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View Full Version : Fontes de memória


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Témis
14-11-2004, 23:30
Então ventor?

Não vais permitir que a gotinha fique indefinidamente nesse recanto, pis não? estou mortinha por ver o fim da gota mas não nesse recanto, espero!

Estou à espera de mais. Acho que essa gotinha aonda tem uma grande caminhada pela frente.

Gondar
16-11-2004, 23:14
Vamos lá Ventor.
Como diz a Témis, a gotinha não pode acabar no recanto desse poço. Espero que dês continuidade à caminhada da gotinha.
Duas situações diferentes e lindas a tua e a do Massarico que me obrigam a fazer por aqui, paragem obrigatória.
um abraço e vou aguardando.

Ventor
18-11-2004, 18:32
Um dia destes vi sete pessoas de volta de um computador a ler a história da minha gotinha. Uma brincadeira!
Então aí vai mais.
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http://ventorfox.blogs.sapo.pt/arquivo/eden154-031030.jpg

Muitas gotas de água fazem o paraíso.

A gotinha Sonhadora, ali ficou rodopiando lentamente, muito lentamente, a levar encontrões daquelas cabras-cegas, que tanta confusão, faziam ao Ventor. Ali se deixou ficar, levando encontrões das cabras-cegas, ao mesmo tempo que tentava esquivar-se, por entre duas pequenas lajes, que entre si era permitido entrar e sair alguma água. A água que ia entrando fazia uma minúscula ondulação que ia empurrando para o meio dos penedos a água residual e por vezes a que tentava entrar era a primeira a sair. Foi assim que a nossa gotinha ficou ali entrincheirada. Também lá estavam entrincheiradas algumas trutas que o Ventor não ligava devido à dificuldade de apanhá-las em buracos profundos entre e debaixo de grandes rochas.

Mas no lado, contrário ao local da gotinha Sonhadora, estava uma pequena leira encravada entre o rio e o rego que transportava a água para a Assureira. Do lado do rio dois potentes vidoeiros e mais uns arbustos do meio dos quais pendiam sobre o rio uma grande sebe de silvas e salgueiros. Do lado do rego uma sebe de silvas e escambrões, mais uns salgueiros, e entre a sebe e o rego ficava o caminho para passagem das pessoas e dos animais.

Nessa pequena lavoura, a produção do ano era batata. As batatas estavam grandes e também precisavam de ser regadas, trabalho que o Ventor sabia fazer muito bem e assim dava uma boa ajuda. Mas as batatas não eram só regar! Era necessário lutar contra um inimigo temível, luta em que o Ventor era um “grande especialista”! Essa luta era contra o ESCARAVELHO da batata. Alguns já tinham asas, mas a maioria eram larvas. Eram estes bicharocos muito feios, principalmente as larvas, que o Ventor apanhava e transportava sobre ramadas de fetos lançando-as ao poço. A gotinha Sonhadora, espreitava o Ventor de rabo para o ar, muito concentrado que até parecia que tentava encontrar no meio do batatal, pepitas de ouro.

Depois, o Ventor olhou, lá de cima, o poço a que chamávamos o portinho e achou que também devia de bloquear ali as águas para permitir que as trutas que se encontravam do lado da nossa gotinha tivessem água fresca e fosse possível a intercomunicação entre os dois corpos do poço. No meio do rio, na zona mais baixa entre duas pedras, passava a pouca água que escorria rio abaixo. Sobre essas pedras, as pessoas davam o salto sobre as águas para passar, e nesse ano, quase não havia água para alimentar o rio. Então o Ventor colocou bem encaixadas, entre as pedras da passagem umas pedras bem grandes, e uns torrões, bloqueando assim, na parte mais baixa, a passagem das águas fazendo assim aumentar o volume das águas no poço, tornando-o bem maior. À medida que o poço ia enchendo, atirou para lá com a sua colheita de larvas do batatal. As trutas que ali ficaram presas, pouco tinham que comer a não ser alguns insectos que caíssem na água e agora o Ventor presenteou-as com esse repasto. Escondido á sombra, entre os vidoeiros, via que lá vinham elas apaparicar as larvas vermelhas, agradecendo aos seus deuses aquele dia de fartura, em vez de agradecerem ao Ventor.

