostrando o fruto que cresceu no seu ventre.
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O sorriso do ouriço
Os sobreiros deixam cair as bolotas às primeiras rabanadas dos ventos outonais e no chão os gaios as apanham e seguram nos bicos. O ciclo lindo do verde da esperança terminou e agora novo ciclo prepara o seu arranque. As árvores de folha caduca, estão a deitar fora as suas velhas vestes e no seu íntimo, preparam para nós outras passerelles onde brevemente desfilarão as novas modas, sempre verdes, Primavera-Verão.
Tudo isto me faz vir à memória a morte que sempre nos rodeia. Lembro-me da morte do carvalho de Versalhes devido, dizem, à pujança do calor. Era um carvalho com 300 anos.
E recordo-me de há alguns anos me dizerem de um modo aflitivo que estava a morrer o nosso monumento vivo, lá na terra, o Carvalho de Eixão, aquele de que vos falo atrás sobre o Druida e a minha célebre sardinhada, a última que tive com a minha mãe. E lembro-me de me contarem histórias como aquela de que quanto maior a tempestade, maior resistência os carvalhos ganham!
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A beleza do carvalho e suas bolotas
Lembro-me também de me dizerem de forma empírica que a morte dos carvalhos era devida a um insecto que lhe picava e matava as células do crescimento. E segundo afirmam, assim tem sido durante os últimos anos. Seja porque razão for, os carvalhos perdem pujança, tornam-se efémeros na sua virilidade e, como tudo, morrem. Mas uma coisa é morrer na devida altura e outra coisa é ter uma morte precoce e para um carvalho uma, duas, três centenas de anos é precoce.
Nos anos sessenta, escrevia-se que o carvalho de Nápoles era do tempo de Cristo e que S. Pedro e seus acompanhantes, se sentaram algumas vezes à sua sombra. Verdade ou mentira, isto define por si, o verdadeiro ser que é um carvalho, e faz-me também vir à memória esta frase:
“Felis aquele que vive como um carvalho, mas é sensível como os lírios”.
Belo cantinho ventor.
Consegui ler tudo de corrida e tive de entrar para te dizer obrigado. Consegues descrever lindamente a vida numa das nossas aldeias que eu não faço ideia. Fico admirado como choras por dentro os teus primórdios sem te lastimares. Apenas choras a felicidade dos teus tempos de criança e ... tudo o que o caminhar do tempo te reservou.
Eu sei que choras ventor pela alegria da vida difícil que, apesar de tudo, tiveste.
Mais uma vez obrigado pelas tuas fontes que brotam a eterna frescura.
um abraço.
Os pipos vão ao rio
(basta-me que um ou dois gostem para prosseguir enquanto houver viabilidade técnica)
Pelo mês de Setembro, ainda o rego leva água para regar as ervas ou os milhos dependia do ano ser seco ou não, mas o rego funcionava, mesmo que fosse apenas para tratar dos pipos!
Eu era pequeno e via-me aflito para passar no caminho junto à margem do rego para a veiga logo junto à ponte, onde era a tomada de água. Ali os pipos e as pipas onde os vinhos seriam guardados, eram desmontados, ficando aquelas madeirinhas espalhadas a secar, depois de lavadas para lhe tirarem o sarro do ano anterior, para outra vez serem montados, onde os homens da terra desempenhavam a sua tarefa de autênticos tanoeiros. A minha especialidade era ver a montagem, porque desmontar um pipo é a coisa mais fácil do mundo, depois da secura do verão. Depois de lavados e montados, ficavam por ali uns dias cheios de água para que as madeiras inchassem e vedassem. Havia também um tratamento à base de enxofre. No entanto eu queria era ver como se apertavam os aros de ferro, não fosse um dia ter de me amanhar.
Depois os homens lá se ajudavam uns aos outros e, conforme os tinham tirado das caves, pequenas adegas improvisadas, às vezes uma esquina na própria corte do gado, ou um pequeno cortelho, em forma de anexo, assim lá os voltavam a colocar, prontinhos para receberem o futuro vinho novo, preciosidade de Baco, que brevemente iria estar pronto para os encher.
Depois desse tratamento, vinham as vindimas e todas as operações subsequentes, das quais eu só gostava de duas. Pisar o vinho e, depois, ver como ele fervia deitando cá para fora todos os lixos residuais. Também me entretinha no nosso lagar com uma prensa de rosca de nogueira a fazer força de homem a ver se me tornava numa espécie de Hércules, de quem nunca, até então, tinha ouvido falar. Mas esfarrapava-me todo a dar o litro para tirar todo o líquido dos pedaços de mosto que lá colocava. Podem acreditar que fazia um bom trabalho! Tinham de ser pedaços de mosto aceitáveis para a minha capacidade de fazer força. Em vez de fazer o trabalho à bruta, fazia-o com a devida delicadeza e a ligeireza, de quem tem outros argumentos.
Havia mais coisas que eu gostava, como começar a beber o sumo de uva, docinho, e depois o vinho novo com aquela espuma rosadinha que era uma autêntica beleza a lançar salpiquinhos contra as nossas narinas. E achava graça, às pessoas que faziam os vinhos levarem a canequinha na mão aos amigos para provarem as suas respectivas especialidades! Um dá uma caneca, o outro a seguir dá a caneca de volta e assim sucessivamente, consumando-se assim, a teoria do outro que, afinal, ninguém dá nada a ninguém. Mas era lindo! Hoje eu tenho, ofereço, amanhã tu tens e ofereces também. Tudo isto porque as vinhas provinham de locais diferentes e umas amadureciam primeiro que outras.
Assim, em trabalho e em festa, louvávamos o S. Miguel, mês das colheitas.
A Cereja
A cereja não era nada daquilo que vocês pensam! Não era o fruto da cerejeira, não era a cereja em cima do bolo, nada disso. Era apenas e só uma vaca! Uma vaca do nosso gado, por acaso, raça barrosã! A cereja era mais ou menos da minha idade. Era filha da Ribeira a vaca que dava leite para mim, do melhor leite que alguma vez a maioria de vocês, para não dizer todos, possam imaginar, como há leite bom neste mundo. A ribeira e a Redonda revezavam-se como fornecedoras especiais e preferenciais do vosso amigo Ventor. E a cereja, a tal filha da Ribeira era apenas, mais uma das que eventualmente encheriam os mais pobres da nossa aldeia do bom leite da nossa terra.
Pensava eu quando tinha o vitelo que já tinha leite para subir a aldeia até ao cimo, para levar à mais velhinha senhora de Adrão com 96 anos e ao seu gato, e que uma das outras duas passaria a ser seca. Isto é, preparada para não dar mais leite e ser coberta pelo boi para mais uma futura cria! Era a minha mãe que me pedia e era uma profissão de fé que eu tinha sempre! Mas a nossa cereja não ia nisso! Dar leite, isso dava, mas o leite dela não era como o da mãe e o da tia. Logo que o bezerro fazia o desmame, o leite da cereja acabava! Era um leite muito fino, muito aguadilhado, quase sem gordura!
Mas a cereja tinha uma coisa boa, dava-nos muitos e bons vitelos. Já aqui contei parte da sua história, mas vou relembrá-la. Era uma vaca que não queria os vitelos e que não deixava tirar os primeiros leites a não ser à força. Esta história vocês já conheceram, mas não conhecem o seu fim! A cereja, foi levada por mim, pela manhã, para uma tapada, juntamente com as outras e quando à noite as fui buscar, contei-as e faltava uma! Faltava a minha Cereja! Eu andei abaixo e acima convencido que tinha dado qualquer coisa à vaca. Procurava em tudo que era sítio e, a minha irmã, mais velha que eu, já desconfiava de tudo o que lhe tinha acontecido. Eu andava pelos sítios da tapada onde o meu pai tinha visto a grande cobra cuja prova fez com a camisa que ela tinha largado nesse verão. A tal que o homem da aldeia da Várzea, ao vê-la, só parou em casa a fugir pelo monte abaixo!
Ia de cabeça perdida e quando encontrei o meu pai, ele disse-me que o regatão a foi buscar, que a tinha vendido! Chorei que nem um desalmado! Chorei pela minha cereja, teria 9, 10 anos, como teria chorado por uma pessoa. E a partir dessa altura, haveria de ver sempre as pessoas com todos os olhos imaginários possíveis. Nunca mais acreditei em ninguém!
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Uma Cereja
Ainda hoje, sinto uma terrível perda a venda dessa vaca! E ainda hoje ela está registada na minha memória. O meu pai tinha desistido de a vender, mas o palhaço do regatão, alguns dias depois, voltou e ofereceu mais dinheiro. E como alguma delas teria de ir de vez em quando, foi a minha Cereja, a vaca que cresceu a meu lado, a minha companheira de todos os dias. Elas e os cães, eram os meus verdadeiros brinquedos. Não tinha mais nada!
Hoje vasculho no sótão da minha memória e ainda me apetece chamar pela minha Cereja! Ouço-a berrar a ameaçar o vitelo, a pontapear a lata do leite e a caiar de branco a minha irmã, a minha mãe ou o meu pai. Sempre que ela tinha um vitelo a aldeia toda acordava a qualquer hora da noite. Depois de tanta luta, tanta zaragata, a felicidade voltava à corte com a Cereja a lamber o seu baby e a presentear a família com tanta meiguice que fará morrer de inveja qualquer mãe!
Isto tudo porque sentado a beber o meu scotch, vi nascer um vitelo na Quinta das Celebridades! E guardo cá para mim, que as únicas celebridades que por lá vejo são os animais que têm de aturar toda aquela palhaçada!
Castanhas para Todos
As castanhas. Continuam a fazer parte da minha vida. Quero recordar-vos, apenas, que estamos, mais uma vez, no tempo das castanhas e que não vos vou falar apenas das castanhas de Sintra! Vou colocar os carrilhões da memória em marcha!
Falando dos meus tempos de caçapo, recordo-me do Souto da Várzea. Era o local, nas redondezas, onde havia mais castanhas para todos, lá na minha terra. Um tio meu tinha três castanheiros e quando viu que eu gostava tanto de apanhar as castanhas, ele disse-me que os castanheiros dele eram meus! Eu senti-me logo um puto rico, pois como nunca as comeria todas, podia oferecer castanhas para todos. O que ele queria era que eu não fosse às castanhas à Várzea com os outros!
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Aldeia da Várzea - O Souto da Várzea fica à direita desta foto, junto ao rio.
Claro que eu apanhava as castanhas para todos. De tarde ia buscar as vacas e tinha dois castanheiros sempre na passagem. Levava uma saca e trazia a saca cheia de castanhas. O outro castanheiro estava no sítio oposto e aí não tinha hipótese de apanhar as castanhas mas alguém se encarregava delas. Adorava ver as castanhas a assar nos braseiros quentes do Norte gelado e adorava sobretudo nos dias como os de hoje de chuva ferrada com cara de cão mau! Sentava-me numa cortiça, no meio do Borralho, com as pernas cruzadas, à Buda, e iam-me passando as boas. As quentes e boas!