As trutas durante o verão, no rio com águas baixas, são presa fácil das cobras de água. Mal o poço encheu o que levou bastante tempo, a pequenina passagem tornou-se numa passagem muito maior e assim as trutas começaram a transitar entre as duas porções do poço. As trutas ficaram a ganhar e as cobras de água ficaram a perder. Como o poço engrossou, a possibilidade de se escaparem tornara-se muito maior e eu continuei, sempre que passava ali, a apreciar a sua fuga de um lado para o outro e a sua maior alegria de viver. Quando algum insecto pousava nos carriços do rio, nos fetos ou nos ramos dos salgueiros que se aproximavam da água, com o poço cheio elas saltavam de dentro da água e conquistavam o seu petisco como se de um grande troféu se tratasse.

Depois, ao fazer crescer o poço, consegui algo que não estava nas minhas intenções. Fiz com que aqueles corpos separados, que se comunicavam muito dificilmente, através daquele pequeno vaso comunicante, se tornassem num corpo só e assim a nossa sonhadora espraiou-se mais à vontade naquele já maior corpo de água e viu chegar a sua vez de reiniciar a sua caminhada. Porém, antes disso, teve a ousadia de, sonhando, tentar dizer ao Ventor como seria difícil esquecer aquelas maravilhas todas, pela sua vida fora. Por entre as pedras da passagem, mas a nível superior, rodopiou e lá seguiu a Sonhadora na procura de novos mundos, mas ainda dentro de domínios do Ventor. Ia iniciar ali a caminhada no troço do rio a que chamamos: - Curral das Cabras.

Engraçado, porque 18 anos depois, no mesmo sítio, ainda estavam as minhas pedras, havia outras trutas, na lavoura outras batatas, o poço estava quase vazio porque os torrões tinham ido nas enxurradas dos Invernos, mas as pedras permaneciam, para mim, como um monumento. Ali, numa demonstração de perícia para o futuro pai do Tomás e o seu primo, ainda crianças, apanhei uma grande truta à mão, mas depois de eles me dizerem para a colocar no gancho de pau, eu limitei-me a dizer: não! Esta teve mãe e pai como nós, que lhe contaram as suas histórias e ela conhece a minha história e eu quero que ela continue a viver. Claro que ficaram muito chateados!
Era também um mês de Julho, olhei em volta, com os calções e os ténis todos molhados, e lá estava o vaso comunicante, a permitir a entrada e a saída da água, mas mais água, mas a minha gotinha tal como aquelas todas tinha partido para o seu mundo como eu parti para o meu. Mas ainda vamos ver, mais um troço da sua viagem!

http://ventorfox.blogs.sapo.pt/arquivo/eden154-031030.jpg

http://ventor.blogs.sapo.pt/arquivo/ri-moinho.jpg

Vagas de gotas

Ventor
28-11-2004, 17:46
Ela aí vai, a nossa Sonhadora, rio abaixo, em mais uma caminhada. Logo à saída do poço onde se encontrava retida, o rio alarga, por charcos quase estagnados, e com muitos calhaus rolados. Nos tufos de carriço, que por ali se encontram, continuavam a circular libelinhas acastanhadas, tira-olhos amarelos e negros com asas translúcidas, mas por cima daquelas poucas águas quase paradas, circulavam, sobretudo, as libelinhas azuis, de um azul vivo, aquelas que eram da minha preferência. Naquele local, o rio era largo e tinha uma lavoura de cada lado ao cumprimento das margens, permitindo uma grande visibilidade em toda a extensão. Também haviam charcos onde as trutas tentavam sobreviver e neles a nossa Sonhadora tinha tempo para rodopiar e perder-se a apreciar as paisagens que das duas encostas se debruçavam sobre o rio. Era o rio a que chamávamos do Curral das Cabras.