Era eu que trazia os petiscos e era a minha irmã que se encarregava da confecção. No caso das castanhas ela dava-lhes o corte, punha-lhes o sal e tratava de tudo. Ainda hoje eu só sei apanhar as castanhas e depois comê-las e se não as apanhar compro-as. As apanhadas têm outro sabor. O sabor da memória!
Mas para além de meia dúzia de castanheiros, pouco mais, lá na aldeia, alguns nunca tinham castanhas. Mas os castanheiros da Várzea, com anos melhores e anos piores, davam sempre castanhas e era lá com a conivência das gentes da Várzea que nós enchíamos as sacas! Hoje quando passo na estrada da montanha e olho a Várzea lá em baixo, quase que não a reconheço. Lá no fundo onde havia um rio, hoje há um braço da grande Barragem do Lindoso. Os seus castanheiros foram levados pela grande construção, nem sei se haverá castanheiros no que sobrou no Souto da Várzea, porque também deu a ganância nos fornecedores de madeiras para as fábricas do mobiliário. Nesses tempos em que eu dei à asa e levantei voo, chegaram os sugadores de castanheiros.
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Mas hoje eu tenho dois belíssimos castanheiros. Um dá belas castanhas e outro, assim, assim! Um fui eu que plantei e terá hoje 50-51 anos, o outro foi meu pai e terá menos uns aninhos. Pensou em arranjar companhia para o meu castanheiro lindo que eu deixei a crescer e que mais tarde serviu para se lembrarem de mim! Sempre que lá vou faço umas festas nesses castanheiros, e conversamos numa linguagem que ninguém entenderá.
Mas ainda hoje, quando vou ao Norte, posso encher a saca de castanhas nos castanheiros do Mesio. Eu era pequeno quando eles foram plantados e vi-os crescer quando jovens e depois sempre que passava. Hoje os castanheiros do Mesio dão, em anos bons, toneladas de castanhas para quem as apanhar! São mesmo castanhas para todos! Só que o bicho homem agora tem que as dividir com os outros bichos e bem. Hoje as castanhas do Mesio são quase todas comidas pelos javalis e pelos esquilos. Os javalis tinham sido extintos e, os esquilos, creio que nunca lá tinham existido, pelo menos no meu tempo. Quando eu apareci neste mundo ainda se via um javali aqui outro acolá e eu cresci os primeiros anos a ouvir falar disso, mas o homem e o lobo encarregaram-se de os exterminar. Hoje já há javalis à farta e os esquilos são uma maravilha! Após terem sido introduzidos nas fraldas da serra de Soajo, uns e outros se encarregam das belas castanhas do Mesio Ao cair da noite e de madrugada, a serrania do Mesio faz lembrar as Lânguas de Marrupa, terreno mais sereno e adequado à existência do Fococchero!
Massarico
19-10-2004, 20:19
Ventor, não me canso de ler isto. O problema é que quero lá ir num dos meus fins de semana temáticos, pelo que agradecia que fornecesse informações mais detalhadas sobre estes locais. Onde são, em que município, vêem no mapa?
Uma beleza as tuas fontes de memórias Ventor. Pelo que já vi por aqui, antes e agora, tens veia e tens infraestruturas para não ter fim.
um abraço.
O Rio
É o melhor rio do mundo para o Ventor. É um rio em que todas as pedrinhas, todas as cachoeiras, todos os poços, todos os salgueiros, todas as silvas, todos os tufos de carriço e os carvalhos que sobre ele se debruçam para espreitar o movimento das águas e escutar as suas melodias, estão registados em forma de imagens que não há foto alguma que consiga captar!
O Rio!
É verdade que já foi o maior rio do vosso amigo Ventor, quando ele com um pé sobre uma pedra, media a distância com o olhar para a outra a ver se conseguia dar mais uma das suas firmes e célebres passadas. Tantas vezes, numa dessas passadas, o Ventor tinha de por a roupa a enxugar para não andar molhado!
Mas o rio nasce lá no alto da montanha por debaixo do pico máximo que se vê da aldeia, o Alto da Derrilheira, mum local que se chama Sorreiros. Esse local, há muitos anos atrás, era um grande matagal de urzes compactas por entre as quais subiam e desciam as cabras da aldeia enfrentando os lobos maus. Pelo cerro da montanha abaixo fica o Alto do Lombo! As primeiras águas dos Sorreiros, no verão, correm devagarinho perante fetos e urzes e dirigem-se lentamente para a corega da Naia. Do lado oposto há outra nascente que debita as águas para o rio de Bordença onde existe uma ponte rudimentar que dizem ser romana. Por ali se caminhava rumo á Galiza, mais um dos Caminhos de Santiago.
Agora vou-vos contar a história de uma minha amiga. Uma gotinha de água a que chamo Sonhadora, que nasceu e desceu o rio durante um mês de Julho.
A Sonhadora nasceu ali nos Sorreiros. De dentro do monte brotam as gotas de água e a Sonhadora, uma dessas gotas que corre ao lado de muitas outras, tal como o Ventor, rola apreciando a paisagem. Ela sai das entranhas da terra, olha Apolo lá no alto e começa a apreciar tudo, desde o mais simples ao mais complexo obstáculo. A gotinha respira fundo e o seu primeiro encontro é com a areia que se desvia à passagem rocambolesca do seu grupo. De frente encontra um tufo de ervas e ela topa uma ervinha mais isolada e entra na base do seu eixo correndo em todo o seu cumprimento e depois, já na ponta, espreguiça-se um pouco e forma o seu primeiro salto perigoso. Enrola-se toda e sem largar o grupo vai de encontro à primeira rocha, onde faz ricochete e é atirada contra outra. Depois, ela e as suas amigas, prosseguem no seu caminho onde se vão juntando a mais gotas, muitas gotas provenientes de outras fontes e vão se misturando umas com as outras formando já um belo corpo líquido.
Mais abaixo, mais um encontro.
As gotas que descem da Fonte da Naia encontram-se com as que descem dos Sorreiros e engrossam o grupo que já canta laudas aos belos montes por onde caminham e por onde também caminhava o Ventor. Em cima de uma pedra molhada está uma rã cantarolando ladainhas à água e mais ao lado uma cobra fazendo que canta entretendo a água e tentando enganar a rã. Ali começa logo a guerra dos mundos. Mais em baixo, um grande sardão verde, com parte do peito e do pescoço azuis, muito sereno, sobre a rocha meio molhada ao lado da qual caminha um insecto a que chamam escaravelho. A este o lagarto tenta enganar fazendo que naquele momento só os raios de Apolo lhe interessam. O escaravelho entretido a ouvir o cantarolar da água, no instante que a Sonhadora lhe grita "cuidado", deixa-se apanhar pelo lagarto que louva os deuses por mais aquele petisco que lhe vai dar energias para continuar a sua caminhada com Apolo.
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Junto ao Alto da Derrilheria, por baixo, nasce, de quando em vez, a minha amiga Sonhadora, conforme os ciclos que a mantêm mais aqui mais ali, ela vai andando sempre no encalço dos seus sonhos e dos meus, pela serra de Soajo. É, por isso, uma minha grande amiga!
Mais em baixo outras águas se vão juntando. As que nascem na Chãe do Boi, e na Charneca, na margem esquerda, e as que nascem na margem direita ao fundo do Alto do Lombo até Fontoura. A gotinha continua a caminhar e depois entra num sítio onde não mais vê os raios de sol durante muito tempo. É um troço terrível onde ninguém se lhe chega e a que chamam o Rio da Fraga! Foi ali que existiram as últimas corsas das montanhas de Adrão. Ali houve corsas segundo me diziam ainda no meu tempo e por ali as águias se mantinham sossegadas sem que ninguém as martirizasse quando queriam descansar. Chamam-lhe o Rio da Fraga, eu chamar-lhe-ia a Garganta Negra. Ali, eu tenho a certeza que, ninguém, a não ser corsas, águias e falcões, pouco mais, nenhum ser humano se atreveu a por os pés junto ao rio. Eu bem tentei e nunca consegui e sítio onde o Ventor tentasse e não conseguisse, mais ninguém tentaria.
Mas continuando a receber amigas, a nossa Sonhadora sai da sombra e volta a exibir-se para todos que fazem o mundo lindo, como o Ventor e seus amigos, as vacas, as cabras, as ovelhas e demais animais, sem os quais o cantarolar das águas não teria qualquer interesse. A Sonhadora voltou a gritar: “o mundo é lindo”!
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Todas as gotas nascem assim e uma a uma formam sempre o seu grande grupo que tem por sonho atingir o mar.
E é! A nossa gotinha, na sua caminhada, procurava não ser ingerida pelos animais que se aproximavam da água onde procuravam matar a sede e só pensava prosseguir o seu sonho – chegar ao mar!
Ao entrar no troço do rio a que chamam Rio da Leira, além das gotinhas ingeridas pelos animais a gotinha perdeu muitas outras amigas, que foram desviadas para regarem as terras. Mas sempre no princípio de sorte de uns e azar de outros, a Sonhadora continua a sua caminhada e, mais abaixo, é desviada também para um rego de água, mas este levava a água para fazer rodar a mó do primeiro moinho que aparecia na aldeia. Numa leva muito a pique ela sentiu cócegas na barriga bojuda e foi atirada a alta velocidade contra aquele rodízio de madeira que fazia rodar em cima a mó que esmagava o grão de milho do ano anterior, o predecessor do tal que as suas amigas tinham sido chamadas a proteger da sede para que, no ano seguinte, outras gotas levassem a bom caminho outros milhos e outros moinhos.
Saída do moinho, ela volta ao rio e caminha de mansinho de poço em poço, ao mesmo tempo que ia ficando nos recantos, em remansos de águas apreciando o que se passa em redor. À sombra dos salgueiros um melro desce à água e bebe numa pocinha de outras águas que rodopiam lentamente entre os carriços. Mais ao lado, uma alvéola ou lavandisca, pousa numa pedra húmida ao seu lado, dando ao rabinho de penas negras, movimentos verticais, cirandando rio abaixo e rio acima. Mas não fica por ali. Uma toupeira de água passa juntinho e ela que é empurrada pela força motriz que a toupeira origina à passagem. Por ali a gotinha continua rodopiando lentamente e mais um belo bicho passa sobre si e ela, pelas experiências dos ciclos de vida que tem, repara mais uma vez tratar-se de um guarda-rios. O guarda-rios segue rio abaixo e a seu lado no remanso de águas originado pelas forças de retenção que a obrigam a permanecer por mais algum tempo naquele local havia um belo baile de outros bichos seus conhecidos. Era um baile de cabras cegas.