Na lavoura da margem esquerda, que também era regada com a água do rego da Assureira, junto ao muro que cercava a lavoura e ao lado do qual seguia o caminho para acompanhar o rego, ficava uma parte de mato muito variado, com silvas, salgueiros, escambrões, vidoeiros e claro, não deixaria de estar ali um dos encantos do Ventor. Eram duas aveleiras! Estas aveleiras, a quem ninguém ligava nada, o Ventor chamava um manjar aos seus frutos, quando cheio de fome, no tempo das avelãs, se dirigia para o “Eido”. Eido é uma palavra de origem galega que significa “lar”, casa, aldeia, o dormitório principal das gentes que caminhavam pelas Brandas. Ora a Assureira era uma Branda e o Eido era o local da primazia das gentes, no caso, o lugar da pernoita, onde a sopa se fazia e se comia!

Logo mais abaixo, entrava no rio mais alguma água que vinha da corga do Curvação e que era pouco utilizada nas regas dos campos de feno em época de sega, sobrando alguma para engrossar mais um pouco o pequeno caudal. A nossa Sonhadora ia continuando a sua marcha de sonho em sonho e de rocha em rocha, onde espevitava a certeza da sua existência. Nessas alturas, admirava tudo o que o Ventor admirava. A extensa verdura dos carvalhos, dos salgueiros, dos vidoeiros, dos sobreiros, das videiras de estacada que trepavam os arvoredos e serviam de sebes nas divisões das propriedades. Nessas sebes os passarinhos saltitavam de raminho em raminho e de galho em galho aproveitando os bons momentos que a primavera e o verão proporcionam de grandes cantorias ao desafio. De toda esta beleza, ainda havia outra que complementava este belo mundo – o cheiro. Era o melhor de todos os perfumes que até hoje passaram pelas minhas narinas!

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Rio abaixo ao lado dos carvalhos.

Os melros de água e os guarda-rios continuavam companheiros na caminhada da nossa gotinha. As trutas e as cobras eram companheiras de desenlaces brutais e o Ventor, na sua passeata ribeirinha, olhava as águas do rio e de vez em quando deparava-se com esta terrível luta da sobrevivência de uns à custa da morte de outros. Era a cobra que apanhava a truta, que apanhava o pássaro, que apanhava o lagarto, alguns grandes sardões que davam luta mas acabavam muitas vezes nas mandíbulas de grandes cobras-rateiras, enquanto na encosta do lado direito, no monte do Curvação se expandiam em voos acelerados, as águias, os milhafres e até, segundo a voz do povo, os velhos açores então a extinguir-se. Esta bicharada fazia os ninhos nas grandes rochas escarpadas que dos montes marginais desciam abruptamente sobre a garganta escura onde corria de precipício em precipício o rio de Bordença que se dirigia para o fundo da Assureira, onde se encontrava com o rio do Curral das Cabras lá no fundo. No encontro destes dois rios, já apareciam as enguias e nos meus tempos de criança, por estas terras ainda haviam gatos-bravos, gardunhas, lontras…

Nos socalcos dos prados de feno do Curral das Cabras que davam para o rio, existiam cobras rateiras e ou cobras de água que mediam mais de 2 metros e que por vezes eu via aquelas barrigas brancas ou amareladas, sob um dorso castanho, verde ou negro, penduradas e retorcidas sobre os matos descaídos para o rio. Por vezes aquela barriga tinha lá dentro um bojudo ser acabado de engolir. Quando eu entrava naqueles campos de feno, apareciam uma espécie de cobrinhas pequenas que na minha terra chamavam licranços e as pessoas diziam que «mordidela de licranço não tem cura nem descanso». Tanto bichinho massacrei, e afinal, uma aldrabice que nos contavam, por falta de conhecimento ou para nos atemorizarem com os bichos.
Mas as cobras, essas sim, eram o meu terror! Também para haver equilíbrio estou convencido que nos devemos aterrorizar com alguma coisa e comigo a cobra pegou de estaca! Imaginem uma cobra e eu, a fugirmos cheios de medo um do outro, até parecia que estávamos em despique a ver qual o primeiro a chegar ao rio! De uma vez, corri tanto que saltei para um poço escuro e ao sair debaixo da água, vejo a cobra a passar ao meu lado. Até sair da água, achava que iam ficar agarradas às minhas pernas todas as cobras do mundo. Ao meu lado a gotinha apercebeu-se de quão desesperado eu estava com tanto terror!