Por fim, a Sonhadora segue viagem. Desce o rio com a lentidão proporcionada pelas securas do verão. Num poço uns putos tomam banho e mergulham nas águas mais profundas e a Sonhadora, embora sempre alerta, entra na boca de um deles e pensa que é o seu fim. Mas não, o puto deita a água fora e a Sonhadora acabou por se desenvencilhar de um possível martírio. Prossegue viagem até à ponte, mas antes há mais um rego e a passagem por mais um moinho. Porém, desta vez, a Sonhadora continua pelo rio e outras amigas encaminharam-se para as águas do moinho. Enquanto elas passam por cima para depois caírem a pique com as cócegas na barriga, a nossa amiga Sonhadora foi-se meter em mais uma alhada. Ao lado do moinho estavam mulheres da aldeia a lavar roupa e a Sonhadora ia asfixiando no meio do sabão azul e branco. Mas por entre camisas, lençóis, e mãos que a tentaram esfarelar contra a rocha, a Sonhadora escapou-se para o poço de baixo. Ali andavam amigos do Ventor a apanhar girinos para aprisionar em charquinhos de água. A gotinha esteve quase cercada num desses charquinhos, mas escapuliu-se para o poço, junto à ponte, onde haveria mais uma divisão de águas e onde a Sonhadora poderia ter perdido o seu sonho.
(Vai continuar)
A Sonhadora sai do poço da ponte.
Junto à ponte, a Sonhadora rodopia em volta da pedra solitária a que em miúdo o Ventor chamava o “umbigo do poço da ponte”. Mais uma vez um dos putos corre pela água dentro em busca de mais um girino e rumo ao socalco do caminho que leva ao moinho, corre apressada uma cobrinha de água toda atrapalhada a esconder-se num dos seus buracos. Empurrada pelo desviar de águas originado pela corrida do rapaz, a Sonhadora encaminha-se serenamente para o rego da rega que vai regar os campos de milho da Veiga. No rego que vai atravessar Outeiros, outro puto brinca com a parte cimeira do milho, aquela que chamamos flor, e lá na aldeia tem o nome popular de crocha – a crocha do milho.
A Sonhadora já vê o seu sonho terminar ali. Estava feito o seu desvio de caminho e adeus mar, pensava ela! Ela agarra-se à crocha do milho com que o rapaz brincava, podia ser que ele a tirasse do rego e ainda lhe desse chances de atingir o rio. Mas não! A crocha do milho prosseguiu viagem e passou por debaixo de algumas casas da aldeia, onde o rego entra, mas não sem antes umas galinhas tentarem penicar a crocha ficando a gotinha amedrontada com aqueles bicos cónicos a serem enviados como martelos contra ela aqui e ali, mas sem ser apanhada.
Foi direita à morte, pensava, porque não mais sairia inteira da lavoura que fosse regar e seria perdida para sempre entre as ervas e os torrões de terra, sem voltar a ver o mar com que sonhava. Mas a mãe do Ventor tinha feito um acordo com o próximo utente da rega. Primeiro regava ela, por conveniência das duas mulheres e depois de regar enchia a poça da veiga, cuja água iria apenas regar a horta das couves, posteriormente, com mais vagar. E assim foi! A nossa amiga gotinha, caminhava pelo rego direita ao desconhecido cheia de tristeza, muito infeliz! Valia-lhe o esvoaçar das borboletas e ver correr em sentido contrário molhos de hortelã e agriões selvagens que sobreviviam junto ao rego e que por vezes o Ventor apanhava, lavava e comia.
De repente cai na poça de uma altura de metro e meio e sente que uma força a retém. Um torrão de terra e uma pedra de encontro ao buraco, retém toda a água que passou a encher a poça para mais tarde regar as couves. Ali na poça, pendurados de um socalco, estavam fetos, avencas, uma dedaleira e muitas flores selvagens brancas, lilases, azuis, amarelas e em seu redor só se ouvia o zunir das abelhas e uma ou outra vespa a tentar arranjar alimento para as colmeias nas suas tarefas diárias. Mais à frente, um louva-a-deus despedaça um insecto numa voracidade arrepiante e a Sonhadora pensa que, afinal, o Mundo já não lhe parecia assim tão bonito. À superfície da água da poça caminhava apressada uma cobra que ia atropelando a Sonhadora, já sem sonho. Também um tira-olhos amarelo com o corpo anelado de um verde negro, que é conhecido na aldeia por “bate-cu”, cirandava sobre as águas da poça, como se tentasse tornar um ambiente mais agradável à gotinha, mas esta não gostou muito pois o tira-olhos, de facto, tanto ia batendo o cu na água que por várias vezes ia apanhando a nossa amiguinha desprevenida.
A mãe do Ventor veio mais tarde soltar a água da poça e disse ao Ventor para tapar as galerias abertas pelas toupeiras em certos troços do pequeno rego que vai levar a água até à horta. O Ventor com uma sachola tentou fazer o que podia, mas de repente deu com uma galeria muito bem definida e hoje, ao recordar-se, lhe faz lembrar o actual túnel de Belas. Assim com o buraco tão perfeito, pensou o Ventor, vais morrer afogada e assim ficarás farta de fazeres a água desviar-se do seu curso, mesmo que involuntariamente.
Assim foi. Dada a sentença, e imediatamente executada, o Ventor nunca soube se a toupeira morreu afogada, mas soube que a nossa Sonhadora e muitas das suas companheiras de viagem entrou na galeria da toupeira e caminhou direita ao socalco da lavoura de onde saíram por um buraco e caíam sobre uma dedaleira e, através das suas folhas largas, pulavam de mais de 20 mts para o rio. Ao lado dessa dedaleira estava um pequeno vidoeiro e a Sonhadora ainda saltitou de folha em folha pelo vidoeiro abaixo até atingir o leito do rio que voltava a encarregar-se de a levar rumo a um futuro mais longínquo.
A Sonhadora agradeceu profusamente ao Ventor e à toupeira a sua possibilidade de fuga, mas imediatamente eu lhe disse que podia agradecer aos “elementos” e à toupeira pois eu precisava dela para a rega. Mas ao vê-la tão contente achei que tinha sido boa a ideia da minha mãe em me mandar tratar das galerias da toupeira.