Mais abaixo desse poço negro, eu e a gotinha, olhávamos um belo carvalho pendurado sobre o rio e ali outro poço onde, num belo Inverno anterior, eu apanhava trutas com a minha varinha de salgueiro, uma linha e um anzol. Só com esse anzol que eu tratava como se fosse de ouro, pois não tinha outro, apanhei imensas trutas e a minha encomenda de anzóis que fiz ao meu amigo Carrasco, nunca mais chegava. Nesse Inverno, com a neve na serra, ao tirar uma truta que havia ficado mal presa, ela saltou fora e ficou no rio e o anzol preso num galho do carvalho. Como não tinha mais anzóis, fui buscar uma machada para cortar o galho do carvalho, mas a machada escapou-se e foi cair no meio do rio. A água estava gelada, muita dela vinha da neve derretida, mas eu tinha de ir buscar a machada, porque fazia falta, para conseguir o anzol e para outras tarefas. Mergulhei no rio tirei a machada e depois parecia um cavalo selvagem a correr no meio das ervas para não arrefecer e secar.

E assim eu passei maravilhosos anos da minha vida de criança, numa terra de sonho. Esse ano foi o último ano de verdadeiras alegrias naturais e puras do vosso amigo Ventor. Nesse ano a gotinha seguiu rio abaixo à procura do seu mundo, do seu destino e eu já sonhava com o meu. Seguiu em direcção a Soajo, passando pelo moinho da Trapela, desviou-se do rego que seguia para regar os campos de Soajo com as águas trazidas pelo rio de Bordença. Caiu para o poço negro o poço que para os de Soajo era e é como uma piscina cheia das águas límpidas que desciam das montanhas de Adrão. Girou em volta do grande poço e depois encaminhou-se para entrar no rio Lima onde veio a encontrar outras grandezas, cada vez maiores e se encaminhou para o mar.

A minha amiga gotinha despediu-se de mim para sempre. Eu não me canso de ver, sempre que posso, as gotinhas que caminham na descida do meu rio, mas nunca mais poderei seguir aquele nosso trajecto!

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Hora de partir para o Eido, à despedida do meu amigo Apolo.

Ventor
06-12-2004, 21:58
Como esquecer?


Como esquecer a minha gente? Saído do ventre da minha mãe num dia gélido de Inverno, aprendi a dar os primeiros passos com toda ela. Hoje, recordo-os tal como ontem e a memória está sempre activa.

Recordo os mais velhos e vejo-os sempre a limpar os trilhos da minha passagem até voltarmos a encontrarmo-nos, um dia. Até lá, penso e repenso a beleza das nossas vidas simples e belas, mas árduas e duras!

Nós tratávamos dos animais para matarmos e comermos, só que aqueles eram os meus animais, os pintos que via nascer constantemente e através deles vinham os frangos de fricassé e muito mais mas, mais debaixo, chegados de Soajo, vinham coisas que eu nunca tinha visto, como outros animais. Em cima da cabeça da tia Pedreira e da sua filha, a Rosa, chegavam, em grandes alguidares zincados, as sardinhas, os carapaus, os chicharros, os jaquinzinhos, etç..

Em frente da minha janela, nas escadas da tia Bondeira, as caleiras, como se dizia e diz, lá no Norte, a tia Pedreira e a sua Rosa, cansadas de caminharem hora e meia, carregadas, desde Soajo até Adrão, elas pousavam os grandes alguidares cheios de paparocas que o Mundo nos fornecia

Eu chegava à janela e olhava aquelas mulheres com olhos de quem entendia como seria difícil, e como a minha imaginação teria de voar alto para saber quanto custava!

“Ventor, a tua mãe”?
Deve estar a chegar, não sei! Foi regar o milho à Veiga. “Olha, eu sei que ela vai querer estas sardinhas, dá-me aí uma travessa que depois faço contas com ela”.
Era uma beleza a tia Pedreira. E a sua filha, a tia Rosa!? Ela falava como os homens! Mandava tudo para o lado de lá das urtigas, com todos os palavrões que o Norte conhecia!

Não tinha papas na língua, e era uma bela mulher segundo diziam os homens e a minha olhada de menino pequenino já percebia. Afinal, desde pequeninos que sabemos fazer comparações.

Isto era feito constantemente. A tia Pedreira e a sua Rosa levavam ao meu berço, à minha aldeia, outros processos de matarmos a fome! Ali, nas escadas da tia Bondeira, fazia-se, o que mais tarde vim a saber, o mercado!

Nos meus tempos de Guerra, a tia Pedreira, vim a saber, tinha-nos deixado. Partira para além túmulo e nunca mais me mandou muitos abraços e beijos para o rapazola! Senti a sua morte como se fosse de família e saibam que há amigos e amigas que pesam tanto ou mais nas nossas vidas que a própria família.

Um dia perguntei a uma prima, que foi criada nos States desde os 2 anos, como aprendeu os palavrões feios da língua portuguesa. Não sei, o que sei é que quando a tia Rosa Pedreira ia passar uns fins de semana connosco ao Connecticut, falava-me de maneira diferente das outras pessoas da terra e eu perguntava à minha avó o que queria dizer isto e aquilo e lá fui sabendo.
Como ela era simpática e me ensinava tudo mesmo o que eu não queria saber!

Tu tens visto a tia Rosa Pedreira – pergunto-lhe? Quando ela estava na América, vi-a muitas vezes, agora só a vejo quando cá venho. Vou à casa dela a Soajo com a minha mãe. Está velhinha e muito doente. Já não sai da cama!

Há dias, depois desta conversa, fui buscar a minha prima aos Olivais, junto ao Parque das Nações, para a levar apanhar o avião para Newark. Vais embora assim de repente? Vou, tenho de preparar a ida dos meus pais, para quando chegarem terem tudo em ordem. Eles apanham o avião no Porto, três dias depois.

Ah, sabes?! Morreu a tia Rosa Pedreira! Telefonou-me a minha mãe, há pouco, a dizer que iam a caminho do Cemitério! Fez-se silêncio, e na minha cabeça passaram a correr imagens sem fim! Os meus olhos afogaram-se em maresias salgadas, da saudade. A minha meninice veio toda ao de cimo e eu senti-me mais doente ao ver o meu Mundo desfazer-se todos os dias!

Aqueles grandes alguidares zincados cheios de sardinhas que aquelas mulheres levavam à minha gente, fazendo dessa árdua tarefa o seu ganha pão, e o nosso sorrir, eu choro hoje tão alto como os seus filhos farão, por terras do Canadá e de Soajo.
Força Manel!

Ventor
17-12-2004, 20:10
No rolar do tempo.

Nas minhas caminhadas, tenho sempre presente, os meus Rios de Som e nunca esqueço esta canção!

Against the Wind, Bob Seger
Against the wind
I'm still runnin' against the wind
I'm older now but still runnin' against the wind
Well I'm older now and still runnin'
Against the wind
Against the wind
Against the wind
Estas são algumas das palavras que ficam na nossa cabeça ao ouvir a canção de Bob Seger.
São palavras que me abrem as portas da memória. São palavras que me transportam para o passado, e aí, quase por certo, estou sempre a reiniciar novas caminhadas nas asas dos ventos.
Eu também continuo a correr contra o vento! Desde pequenino que corro contra todos os ventos que molestam os meus trilhos. Por vezes os ventos eram galegos, gélidos, que avançavam pelas minhas montanhas até me tornarem roxo como um lírio das montanhas do Gerês.
Havia alturas em que o vento quase me arrancava o couro cabeludo mas esses ventos eram saudáveis. Hoje os ventos são outros! Tal como os cavalos da capa do disco de Bob Seger, eu também via os nossos garranos correndo furiosos contra o Vento e recordo como era belo fustigar os ventos quando eu os montava em pelo, tal como os índios das nossas cowboyadas cinematográficas. Quando ia à serra ver o gado e controlá-lo, de vez em quando, montava um dos nossos garranos, normalmente as éguas, muito mais dóceis e cheias de apetite pelo pão de milho.