Mas devido à secura do ano cada vez havia menos água caminhando rio abaixo e a Sonhadora começou a tremelicar ao saber que ainda ia ter um caminho horroroso pela frente.
(vai continuar)
A Sonhadora continua viagem
Já no rio, no poço onde o Ventor tomava banho, por debaixo das lavouras da Veiga, ela sai por entre dois tufos de carriços onde se alimentava uma lesma negra daquelas muito grandes e a Sonhadora, ao roçar-se naquela pele enrugada e viscosa, arrepiou-se toda e foi logo encaminhada para mais uma leva de água que se dirigia ao moinho da Turgueira. O moinho não trabalhava, pois mesmo com o engrossamento dado pela nossa amiguinha, o grupo de triliões de gotas que formavam aquele pequeno caudal não dava energia suficiente para mover a mó. Então passou pelo moinho que apenas lhe serviu para fazer cócegas na barriga mais uma vez. Saiu para outro poço bastante fundo de águas pouco movimentadas e mais uma vez se viu e desejou para sair dali. Logo de seguida, a corega das Estacas trazia pouca água, mas já permitia mais uns golos para engrossar a pequena caminhada devido às regas. Dava-se o caso de às vezes terem de racionar melhor as águas para permitir moer o milho para fazer farelos para os porcos e farinha mais fina para fazer a célebre broa de milho, o nosso pão.
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O rio na zona a que chamamos Turgueira
Mais abaixo, mais um moinho, o moinho de Arriba dos Moinhos, e mais uma passagem de água que ainda não dava para moer. Mais uma escorregadela. Saída do moinho entra logo noutra levada para o moinho da tia Bondeira. Aqui a escorregadela foi maior e o poço que a recebia era negro devido à fundura. As trutas ali existentes movimentavam-se na caçada dos insectos que caiam na água e a Sonhadora ia-se roçando por aquelas barrigas escorregadias, de um lado para o outro até conseguir sair e mais abaixo entrar noutra leva de água para mais um moinho. Aqui percorre um rego entre silvas tojos e urzes e embate mais uma vez contra o rodízio de madeira e, aos salpicos, todas as gotinhas, de pedra em pedra, prosseguem viagem.
Agora havia mais um trabalho para o Ventor fazer. Como a água era muito pouca devido à secura do verão havia necessidade de tapar os poços ou pequenas barragens para reter a água. Enquanto a Sonhadora perseguia o seu caminho eu caminhava já a seu lado para fechar todos os poços que pudesse para acumular as águas pois, lá mais abaixo, era preciso levar a água para a Assureira onde o milho também precisava de água. Com uma sachola arrancava torrões bem consistentes daqueles em que os carriços cresciam entre as rochas e as raízes davam consistência e conjuntamente com umas boas pedras os poços iam enchendo. Este trabalho era feito pela tarde fora antes de cair a noite. E para que tudo fosse bem feito, começava de cima para baixo. O primeiro poço estancado e a nossa Sonhadora aprisionada dentro dele. Pensou logo que agora não se ia escapar!
Tapei o poço de baixo e outro e outro e por diante e durante a noite os poços iam enchendo todos. De manhã voltava à carga e começava a soltar as águas dos poços de baixo para cima. Mas ainda havia um moinho, por sinal o mais longe da aldeia, era o moinho do ti Dafonte. Era nesse moinho que aproveitando as águas dos poços ainda se podia, durante toda a manhã, e parte da tarde, moer o milho.
A nossa gotinha quando se viu aprisionada no primeiro poço, pensou que nunca mais sairia dali. Mas não! Rapidamente se apercebeu que teria de haver continuidade! Mal o poço encheu, ela saltou logo pelo local adequado sem fazer estragos e a nossa Sonhadora adivinhava-se mais uma vez nos caminhos do sonho. Quando o Ventor chegou de manhã para soltar os poços, começou por baixo e já lá estava a nossa gotinha. Mas as águas que de noite foram escorrendo rio abaixo ao chegar ao poço do moinho do ti Dafonte eram encaminhadas pelo rego da Assureira, mantendo o rego húmido, vertendo depois em locais apropriados para o rio mais lá em baixo e depois as águas dos poços caminhavam céleres até ao seu objectivo final, os campos de milho da terra da saudade.
A Assureira era uma branda de Adrão.
Uma terra rica com bouças de carvalhos, sobreiros, etç. e campos onde se produzia desde milho e centeio, muita uvas e outras frutas, como maçãs, peras, ameixas, pêssegos, figos, etç., mas em anos de seca era o diabo para fazer a água lá chegar. Haviam umas nascentes com pouca água e poças artificiais ou mini-represas que retinham a água para depois soltar e regar certas porções de terras. Mas o grosso da água de rega saía do rio lá longe.
Era um rego com alguns kms e o calor e as toupeiras com os buracos que abriam pelo caminho, originavam perdas de água. Então, para chegar água suficiente para a rega, nos anos secos, era necessário represar a água rio acima. Era um trabalho dos tempos dos meus visavós e havia necessidade de reconstruir esses poços todos os anos, devido aos estragos provocados pelas águas em fúria que o inverno proporcionava.
Era um trabalho hérculeo feito pela colectividade. Na reparação, deixava-se na parte mais baixa dos poços um buraco que permitia ser tapado e destapado para tapar e soltar as águas.
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Assureira, terra da saudade. Nesta foto, nem metade vemos. A maior parte fica por detrás num vale da montanha.