http://mywebpage.netscape.com/lfranqueira/images/garranos_giao2.jpg

Cavalos garranos na Serra de Soajo

Um dia desapareceu-nos uma toura de junto dos nossos gados e para sempre perdeu as suas companheiras. Meu pai já andava cansado de a procurar, pela serra e pelas aldeias em volta e estava na hora de eu me organizar para conseguir essa busca complementar e tinha de ser enquanto não vinha a escola. Meti mãos à obra. Meu pai, nessa altura, tinha vendido um cavalo que era de um primo meu que depois ele lhe pediu para o vender, e eu esperava usá-lo na procura da minha Briosa Posta de lado essa possibilidade, juntei um grupo de cavalos e éguas semi selvagens ou selvagens, numa tapada da Chã do Boi, um local que não se via da aldeia. Escolhi uma tapada de alguém, com muito comer e água com fartura, pois não queria que os meus amigos passassem fome ou sede. Todos os dias uma égua me levava serra acima, e por montes e vales, fustigando o vento, procurava a Briosa. Andava nas aldeias em volta da serra a procurar se tinham visto uma toura perdida. Dava a descrição dela a todos com quem falava e como não havia telefone, pedia a mensagem pela senhora que fazia a distribuição do correio, mas a informação era nada.
Nessa altura eu odiava todos os lobos que existissem na serra de Soajo. Só conseguia imaginar aqueles horríveis canídeos agarrados à minha tourinha tão linda, a estrafegá-la à dentada. Um horror! Imaginem vocês que até as suas possíveis ossadas eu procurava nos locais onde ela tinha andado. Mas nada! Ela desapareceu num sítio a que chamam a serrinha, um monte que se tem um dos topos para o Fojo do Lobo. Foi ali que a vi a última vez, por isso podia ser morta pelos lobos na corga da Vagem, ou na corga que desce da fonte das Forcadas onde nascem as águas mais altas da serra de Soajo. Ainda no dia 11 de Setembro de 2001 eu estive no local, e tantos anos depois, ainda me vieram as lágrimas aos olhos, por ter nascido ali, no Poulo da Serrinha, a grande frustração da minha vida.
Continuo a correr contra os ventos! Ventos devastadores que sopram permanentemente no meu espírito. Sempre, sempre “against the wind”.
Por isso, vos deixo aqui, a letra desta bela canção. Against the Wind! “Ouçam” o Bob Seger!
Esta canção faz parte da minha vida futura, mas no passado, antes da sua existência, ela já existia no meu espírito e faz espevitar-me as memórias. Por isso, tal como outras, me acompanha sempre.
Bob Seger
Against the Wind
It seems like yesterday
But it was long ago
Janey was lovely she was the queen of my nights
There in the darkness with the radio playing low
And the secrets that we shared
The mountains that we moved
Caught like a wildfire out of control
'Til there was nothing left to burn and nothing left to prove
And I remember what she said to me
How she swore that it never would end
I remember how she held me oh so tight
Wish I didn't know now what I didn't know then
Against the wind
We were runnin' against the wind
We were young and strong, we were runnin'
Against the wind
The years rolled slowly past
And I found myself alone
Surrounded by strangers I thought were my friends
I found myself further and further from my home
And I guess I lost my way
There were oh so many roads
I was living to run and running to live
Never worryied about paying or even how much I owed
Moving eight miles a minute for months at a time
Breaking all of the rules that would bend
I began to find myself searching
Searching for shelter again and again
Against the wind
A little something against the wind
I found myself seeking shelter against the wind
Well those drifter's days are past me now
I've got so much more to think about
Deadlines and commitments
What to leave in, what to leave out
Against the wind
I'm still runnin' against the wind
I'm older now but still runnin' against the wind
Well I'm older now and still runnin'
Against the wind
Against the wind
Against the wind
Still runnin'
I'm still runnin' against the wind
I'm still runnin'
I'm still runnin' against the wind
Still runnin'
Runnin' against the wind
Runnin' against the wind
See the young man run
Watch the young man run
Watch the young man runnin'
He'll be runnin' against the wind
Let the cowboys ride
Let the cowboys ride
They'll be ridin' against the wind
Against the wind ..
A nossa vida é uma luta permanente contra os ventos. A minha foi e ainda continua a ser.

Témis
21-01-2005, 20:42
E eis-me de chegada. Aqui no teu cantinho, fico a embeber-me das coisas belas da vida que a fantasia virtual nos trás. Já li tudo ou quase e apenas me aproximo para te desejar um Bom Ano, Ventor. Tenho estado por longe, mas já por aqui ando e com saudades da .. Tasca, não é?

Será que vamos ter mais? Beijinhos.

Ventor
24-01-2005, 19:28
Olha a Témis! Também tens andado fugida! Não sei se vai haver mais, mas sei que é bom ver-te por cá. Vai dizendo olá, e espreitando pela janela, Ok? Para já um Bom Ano de 2005 também para ti. Comecei de manhã a integrar-me no Fórum, pois 2 ou 3 dias de ausência desarruma tudo. Mas tive de desistir e já cá ando outra vez. A ver se desta vai ser!

Quico
07-03-2005, 19:55
Amigos, nas memórias do Ventor encontrei este rascunho. Espero que ele não me ralhe, mas eu vou colocá-lo aqui.

O Balanço

Na minha escola velhinha,
Esvoaçava um picanço,
E fazíamos a corridinha
Para chegar ao balanço.

Púnhamos o pau no muro,
Iam cinco p'ra cada lado.
O balanço era inseguro,
Mas era do nosso agrado.

O Senhor da Paz protegia
Aquela malta de Adrão,
Que com tanta correria,
Alguns vinham ao chão.

De escola e brincadeira,
O estômago estava cheio.
Mas não havia maneira,
De prolongar o recreio.

Na mãozinha a sacola,
Fisga no bolso de trás.
Quem me dera aquela escola,
Frente ao Senhor da Paz.

É lindo, mesmo para um gato! Ai se o meu amigo Mertistóffeles vê isto!

http://salpicos.blogs.sapo.pt/arquivo/Senhor-Paz.jpg

Senhor da Paz

Era aqui a escolinha do Ventor.

Ventor
18-03-2005, 22:48
Os Carvoeiros

O Ventor era pequenino mas já andava agarrado ao rabo das vacas. Quando começava a trepar as encostas da sua serra, ele olhava lá para longe e via muitas fumarolas. Tudo aquilo lhe fazia impressão.

Um dia, pegou na mão do pai, e perguntou-lhe, apontando, porque haviam aqueles fumos na serra. O pai respondeu-lhe sinteticamente, que eram os carvoeiros. Mas o Ventor não ficou satisfeito com a resposta! Queria saber mais! O pai, à sua maneira, tentou explicar-lhe quem eram e o que faziam os carvoeiros.

O Ventor continuou a não ficar satisfeito com a resposta. Um dia subiu a serra até ao local onde estavam a fazer o carvão e viu homens e mulheres, junto de três fumarolas, na sua azáfama diária. Usavam velhos albions, chamavam-lhe uns e picaretas, chamavam-lhe outros. Os homens levantavam cheios de força aquele grande utensílio até trás das costas e espetavam-no no chão, com toda a força que tinham. O Ventor olhava aquelas figuras e elas metiam, de facto, medo! A cara escura, quase negra, as roupas esfarrapadas, o olhar esbogalhado pelo cansaço, a fome, a sede … as agruras da vida!

À chegada do Ventor, um dos homens pegou numa bota galega com vinho e esguichou para a boca aquela bebida que o Ventor sabia ser a preferida de Baco. Uma mulher apareceu toda despachada com uma posta de bacalhau salgado numa mão e pão na outra. Os homens pousaram as ferramentas e sentaram-se à sombra, no chão, ao lado de umas moitas de urze enquanto as mulheres repartiam o manjar, deveras salgado, pois presunto, eles não tinham e o bacalhau era espanhol.