Ao abrir os poços o grosso das águas passavam pela leva de água que se dirigia ao célebre moinho e todos tínhamos uma tarefa a desempenhar. Na Assureira havia quem regasse, no moinho havia quem colocasse o milho e eu soltava as águas retidas. Para além de tapar poços e soltar águas eu ainda me amanhava na pesca das trutas, um bom complemento alimentício, um bom entretimento e uma brincadeira muito útil. As desgraçadas das trutas ficavam presas nas zonas baixas, em charcos onde se apanhavam à mão. Assim, cumpria a minha tarefa executando um trabalho útil e brincava no rio dos meus sonhos. Ainda hoje caminho rio abaixo, rio acima, enquanto durmo, porque tal como a nossa gotinha Sonhadora, eu também sonho!
Mas a gotinha continua a sonhar e ao chegar ao poço negro do dito moinho, ela revê-se com sorte. O poço é estreito junto ao moinho e a água sai disparada do moinho e entra pelo poço dentro, embatendo no rochedo logo em frente e é impulsionada em sentido contrário, a caminho da levada que se dirige para os campos da Assureira. Mas o poço não é estanque e ali passa a ser uma zona de fartura devida às águas retidas que foram libertas. A nossa gotinha segue em frente impulsionada para a direita pela maior força que seguia à sua esquerda dirigindo-se para a levada, empurrando-a para fora, transbordando rio abaixo. Num rio nada é completamente estanque, mesmo nas alturas de maior seca. Essa a sorte da nossa gotinha que continua a sua pedalada rumo ao seu objectivo.
Numa vida insegura, tal como a nossa, ela e as suas companheiras, cantam laudas ao mundo belo que atravessam. Desde poços com girinos, com trutas salmoníadas, com cobras d’água, com toupeiras d’água, com lavandiscas, minhocas nos baixios, borboletas que ficam presas, de quando em vez, nas teias de aranha que o Ventor destrói à passagem, mas logo elas preparam outra armadilha que lhes dá a sobrevivência e continuidade ao mesmo tempo que até à nossa gotinha metem medo.
Os tira-olhos e outras libelinhas são mais que muitos e vão pousando ao sol nos ramos dos salgueiros e o meu amigo Apolo, algumas vezes, projecta a sua imagem nas águas serenas com um belíssimo cheiro a lodo e a trutas e a nossa gotinha chega a amedrontar-se apesar de tanta beleza. Os guarda-rios, melros d’água, lavandiscas e demais passarada, onde não faltam os meus “pintinhas”, são companhia inseparável do Ventor e da nossa Sonhadora.
(vai continuar)
Mas que gota encantadora, ventor, que bela Sonhadora!
Que filme!
Vou ter de reler tudo outra vez. Que beleza fazeis tu e o teu Quico. Para mim continua a ser um prazer caminhar contigo.
Bjs.
Olá, Témis.
Tenho um plano para a gota Sonhadora, mas por enquanto fica por aqui este resumo. talvez ainda haja outro pois prometi continuar. Obrigado por achares que é um prazer caminhares comigo. Também tenho prazer que os meus amigos caminhem a meu lado, e lamento aqueles que desistem.
Haverá outras coisas.
Massarico, tenho um mapa da minha zona com a minha aldeia, mas não sei dele e tenho tentado entrar mo Netscape para tirar de lá a foto, mas tenho tido problemas para o procurar e colocá-lo aqui, pois não tenho a foto nem o mapa para fotografar. Não sei o que lhe fiz. Tenho uma foto no Netscape mas não abre sempre que tento. Uma chatice. Por isso é que ainda não disse nada. Continuarei a tentar.
Mm beijinho também para ti Témis e um abraço para o Massarico. Também estou à espera de mais Índia.
Massarico, não encontro o mapa para tirar uma foto decente e colocar aqui, mas tenho esta no Netscape e penso que serve.
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Uma fotografia que mostra a minha zona na área dos Arcos de Valdevez. Vê-se, mesmo sem grandes dificuldades os Arcos, Soajo, a Barragem do Lindoso, a Várzea, da outra foto em cima e depois, mais acima, vêm a Senhora da Peneda, Castro Laboreiro, enfim ...
Mas não é uma zona fácil de visitar de carro. De carro só olhada, e a pé seria preciso andar muito para observar as coisas lindas de que falo e que já não há. Normalmente, é uma visita que só aconselharia durante o verão. Já não há espigas do milho-rei, já não já os castanheiros de outrora, já não existem as latadas, o rio da Várzea foi absorvido pela Barragem do Lindoso, hoje já não se pode fazer ali contrabando, a "salto"!
Os montes choram pelo passado! Já não há cabras para comer os matos, já não há ovelhas para raparem tudo, já não há veseiras de gado bovino com fartura, já quase não se pode caminhar neles! As pessoas fugiram para a França, para a América, ... para o Mundo, e a velhice tomou conta de tudo. A maioria morreu, outros andam cá e lá arrastados pelos sonhos dos filhos de outros mundos. Houve tempos que eu entrava na aldeia e só ouvia as galinhas cacarejar, galos a cantar, um ou outro cão a ladrar e não se via ninguém porque andavam a tratar das lavouras, dos animais, da vida! Hoje não se vê ninguém, não por essas razões, apenas porque não há gente. Uns choram pelos cantos do Mundo o facto de não verem a "sua" Teresa na Casa Branca e já nem recordam as belezas do outro mundo que tiveram!
Podia escrever muito sobre isto, mas já te dei a ideia de uma hipotética viagem temática, como seria. Mas vale sempre a pena! Olhar, olhar, e olhar! Depois tens os Arcos, uma beleza, Soajo, a Barragem do Lindoso e só as paisagens justificam o sacrifício da caminhada. Nos Arcos tens uma capelinha onde o velho Afonso Henriques rezava antes e depois das lutas contra os primos galegos e junto dela a velha tasca do Delfim e tens o velho rio Vez, uma das maravilhas da natureza desde a sua nascença até à confluência com o Lima, de que os experts falam mas nunca a viram! É uma beleza que eu conheço desde a raiz.