Um dos homens perguntou ao Ventor de onde era e de quem e o que fazia ali. O Ventor explicou tudo e o homem ofereceu-lhe um bocado de bacalhau e pão, que o Ventor não aceitou.
«Conheço o teu pai, Ventor! Connosco estás entre amigos! Queres aprender a fazer carvão? É um trabalho que não interessa a ninguém Ventor, mas é a forma que nós temos de levar a vida. Estas montanhas são os nossos campos de milho, as nossas vacas, as nossas cabras, as nossas ovelhas, as …”!

O Ventor desculpou-se que ia virar as vacas e não aceitou o pão e o bacalhau. Estava um pouco atemorizado com aquela gente e mais ainda com os machos e as mulas que estavam ali para carregar o carvão que ia sair das fumarolas e ensacado em velhos sacos já negros do uso. Aquelas animais que se iam alimentando nos montes ao pé dos donos, já sabiam qual a sua tarefa. E que tarefa! Carregados montanha abaixo, e fazer quilómetros até à entrega do produto, muitas vezes nos Arcos de Valdevez a cerca de 30 Kms.

Dias mais tarde, o Ventor vê os machos carregados atravessarem a aldeia e o homem mais velho dirigir-se a seu pai, cumprimentando-se amigavelmente.
“Então ti Catorno, as urzes dão ou não dão ” – perguntou o pai do Ventor?
“Está difícil, João. Muito difícil! Mais meia dúzia de anos e ficamos sem torgos, Tudo acaba”. Desejaram-se boa viagem e …

Mas o Ventor ficou a pensar no carvão. “Acaba” – pergunta o Ventor - pensando? De facto, pelo que o Ventor tinha visto, o carvão era feito com torgos de urze. Os torgos eram as raízes velhas das urzes enterradas entre as rochas da montanha sabe-se lá desde quando – centenas, milénios? Tudo acaba e não haveria razão para que os torgos não acabassem e portanto o mundo ia ficar sem carvão!

Mas o problema não estava apenas nos torgos, nem na eventualidade da falta de carvão para aquecer o Mundo. Estava em tudo que os rodeava, e muito para além da compreensão do pequeno Ventor. Tudo em volta fervilhava! O Ventor já ouvia falar em locais estranhos, em terras estranhas. Se Lisboa ficava longe, essas terras só meia dúzia de iluminados as passaram a conhecer. A Espanha estava do outro lado de outro rio ali perto, mas palavras como Handaia? França? …essas vinham fazer inchar, no futuro, a sua memória.

Dentro de pouco tempo, o Ventor vê-se atravessar a serra com uma fortuna numa saca. Era muito dinheiro e era para pagar uma dívida. O ti Ramilo, o tio preferido do Ventor, o que o ensinou a fazer enxertos, a semear, a plantar a … fazer tudo, tinha ido para França, clandestino, fugido como um criminoso! Tinha atravessado um mundo basto como a Espanha e a tia Joaquina foi pedir ao pequeno Ventor para levar aquela grande fortuna a Paradela. No olheiro das Fontes, o Ventor abriu a saca e ao ver tanta nota pensou que, naquele momento, com aquele dinheiro, era a pessoa mais rica do Mundo.
Nah! O Ventor fechou a saca e foi um vê-lo correr direito a Paradela para se ver livre do instrumento da cobiça.

A partir dali, as vidas na aldeia começaram a mudar radicalmente. As mulheres começaram a vestir-se de negro. As jovens companheiras do Ventor, sempre coloridas, começaram a seguir a peugada das mães. Os pais avançavam para França, as mães e as filhas vestiam-se de luto e a aldeia começou a ficar triste. Os Catornos, os tais carvoeiros, que eram de Riba de Mouro, se instalaram e adoptaram Adrão como a sua nova terra, o seu novo ninho, também se afoitaram nos caminhos de França!

As fumarolas acabaram e os machos dos Catornos, não mais carregaram carvão. Num ápice tudo se transformou. Os homens de Adrão emigraram para novos mundos e passaram a falar francês.

Témis
09-05-2005, 00:23
Então, ventor? Quando nos dás mais um pedaçinho das tuas memórias? Já fui ao Site do quico e parece que nem tudo tem estado bem. Aparece ventor aqui no teu cantinho. Agora cheguei cá e senti um vazio. Bjs.