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A Capela do Arco (era aqui que o D. Afonso ia rezar, por exemplo antes do Torneio de Arcos de Valdevez e não só)
Esta e muito mais, será uma viagem de sonho para qualquer um! Para mim é sempre, mas infelizmente nem sempre que quero posso me dar ao luxo de a fazer. A família, a pouca que resta, está espalhada pelo mundo e já não liga àquilo. Aparece de vez em quando tal como eu, para matar saudades.
Desceu o lance!
Ela aí vai rio abaixo, na sua caminhada lenta. Ainda vai ter mais regos, mas estão desactivados. Por ali já não há milho, a água não abunda e está na altura de apanhar os fenos. As águas já não vão regar mais até ser apanhada a pouca que escorrendo sempre de fonte em fonte, se juntam ao fundo da Assureira com as que vêm do rio de Bordença. Lá ao fundo vai haver mais uma leva de água mas para as gentes de Soajo que também estão ávidas das sobras que descem desde Adrão e Bordença.
A nossa gotinha, a Sonhadora, logo que sai do poço do moinho do ti Dafonte, afastando-se da leva de água para regar os campos de milho da Assureira, encaminhou-se rio abaixo, mas a água quase não desliza. Cada poço, cada charco, é uma potencial força de retenção. A água rodopia e encosta-se às rochas, aos tufos de carriço, e caminha por entre musgos e limos que algumas pedras ostentam como autêntico troféu de verduras. Encosta num recanto, avança para outro e mais um rego se apresenta à direita da sua caminhada. Ela caminha para o rego, mas o dono da lavoura encontra-se em França e a esposa só e com um filho pequeno, entende que não vale a pena semear milho e deixa o terreno de poulo ou pousio, para dar feno para o gado. Esse rego servia para regar o milho e agora o feno, mas este está pronto para cortar e a pouca água que segue o rego é, logo mais abaixo desviada do rego para o rio.
Nesse entretanto, o vosso amigo Ventor, apanha nos poços, quase sem água, algumas trutas que ainda vagueiam nos lodos e esperam uma chuvada que lhes traga a esperança de continuar vida. E chegada ao fim do rego, alguma água sai para o rio, mas entre a saída e o bloqueio da água há cerca de 10 mts de rego, devido à facilidade de bloqueio, onde a água se encosta e continuamente empurrada pela que vem de trás, fica ali como que parada e esperando a oportunidade de um empurrão com mais força das águas que, na próxima descarga dos poços, escorram rio abaixo e lhes dê alento para retomar a sua caminhada. Ali a nossa gotinha, esperando mais uma oportunidade, vai observando o que se passa.
Do lado oposto, está a montanha cuja encosta, junto ao rio, é o campo de treino do Ventor. Chama-se - o Grilo. Ali nos Invernos passados, o Ventor penetra em matos densos à procura das cabras e das vacas que ficavam para trás e era fonte de alimento de um fruto maravilhoso a que chamávamos “peros bravos”. Os arbustos que davam esses frutos, lá na terra chamam-lhes “escambrões”, e era na base desses arbustos que eram enxertadas as pereiras da Assureira e davam peras maravilhosas. Mas os escambrões são arbustos com grandes picos acúleos, que quase dá para segurar pendurada uma saca de pão e presunto como aquela que o Ventor levava para o monte. Mas, e isso eu não tenho dúvidas, porque vi muitas vezes, dava para os tecelões pendurarem cravados nesses acúleos, os pintassilgos que apanhavam e, com a barriga cheia, faziam deles a sua despensa. Eu cheguei a ter esperança de, com a minha fisga, derrubar, um após outro, todos os tecelões que por ali andavam. Não podia ver os meus “pintinhas”, tão lindos, espetados nos acúleos dos escambrões!
Os poços eram bem tapados, enchiam de água e, no dia seguinte, o Ventor ia soltá-los, para repetir toda a operação do dia anterior. Era uma tarefa que me estava distribuída pela minha mãe, tanto para nós como para a restante família, as minhas tias, e isso, porque sabiam que era uma tarefa árdua, mas que eu gostava e, quando o trabalho é feito com gosto, não custa nada. Era na altura das férias grandes e, na aldeia, as férias eram sinónimo de trabalho.
Mas na próxima leva de mais alguma água que espirrava do poço do ti Dafonte, segue rio abaixo e penetra no rego. Ao chegar ao desvio, a força da água volta a sair para o rio e a outra parte penetra até ao fim do rego expulsando as águas residuais anteriores, entre as quais se encontra a nossa Sonhadora. Mais uma vez ela aí vai, rio abaixo, farta de levar com os tira-olhos (a que chamamos batecus) em cima, de ver aquelas libélulas azuis de que o Ventor tanto gosta, cirandar por ali, pousando, de feto em feto, de silva em silva, ou no salgueiro que cobria as grandes rochas do rio e também de sentir estatelarem-se sobre si as pequenas rãs que saltavam para dentro de água às quais o Ventor dava um beijinho no lombo para lhe darem sorte na vida. De poço em poço ela chega ao poço maior do portinho do Curral das Cabras. E aí tem mais um azar, ficando na expectativa de uma feliz saída, pois encostou num grande recanto adequado ao bailado das cabras cegas.
Enquanto a Sonhadora vai rodando em ciclos nesse recanto, eu vou caminhando, rio abaixo, rio acima, também nos meus sonhos. Talvez um dia vos conte os sonhos completos meus e da gotinha Sonhadora, pois os nossos sonhos não têm fim.
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